Frente ao desafio representado pelos efeitos deletérios da mundialização, e as numerosas pessoas afetadas pela precariedade psíquica, já temos ouvido durante esse congresso, numerosas respostas e experiências muito enriquecedoras. Agora vou apresentar-lhes nossa experiência brasileira. Como respondemos a esses problemas e que soluções ou pistas encontramos.
Nasci numa família modesta do nordeste brasileiro e fui impregnado da cultura do sertão, dos saberes tradicionais mágico-religiosos e acabei conhecendo uma das formas de representação da doença e do sofrimento, pelo povo sertanejo. Mais tarde, ingressei no curso de medicina na Universidade Federal do Ceará, e encontrei outros modelos e ferramentas para apreender o conhecimento sobre a doença, os sofrimentos e os tratamentos. Me dei conta de que existiam dois modelos de representação da doença, aparentemente diferentes: o popular e o acadêmico. Tais modelos me pareciam segregativos, um excluía o outro.
Tive sorte! Em um período difícil da ditadura dos coronéis, vim estudar na Europa. Como garimpeiro, eu pensava que a Europa representava uma mina inesgotável de riqueza intelectual, de saberes e de competências universitárias. Fiz a minha especialidade em psiquiatria em Lyon, onde tive o prazer de conhecer meu amigo Furtos e Jean Guyotat e fiz o doutorado em etnologia, com o professor François Laplantine. Por fim, segui e validei estudos de filosofia e teologia em Roma e de Etno-psiquiatria em Paris com Georges Devereux.
Enquanto seguia cavando minas de ouro, buscando pepitas cada vez mais puras, me dei conta progressivamente que essas minas escondiam falhas relacionais de calor e de humanidade cuja expressão era, no entanto, muito frequente na minha cultura nordestina.
Ao voltar ao Brasil, com todas as medalhas do saber europeu, me propuseram em seguida uma cátedra de professor de saúde comunitária e consultor de psiquiatria no hospital universitário.
Nesses períodos de consultas, eu recebia cada vez mais pessoas da favela, enviadas pelo meu irmão, advogado do Centro de Direitos Humanos. Elas sofriam de exclusão, eram vítimas de violência familiar, ou de abandono. Frente a esse fluxo de pessoas que me consultavam, apresentando as mesmas dificuldades existenciais, eu me dei conta, que a minha posição e as minhas competências tinham o seu limite. Frente a esses desafios decidi ir ao lugar, onde essas pessoas viviam, para compreender o seu contexto e as situações que elas enfrentavam. Mas sobretudo, eu pensava que no meio dessa comunidade, havia recursos, saberes, e que o meu papel poderia ser o de ajudá-los(as) a reconhecer suas capacidades e competências e assim, reuni-las para que pudessem partilhar suas experiências.
No meu primeiro encontro, 30 pessoas me esperavam na favela: eu propus que os(as) que o desejassem, falassem, para evocar a dificuldade que os(as) perturbava. Entre as situações-problema apresentadas, estava a insônia de uma mãe solteira de três filhos, que foi a que mais impactou o grupo. Em vez de demonstrar a minha “ciência” e fazer o meu diagnóstico, propor os meus remédios…quis saber se outras pessoas já viveram uma situação similar e o que fizeram para melhorá-la ou resolvê-la. Então através das experiências vividas contadas pelas pessoas, apareceu uma grande variedade de soluções e modos de lidar: chás, esportes, orações, riso, passeios, remédios. A partir daí uma reflexão foi levada a cabo sobre o que os moradores dessa comunidade poderiam fazer coletivamente para lutar contra a insegurança e a violência na favela.
Desde essa primeira sessão, pude comprovar que tinham problemas, mas também tinham soluções, vindas da cultura e da aprendizagem adquiridas a partir das dificuldades vividas. Um dos eixos da nossa intervenção era valorizar as competências de cada um(a) e do grupo. Nessa primeira sessão tinha umas 30 pessoas e cada semana o número de participantes aumentava. Os temas das reflexões disseram respeito ao álcool, a droga, a violência na família, à educação dos filhos, aos conflitos no casal…
Mas cada um destes temas era abordado, não como uma questão intelectual mas como uma reflexão e uma partilha de experiências, a partir de uma situação emocionalmente vivida: por exemplo o tema não era o alcoolismo, mas sim o sofrimento e as dificuldades expressadas por uma mãe como: “todas as noites tenho medo pelos meus filhos, quando meu marido chega em casa bêbado.”
