Quatro décadas antes do caso do imóvel, boato anônimo já acusava Lula de esconder uma casa de veraneio no litoral paulista
Há dez anos, em meados de 2016, um edifício insuspeito localizado no Jardim Astúrias, Guarujá, se tornou um dos endereços mais famosos do Brasil. Fotógrafos faziam plantão nas calçadas, câmeras de TV disputavam ângulos da fachada e repórteres entrevistavam moradores e faziam pedidos insistentes de permissão para conhecer o local por dentro.
O motivo de tanto interesse era a alegação da força-tarefa da Lava Jato de que um apartamento triplex situado no edifício teria sido destinado a Luiz Inácio Lula da Silva como contrapartida por supostos favores a uma empreiteira.
Em 2017, o então juiz Sérgio moro referendou a acusação da Lava Jato e condenou Lula a nove anos de prisão. A condenação tirou o líder petista da disputa eleitoral de 2018, mantendo-o encarcerado por 580 dias e pavimentando o caminho para que Jair Bolsonaro chegasse à presidência.
Lula sempre manteve que o triplex do Guarujá não era seu e que a condenação que sofreu fora politicamente motivada. Anos depois, após o vazamento de mensagens que comprovaram a existência de um conluio entre juiz e promotor para condenar o petista, a narrativa da Lava Jato começou a ruir.
O Supremo Tribunal Federal acabou por reconhecer a parcialidade de Sérgio Moro, o uso político das acusações e a existência de graves irregularidades na atuação judicial dos promotores da Lava Jato. Em 2021, a condenação foi anulada e o processo acabou arquivado. A alegada posse do triplex por Lula jamais fosse comprovada.
Os boatos de que Lula possuiria imóveis no Guarujá, no entanto, antecedem em décadas a própria existência da Lava Jato. Eles ecoam os panfletos anônimos que circulavam nas ruas do ABC Paulista ainda nos anos 80. Em novembro de 1982, o jornal “O Estado de S. Paulo”, um dos veículos de mídia que mais se empolgaram com a Lava Jato e com o “escândalo do triplex”, já acusava o fundador do Partido dos Trabalhadores de ter uma casa de veraneio no litoral paulista.
Principal expoente do Novo Sindicalismo — movimento operário que buscava criar um sindicalismo autônomo, rompendo com a subordinação histórica das organizações trabalhistas ao Estado —, Lula já havia se consolidado no início dos anos 80 como uma das principais lideranças populares do Brasil.
Após coordenar as greves operárias do ABC Paulista, Lula reuniu apoio substancial das esquerdas e dos movimentos sociais, fundando o Partido dos Trabalhadores (PT). Perseguido pelos órgãos repressivos do regime, Lula foi preso pelo DOPS e processado pela Lei de Segurança Nacional. Sua prisão, entretanto, serviu de combustível à radicalização do movimento operário, transformando o Novo Sindicalismo no principal protagonista da oposição à ditadura militar.
À medida em que consolidava seu papel como liderança, Lula tornou-se alvo de críticas e ataques frequentes. Paradoxalmente, uma parte desses boatos tinham origem em setores da própria esquerda, alarmados pela perda de protagonismo ou incomodados com a capacidade de mobilização popular do ex-metalúrgico.
Na esquerda radical, havia quem se apressasse em reduzir o PT a um “partido burguês” e menosprezasse Lula por sua falta de estudo e conhecimento teórico do marxismo. Dentre os mais moderados, a crítica era ao “radicalismo petista” e Lula era frequentemente acusado de irresponsabilidade, por supostamente colocar em risco o processo de distensão do regime militar. Os trabalhistas, por sua vez, se incomodavam com as críticas de Lula ao varguismo e ao modelo sindical que haviam ajudado a criar e demonstravam inconformismo com a cooptação de suas bases sindicais pelo petismo.
Assim, alguns dos mais antigos boatos sobre Lula tinham por objetivo despertar a desconfiança dos trabalhadores acerca da legitimidade de suas ações. Um panfleto apócrifo distribuído no início dos anos oitenta assegurava que Lula morava em uma gigantesca mansão com piscina no Morumbi e que ostentava uma vida de luxo quando estava longe dos olhares dos trabalhadores.
Outro boato difundido junto aos trabalhadores dizia que Lula era um agente secreto a serviço do regime militar e que o PT era uma legenda falsa criada pelo general Golbery do Couto e Silva para servir de “oposição controlada” à ditadura — rumor que persiste até hoje, ventilado tanto por setores da esquerda antipetista como por grupos reacionários.
Em 1982, após lançar sua candidatura ao governo do estado de São Paulo, Lula se tornou alvo de mais um boato. Dessa vez, o petista era acusado de possuir uma luxuosa casa de veraneio no Guarujá. A acusação foi difundida através de panfletos apócrifos distribuídos na região do ABC Paulista.
Sob o título “Ao povo de São Bernardo – A honestidade de Lula”, os panfletos traziam a imagem de um imóvel de luxo, ao qual se sobrepunha a estrela símbolo do PT com a frase “essa é a casa onde Lula passa suas férias no Guarujá”. No panfleto, Lula era acusado de “receber dinheiro do governo e de multinacionais” para fazer viagens internacionais “na primeira classe”, enquanto os trabalhadores estavam “nas filas, mendigando alimentos”.
O texto afirmava ainda que Lula teria feito um acordo para ser libertado da cadeia pelo regime militar, concordando em “enfraquecer a oposição” através de candidaturas de fachada. Por fim, o panfleto dizia que Lula era responsável por aumentar o desemprego ao insistir em realizar as greves contra o regime.
Lula atribuiu os ataques ao PMDB paulista, que havia lançado a candidatura da chapa Franco Montoro/Orestes Quércia ao governo do estado. O PT divulgou nota negando os boatos e revelando o endereço de Lula para quem quisesse conferir.
Dizia o documento: “As greves não foram feitas por Lula, mas por 140 mil peões, em assembleias democráticas, e o desemprego existia antes de Lula e existe depois de Lula, pois é causado pela política econômica de Delfim Netto e a turma do PDS. (…) A onda da mansão do Morumbi não pegou, porque o Lula mora no Jardim Lavínia, à rua Maria Azevedo, 273, em São Bernardo do Campo. Agora, inventaram a casa de férias no Guarujá. Nos últimos dez anos, as únicas férias que o Lula teve foram os 31 dias que passou na cadeia do DOPS (órgão de repressão política da ditadura).”
A nota do PT terminava com um desafio aos difamadores: “Desafiamos os acusadores do Lula a mostrarem a cara e darem o endereço da tal casa do Guarujá”. Quarenta e quatro anos depois, atravessados por um golpe jurídico-parlamentar e por uma prisão política de quase dois anos, a existência de um imóvel de Lula no Guarujá ainda não foi comprovada.
Uma nova chance de analisar os dados fiscais, bancários e telefônicos do petista em busca de supostos patrimônios ocultos foi ofertada à direita brasileira pelo próprio Lula, que se ofereceu a abrir voluntariamente seus sigilos no segundo turno da eleição de 2026. Mas até o momento, seu oponente, Flávio Bolsonaro, curiosamente tem preferido declinar do desafio.

