Punir Sem Transgredir

garotinho
A prisão de Antony Garotinho e Sérgio Cabral são os acontecimentos mais falados dos últimos dias.
Enquanto a grande maioria comemora, tomada por um sentimento de vingança, alguns poucos são tomados pela desconfiança e mal estar. A desconfiança não se deve à dúvida quanto às vilanias cometidas por ambos. Disso, acho que ninguém tem dúvidas.
O mal estar deve-se à cena do ex-governador Garotinho, debilitado fisicamente, reprimido à força diante da filha.
Essa cena, bem comum no Rio de Janeiro, pode ser vista quase que diariamente na porta das delegacias da zona sul, em dias de sol: são dezenas de jovens, algemados, transportados em um camburão superlotado, tratados como bicho. E o sujeito, minimamente humano, incomoda-se com isso, independente de quem seja o preso ou do crime que tenha sido cometido. Outros se extasiam e dão as costas a qualquer violação dos direitos humanos.
Tratando-se de Cabral, quem poderia imaginar que o ex-governador, que comandou a invasão no Complexo do Alemão, poderia ter o mesmo destino daqueles traficantes?
Acredito que os mesmos que comemoram as arbitrariedades das ações contra criminosos ligados ao tráfico, também andam comemorado qualquer gesto violento e arbitrário cometido contra políticos. Obviamente, não quero isentar nenhum deles dos maus atos cometidos, mas o preocupante é o crescimento desse sentimento que clama por sangue, vingança, típicos da falta de humanismo dos tempos atuais. Isso, fatalmente, pode ser usado para que outros movimentos violentos, tiranos e autoritários sejam cometidos. O pedido por intervenção militar e a exaltação da figura do juiz Sergio Moro, ocorrido na Câmara esta semana é um grande indício disso.
Voltando a Cabral e ao Complexo, destaca-se que o tráfico de drogas e a violência naquelas regiões não terminaram. Em alguns lugares voltou com a mesma força de antes. Muitos jovens, tanto do lado da polícia quanto do lado dos traficantes foram mortos. O sistema não mudou; as oportunidades não aumentaram; não se acolheu e deu dignidade aos moradores. Os policiais enganados, incentivados a sentirem-se os guardiões do bem, são expostos a uma situação escorchante e violenta, consequentemente, tornando-se mais desumanos e violentos.
Na política acredito no mesmo efeito. Muitos serão presos, outros massacrados psicologicamente e, talvez, fisicamente. E o sistema? O sistema, aparentemente, continua o mesmo. Não se trabalha para que a política seja transparente e promova bem estar ao povo. A prova disso é o golpe de Estado, o atual Presidente, seus ministros e a medida que exclui os Procuradores de serem processados por crimes de responsabilidade, o que indica o surgimento de uma nova casta de intocáveis.
Portanto, a sede de vingança, a indiferença quanto às arbitrariedades e a torcida por mais massacre, prisões e linchamento físico e moral são construções para um Estado de exceção, abrupto e injusto. E isso, a história descreve como ninguém seus resultados.
Incomodar-se com os excessos, com as expressões que exaltam a violência ou preocupar-se com o cumprimento dos ritos não é defender a impunidade. Trata-se de exigir a aplicação dos direitos humanos e da presunção de inocência, desrespeitadas na nossa fúnebre democracia.
Por mais que Sergio Cabral, Antony Garotinho e Eduardo Cunha sejam unanimidades diante da opinião pública, eles são cachorros mortos que estão servindo para aumentar a crença na Lava Jato e suas ações, o que consequentemente tem endossado o sentimento de vingança e revanchismo da população.
Além disso, não se pode perder de vista que existe um projeto neoliberal em curso, que contraria o projeto vencedor das urnas, comandado por grupos intocáveis, que não querem, em hipótese alguma, concorrência ou ser questionados.
Assim como a impunidade e a corrupção, qualquer arbitrariedade, parcialidade e ações desumanas devem ser expostas e combatidas.
Foto(*): agenciabrasil.ebc.com.br

2 comentários sobre “Punir Sem Transgredir”

  1. Quero com simples argumento, lembrar que ,nunca deve haver, ninguém ,que mereça tratamento melhor que outros.Policiais pegam infratores, com garra, os jogam em camburões, porque fizeram por merecer ,tal trato.Tambem, porque se não demonstrar força,e poder,os policiais poderão ,ser violentamente agredidos por estes marginais! E quanto ao Cabral. E, o Garotinho,lhe recordar,o dito por nossa Constituição: Todos ,são ,iguais,Perante a Lei!

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