A riqueza dessas trocas, rapidamente nos levou a gravar as sessões para melhorar, a partir da prática, essa ferramenta de intervenção psicossocial e a instalar um trabalho de pesquisa sobre os efeitos e as repercussões individuais e coletivas dessas sessões de conversação regulares. Assim, progressivamente, os(as) estudantes de medicina e psicologia vieram me acompanhar nessas sessões, realizadas na comunidade pobre da favela de Fortaleza, chamada Quatro Varas.
Nas sessões, tivemos que desinstalar a tendência ao diagnóstico, para não cair novamente no modelo de alienação social, privilegiando o poder e a palavra de alguns, assim como as relações verticais. Tentamos valorizar o reconhecimento da riqueza de cada um(a), em relações horizontais. Vimos rapidamente que era preciso proteger a palavra de cada um(a) e as trocas das tentativas de tomada de poder, do desejo de impor as nossas ideias ou de ajudar o outro(a). Um grupo de conversação, em uma comunidade é benéfico, quando a qualidade das relações que se estabelecem favorece o crescimento de cada um(a).
A primeira coisa a levar em conta, era a minha participação! Como abrir mão da minha posição de especialista, detentor do saber universitário?
Pensei primeiro no meu dever como médico que era cuidar do(a) outro(a). E me dei conta de que eu não estava lá, só para dar, oferecer cuidado. Descobri um interesse pessoal maior que o universitário, nas ressonâncias que suscitava a evocação das experiências dos outros participantes. E como os outros, eu também estava interessado na partilha e troca de experiências. A partir dessas sessões, descobri que a precariedade também estava em mim. Então percebi que eu vinha para as sessões, para tomar um banho de humanidade, de simplicidade, que curava a minha alienação universitária e me permitia encontrar de novo “o índio que está em mim.” Isso facilitou o abandono da minha posição hierárquica e do saber incompatível com esses grupos de conversa, privilegiando a horizontalidade das trocas, tal como nos pareceu pertinente.
Como criar trocas verbais sem dominação? É a esta pergunta que responderam o desenrolar das diferentes fases da Terapia Comunitária Integrativa e as regras que se estabeleceram. É o que garante que a comunidade seja libertadora e não um espaço de dominação, de massificação do indivíduo.
Assim as regras e um desenrolar muito preciso, foram instituídos para garantir a liberdade de palavra, o respeito pelas diferenças e a valorização dos saberes que cada um, qualquer que seja, tirou das suas experiências da vida. O que nos interessa são as experiências da vida de cada um, e não o status social ou a especialidade de cada um.
Alguns elementos do contexto da nossa ação
As transformações que decorreram das novas tecnologias, da globalização e das guerras, obrigaram populações inteiras a deslocar-se.
Esses fenômenos migratórios causam uma série de perdas. Perde-se o vínculo com a terra, a comunidade, a família, e com os valores da própria cultura. Essas perdas fazem com que o grupo não tenha mais os elementos fundamentais que alimentam a identidade cultural e garantem a coesão da comunidade.
Nesse novo grupo não tem mais um guardião, “um pai”, um chefe que faça a segurança de todos. É então emerge o sentimento de ser abandonado, de ser órfão. Isso gera em certos indivíduos e famílias uma situação de miséria e de exclusão social que não acontecia na sua comunidade de origem.
Frente às fraturas dos laços sociais que provêm dessas situações, as soluções já não podem ser obra de uma única pessoa, quer seja um líder político, religioso ou científico. Ao colocar as suas esperanças num “salvador da humanidade,” o povo torna-se seu refém e é vítima das suas manipulações. Mas não se trata de eliminar o “especialista” porque ele tem um papel importante na nossa sociedade. Ele é um parceiro a mais.
Trata-se de “recuperar” o capital “sóciocultural” do grupo, para que este seja co-participante das decisões e das políticas sociais. Para isso é necessário romper com o modelo que concentra as informações e poder nas mãos de uma só pessoa, para passar a um modelo que valorize as competências do grupo e permita a circulação da informação.
Esses contextos exigem a criação de novos paradigmas capazes de promover uma ação terapêutica criativa e efetiva, que nos permita:
Ver o ser humano e o seu sofrimento no meio de uma rede relacional.
Ver além do sintoma: “aquele que olha o dedo que mostra uma estrela, nunca verá a estrela”.
Não identificar demais a gravidade da patologia, mas o potencial de quem sofre.
Fazer com que a prevenção e a promoção da saúde sejam uma preocupação constante e uma obra de todos.
A comunidade age onde a família e as políticas sociais não fazem nada. Afirmamos que a solução está no “coletivo” e as suas interações, na partilha, nas identificações com o outro, no respeito pelas diferenças. Privilegiamos o trabalho de grupo, para que juntos partilhemos problemas e soluções. O grupo funciona como um “escudo protetor” para os mais vulneráveis. Torna-se um meio de agregação e de inserção social.
O alvo da intervenção é o sofrimento, nunca a patologia. Os terapeutas devem fazer parte dessa construção. Comunidade e terapeutas tiram um benefício disso. A comunidade desenvolve autonomia e inserção social e os terapeutas se curam tanto do seu “autismo institucional e profissional” como da sua “alienação universitária.”Toda essa experiência que fomos pondo em prática representa fundamentalmente uma mudança de paradigma, uma mudança de óculos que nos leva a:
- Ir além do individual para nos interessar pelo coletivo, pelo público,
- Ver além das carências, deficiências, para se apoiar sobre as competências adquiridas pela experiência de vida e fazer surgir o potencial de quem sofre.
- Sair de um modelo que gera dependência, para um modelo que alimenta a autonomia e a co-responsabilidade.
- Sair da verticalidade das relações para a horizontalidade.
- Desconstruir uma atitude de desconfiança para com o outro e crer mais na capacidade do outro.
- Romper com o isolamento do saber científico e do saber tradicional.
- Transformar a ideia de que “a solução vem da outra parte”, para a solução se encontra na pessoa, na família, na comunidade.
- Romper com um modelo clientelista e promover uma consciência crítica e cidadã.
Na Terapia Comunitária Integrativa, convidamos as pessoas a expressarem os seus sentimentos e emoções, sem risco de serem julgadas, o que permite fazer sair as tensões causadas pelo estresse.
Do que falar? Das preocupações do dia a dia, dos problemas, do que nos impede de dormir, do que nos preocupa ao nível da educação dos filhos, das relações familiares, do desemprego, das violências em casa, no trabalho ou na sociedade. A Terapia Comunitária não é um lugar para confidenciar grandes segredos.
A “situação-problema” apresentada por alguém, e escolhida pelo grupo, é um ponto de partida. É a partir dessa situação que o terapeuta procura favorecer o crescimento do indivíduo e das pessoas que o rodeiam, para adquirir um maior grau de autonomia, de consciência e de co-responsabilidade. A questão-chave que é a raiz da reflexão é: “Quem já viveu uma situação semelhante e qual foi a solução que encontrou?”
Trata-se de colocar palavras sobre os males. Na Terapia Comunitária, a palavra é o remédio, o bálsamo que acalma, a bússola tanto para o que fala como para o que escuta. É nos intercâmbios das experiências de cada um que a dor das pessoas sofredoras é aliviada e que podem aparecer novas pistas para resolver os problemas. Isso permite a comunidade encontrar em si mesma as soluções para problemas e que isoladamente a pessoa, a família e os serviços públicos, não foram capazes de encontrar. O grupo torna-se um espaço de acolhimento e de cuidado.
Apresento brevemente e em resumo, o dispositivo que construímos em 25 anos de prática: As 5 etapas de uma sessão de Terapia Comunitária
1.ACOLHIMENTO. (finalidade)
- Pré-aquecer o grupo para a partilha.
- Deixar os participantes a vontade.
- Garantir um diálogo respeitoso.
- Estruturar o intercâmbio que deve ter lugar sem julgamento.
Lembrar as regras: elas têm uma função estruturante para o grupo porque garantem a escuta respeitosa e protegem das manipulações ideológicas.
O silêncio: É uma regra de ouro. Permite a escuta ativa. A gente se escuta a si mesmo quando o outro fala de si.
– Falar de si na primeira pessoa: Isso permite ao indivíduo tomar consciência da importância da sua vida e da sua singularidade. Reforçar sua identidade pessoal e cultural dá-lhe uma maior capacidade de agir.
Não dar conselho, não julgar, não interpretar, não fazer discurso nem sermão. Cada um é doutor em sua própria história. Respeitar sempre o processo e não focar no resultado. O que é bom para uma pessoa pode não ser para a outra. Ninguém é dono da verdade.
As músicas, provérbios: têm por função de acolher e de conter as emoções que emergem no grupo. Ajudam a sair do sofrimento individual pela ajuda coletiva. Desdramatizam as situações e permitem, ao utilizar metáforas, nomear as emoções.
A comemoração dos aniversários e das datas significativas: valoriza as pessoas e os acontecimentos e favorece a formação de redes após a sessão de TCI.
As dinâmicas de aquecimento, deixa as pessoas mais soltas, sem medo de se expressar.
2.ESCOLHA DO TEMA; função e sentido
- Incitar a falar. É importante ajudar as pessoas a falar, a exprimir-se com a ajuda dos provérbios que provém da cultura dos participantes.
Por que falar com a boca? “Quando a boca cala os órgãos falam, quando a boca fala os órgãos saram”, ou põem em “palavras” os nossos “males.” Vamos falar com a boca para não exprimir nosso mal-estar com uma doença como a depressão, a gastrite, as dores…
Do que falar? Do que nos impede de dormir. Por exemplo, “como mãe ou pai o que nos preocupa ao nível da educação dos nossos filhos, a falta de segurança, a violência…”
A TCI não é o lugar onde se revelam grandes segredos.
Quem quiser falar diz o seu nome e o seu sofrimento em poucas palavras. O terapeuta deve anotar os nomes e fazer uma pequena síntese de cada história apresentada. Ex:”Deixe-me ver se entendi o seu sofrimento: é medo de ser roubado?” Isso permite a busca de sintonia no grupo (estar na mesma frequência): o respeito e a restituição fiel do que foi dito são indispensáveis para construir uma significação comum que facilita as identificações e estrutura a partilha de experiências.
Na restituição: concentrar-se na emoção e não no problema.
Ex: Seu sofrimento é o medo da recaída?
Seu sofrimento é a impotência para ajudar a sua mãe?
Pedir para o grupo prestar atenção, porque vai ter que escolher um dos temas. Depois que todos falarem, o terapeuta deve restituir a síntese ao grupo e pedir que as pessoas digam cada uma qual é o tema que vai escolher entre os que estão apresentados nesse dia e por quê. Identificar sua escolha é um pretexto pedagógico importante: aprende-se a argumentar suas escolhas e opções. Hoje porque escolher tal problema, e amanhã por que escolher tal candidato na política!
Logo os presentes votam. Poder votar é um exercício democrático, aprender a se posicionar, a defender seu ponto de vista e tornar-se “sujeito” da sua história pessoal. Em realidade, através da escolha de tal tema, é o meu sofrimento que acolho. “Eu só reconheço no outro o que conheço em mim”. O terapeuta se dirige à pessoa cujo tema não foi escolhido, pede a sua compreensão e se põe ao seu dispor no fim da sessão de TCI, para propor uma orientação ou definir um tipo de acompanhamento apropriado.
- CONTEXTUALIZAÇÃO: função e sentido
“Um fenômeno torna-se incompreensível quando o campo de observação não é suficientemente vasto para que nele esteja incluído o contexto” (P. Watzlawick)
- Pede-se à pessoa cujo tema foi escolhido que fale da sua preocupação, que traga mais elementos.
- Lembrar que todos os participantes podem fazer perguntas e que a pessoa cujo tema foi escolhido tem o direito de não responder.
- Ao fim agradecer à pessoa que trouxe a situação-problema, dizer-lhe que a partir de agora ela deverá permanecer em silêncio e escutar os testemunhos dos participantes.
- Enquanto a pessoa fala, anotar as palavras-chave que servirão para a formulação da pergunta-chave para a próxima etapa da TCI.
Que tipo de perguntas fazer?
- Perguntas que favoreçam a reflexão sobre si e sobre os seus laços familiares, profissionais, sociais.
- Evitar as perguntas investigativas.
- Perguntas que se referem ao processo e não aos resultados.
Exemplos:
-O que foi o mais doloroso nessa perda?
-O que você fez para a superar?
-Que valores ou crenças ajudaram você?
-O que é que a morte não destruiu da pessoa que lhe deixou? - Perguntas que facilitam a compreensão do problema, que esclarecem suas relações e a visão que a pessoa tem de si mesma e que permitem “abrir as portas” para o futuro.
- Ultrapassar os pré-conceitos, re-significar, dar de novo um sentido à vida. Sair do conselho, da falta, para chegar à co-responsabilidade.
- Tornar possível a tomada de consciência da sua responsabilidade em toda relação.
- PROBLEMATIZAÇÃO (partilha de experiências de vida – função e sentido)
A situação trazida pelo protagonista faz emergir situações semelhantes já vividas e as estratégias respectivas pelas quais a dificuldade foi superada. Ao fazer a pergunta-chave:
“Quem já viveu uma situação semelhante e que fez para superá-la?”, permite:
- tornar visível um sofrimento escondido
- re significar a profundidade da sua dor, do seu sofrimento, ao descobrir que estes são comuns a muitos.
- sair do sentimento de solidão e fazer crescer o repertório das diferentes possibilidades de inserção.
- pôr em evidência e legitimar os recursos sócio-culturais disponíveis na rede.
- respeitar as diferenças que se exprimem em múltiplos códigos de expressão e fazer surgir soluções e estratégias novas.
- aprender a pensar juntos e estabelecer um espaço de construção coletiva sob uma forma participativa e democrática.
- reforçar a rede das identificações que vai entrar em cena depois da sessão de TCI.
- reforçar a vida e fortificar as iniciativas de humanização já presentes.
A TCI é regida pela ética das relações a serviço dos valores da vida, da igualdade, da justiça e da cidadania.
- ENCERRAMENTO (função e sentido)
É um momento especial, no qual se revelam a profundidade das experiências vividas e o que vai facilitar o renovar e a mudança em si e nos outros.
Os rituais de agregação são um momento de síntese humanizante em que os participantes se dirigem uns aos outros para exprimir sua gratidão e sua admiração frente a coragem e às qualidades que emergiram a través das palavras ouvidas e para partilhar o que aprenderam durante a sessão de TCI.
Inclui:
- Formar um círculo: o fato de se apoiar uns nos outros, num clima de afetividade e de intimidade, reforça o sentimento de união num mesmo movimento de busca de equilíbrio harmonioso. As palavras de identificação, ditas antes, se exprimem agora numa atitude corporal de construção de uma rede humanizadora.
- Conotar positivamente as intervenções de todos: o terapeuta comunitário reconhece, valoriza e agradece pelo esforço, pela coragem, a determinação e a sensibilidade da pessoa cujo tema foi escolhido e dos participantes que apresentaram suas dificuldades. É uma maneira de refletir sobre a possibilidade transformadora dos intercâmbios.
- Pedir que os participantes exprimam também o que aprenderam ao escutar a história desta pessoa ou que digam o que os marcou mais entre as testemunhas ouvidas. As pessoas presentes são solicitadas para testemunhar o que realmente viveram a partir de perguntas como: “o que é que memorizei destes intercâmbios?”
- Uma vez a TCI acabada, começa a construção de uma rede social.
Algumas reflexões para concluir
Que mudanças e que diferenças trouxeram as sessões de TCI para cada um e para a comunidade?
- Para o indivíduo: uma reconciliação com a sua palavra, uma elevação da estima de si ao se dar conta de que a sua própria experiência pode ser interessante e útil aos outros, o sentimento de pertencer a um grupo, a construção de laços, um reconhecimento da sua existência e do seu valor.
- Para a comunidade: podemos constatar a construção de redes solidárias nas investigações efetuadas e efeitos importantes sobre os determinantes sociais da saúde.
- Para os profissionais: humanização das relações, valorização das competências pessoais e valorização dos recursos culturais. Consciência dos seus limites; maior flexibilidade e disponibilidade para o trabalho em equipe.
É óbvio que a saúde é síntese de uma multidão de processos e o produto da interação das diferentes determinantes sociais.
Esta compreensão nos abre horizontes, faz da saúde um território público, plural, um processo dinâmico onde devemos todos intervir preventivamente numa série de fatores, numa dialética mobilizadora dos atores sociais e dos diferentes saberes.
Todos os atores sociais são convidados a intervir em diferentes níveis onde cada pessoa se torna protagonista da sua saúde e ator no grupo.
Esta compreensão torna clara nossa intervenção e nos impede de querer:
- medicalizar os problemas sociais.
- socializar os problemas medicais.
- dar respostas individuais a problemas coletivos.
- atuar como salvadores da humanidade.
- esperar tudo das decisões do governo.
É necessário encontrar soluções participativas ao integrar saberes e ao reforçar redes solidárias. A TCI representou na nossa experiência uma grande força vindo da diversidade da cultura.
A TCI não é uma experiência única, exótica e brasileira. Outros atores comprometidos no campo sanitário ou social perceberam os limites da sua ação e organizaram ferramentas baseadas nos mesmos valores que a TCI e integrando essas sessões nas associações de ajuda. Citarei meu amigo J.P. Boyer no hospital Saint Egrève em Grenoble, o suíço Ricardo Rodari, na Escola de Estudos Sociais (HETS), Nicole Hugon em Marselha, e muitos outros colegas em Lyon, em Romans, em Estrasburgo… que comprovaram que não era suficiente saber tratar as doenças mentais e ter ferramentas sociais para lutar contra a precariedade, mas que era preciso inventar outras formas de ação complementares para favorecer a ressocialização, lutar contra o isolamento e a exclusão apoiando-se nos recursos das pessoas ditas em precariedade. Além disso, os múltiplos estudos de avaliação de impacto da TCI sobre as pessoas e os grupos mostram uma elevação da estima de si, trazendo um reconhecimento, com a constituição da rede relacional, e sentimento de pertencer a um grupo. E a razão pela qual a TCI se desenvolve não só no Brasil, 30.000 pessoas formadas, 46 centros de formação, mas também na França onde formações são organizadas (IFTS), na Alemanha, na África e na América Latina.
A TCI não é uma panaceia, mas uma prática que se apoia nos valores. Outras formas de intervenção terapêutica, precisam ser criadas, nomeadamente no setor artístico ou criativo. Como lembra a fábula que existe em todas as culturas: depois de ter viajado muito buscando o tesouro, é ao voltar em casa e em si que acabamos por encontrá-lo. Como isso foi o meu caso, penso que é necessário pensar nisso para as vítimas das crises da mundialização.
Referências para a França e a Suíça: Formação IFTS Echirolles e HETS Geneva. Associação Europeia de Terapia Comunitária Integrativa: http://www.atec.normandie.com, Thérapie
Que é o que aprendemos dessa experiência e quais são as perspectivas que se anunciam?
- O homem só pode se desenvolver nas relações que o unem ao outro
2. Todo exame da precariedade deve tomar em consideração os recursos pessoais que existem em volta de si. A mina de ouro está dentro de cada um.
3. A precariedade e a riqueza estão por toda parte. São componentes de todo ser humano, de todo grupo humano. A riqueza não pertence somente aos ricos, mas também às bases (a academia não tem a hegemonia da produção do conhecimento – modelo salvador da humanidade)
4. A diversificação dos recursos pessoais culturais deve ser desenvolvida
5. É preciso investir mais nos laços que nos lugares que excluem.
6. O que as instituições não podem trazer é a solidariedade, o carinho…
a ideia de liberdade de palavra e de reconhecimento.
7. É preciso passar de um modelo vertical para um modelo horizontal.
8. É preciso sair de um modelo que gera dependência para ir até um modelo que promove a autonomia
Isso exige:
- Por em questão nossas certezas, porque toda certeza é uma prisão.
2. Fazer uma ruptura epistemológica: valorizar uma alternativa não concorrencial, mas complementar e equilibradora do saber universitário.
3. Romper tanto com o isolamento do saber científico quanto com o “saber popular” e respeitar essas duas formas de saber.
4. Pôr em prática uma “ecologia do espírito” e respeitar as diversidades culturais e seus sistemas de representação.
5. Trabalhar na perspectiva de complementariedades sem romper com a tradição e sem negar a ciência moderna
6. Reconhecer o valor da partilha (escuta ativa)
7. Redescobrir a noção de comunidade e de pertencer a um grupo plural onde as diferenças são respeitadas e valorizadas.
(1) Palavras proferidas na Conferencia dos Cinco Continentes sobre os « Efeitos Psicossociais da Globalização sobre a Saúde Mental: para uma Ecologia dos Vínculos Sociais», realizada em Lyon, França, entre os dias 19 e 22 de outubro de 2011.
Tradução: Albert Yvin

Doutor em Psiquiatria e Antropologia. Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Social. Criador da Terapia Comunitária Integrativa. Autor de vários livros. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/8155674496013599.
