
Experiências em todo o mundo sugerem: quem quer renovação de lideranças precisa abrir-se ao erro. Em pequenos grupos, inovações como a amizade crítica e o perdão prévio ajudam a transformar. Ensinam algo a grandes sociedades, marcadas por polarizações?
Por Débora Nunes | OutrasPalavras – Terra e Antropoceno | Publicado em 25/09/2026 às 17:30
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A série de artigos em que Débora Nunes relata suas observações sobre dezenas de comunidades antissistêmicas em todo o mundo pode ser lida aqui. As reflexões da autora sobre o poder nestes territórios foram abertas num texto publicado em 18/9 e serão concluídas em 2/10.
A política da amizade
Para além do que vi nas ecovilas pelo mundo, tenho experiência de longa data com movimentos alternativos. Sem falar na inspiração que vem de dezenas de livros e artigos que abordam a questão, esquadrinhados nos longos anos de pesquisa e engajamento em coletivos. Movimentos tão diversos quanto os que atuam no combate à injustiça social, no estímulo à economia solidária, em favor do meio ambiente ou da construção de uma cultura de participação cidadã. Estive à frente de muitos projetos de gestão compartilhada e a vivência na própria ecovila da qual sou fundadora, a Ecovila Alto Lindo, trouxeram metodologias de trabalho que reconheço como poderosas. Uma delas é o que chamei de “política da amizade”, que visa valorizar a este modo de relação como inspiração maior do estar juntos, do fazer juntos.
A amizade tem duas características fundamentais: de um lado, pessoas amigas são cúmplices, se apoiam, se respeitam, se compreendem e defendem uma à outra, sobretudo em público. Porém, ao mesmo tempo, a amizade é exigente: amigas e amigos, mesmo capazes de perdoar, querem ver em ação a melhor versão que conhecem da outra pessoa. Na intimidade há franqueza, “puxa-se a orelha” quando a pessoa faz bobagem, acende-se alertas em face a situações problemáticas, mesmo apoiando, em público, geralmente, sua amiga ou amigo. Confiança, cumplicidade e exigência são parte desta que alguns dizem ser “a maior instituição da humanidade”. Relações interpessoais deste tipo podem servir de modelo a relações coletivas e ser impulsionadoras vitais na construção da ecovila. Construir ambientes de confiança, dar espaço a conversas francas, criar uma cultura de valorização de cada pessoa no que ele tem de melhor é incorporar a amizade como inspiração concreta na vida comunitária.
As amizades se constroem nos desafios, mas também na festa. Valorizar os momentos que fortalecem os talentos relacionais — situações descontraídas em que o contato com outras pessoas se torna mais fácil — ajuda a cultivar o espírito de comunidade, a superar antipatias e a reduzir certa tendência tribal humana de formação de grupos contrastantes. As formas prazerosas de estar junto favorecem a unidade e a longevidade das ecovilas e dos “novos coletivos cidadãos”. Incluir no processo coletivo o tempo do cuidado, da partilha sem pressa, dos rituais, da oração, da meditação, do convívio, de cozinhar e limpar espaços coletivamente, e da festa, é tão importante quanto abrir ruas, construir casas e cozinhas comunitárias, criar escolas ou avançar nos processos de legalização. Tamera, em Portugal, e ZEGG, na Alemanha, são ecovilas que se destacam por suas festas, TerraMirim no Brasil pelos rituais xamânicos que unem o coletivo. Mas cada ecovila lida com isso à sua maneira. A descontração e a leveza estimulam a cooperação, e influem mesmo nos momentos tensos de decisão que ficam menos pesados por evitar conflitos motivados por questões alheias ao que está sendo discutido. O foco exclusivo nas tarefas, sem cuidado com as relações, pode ser altamente destrutivo.
Além de tudo, a amizade é um patrimônio que se transfere. Cada pessoa que chega à comunidade apresentada por alguém de dentro tende a ser recebida em confiança imediata. As habilidades e possibilidades diversas desta pessoa, seus contatos, sua experiência, suas possibilidades financeiras tornam-se também parte da força da experiência compartilhada. Sobre suas ações dentro da construção coletiva irão vigorar a exigência de que dê o melhor de si e a cumplicidade que permite que seus erros sejam absorvidos e perdoados. A amizade tem o poder de se multiplicar ao se dividir. Quando chega a amigo de uma amiga na ecovila, partilhamos a amizade original sem lhe tirar nada, só acrescentando no mundo mais amizade e leveza.
O perdão prévio e a alegria como bússola
Consolidar relações horizontais e com responsabilidade compartilhada só é possível em ambientes de acolhimento aos erros. A exigência de produtividade, controle e perfeição do velho mundo pode contaminar e gerar angústia nos espaços alternativos que não se blindam contra isto. Pensar no longo prazo, no engajamento ao serviço coletivo como um processo de aprendizado pressupõe diminuir expectativas. A tendência de buscar que as tarefas sejam desempenhadas por pessoas experientes para diminuir os erros pode ser desmontada pela dinâmica do perdão prévio, em que o medo paralisante da crítica não sufoca novos talentos. Explicitar que a boa intenção da pessoa conta, que erros e dificuldades serão acolhidos com boa vontade e já estão previamente perdoados incentiva a proatividade e estimula as pessoas a exercerem suas capacidades em prol do todo.
Instaurar dinâmicas renovadoras da liderança circular exige a incorporação da noção de incerteza, o deixar correr, o “Sim à Vida” em que se aceita os processos da existência sem querer controlar tudo. Isto implica em uma mudança paradigmática que acolhe a interdependência, a inclusividade e a incerteza, que será aprofundada no próximo texto. Faz entender que a mudança de cada um interfere no todo e que o autoconhecimento é uma mola propulsora para isto. O modo como se organizam os coletivos precisa favorecer novas atitudes onde as formas pelas quais se realizam os objetivos pretendidos já são parte de sua contribuição à mudança da sociedade. Isto favorece a criação de alegres ambientes de aprendizagem, de experimentação, de inovação, onde as diferenças entre as pessoas são celebradas por trazerem mais riqueza para a comunidade.
A ideia de ter a alegria como bússola vem, de certa maneira da busca de reverter emoções negativas de experiencias sacrificiais de engajamento, particularmente no mundo partidário e sindical e em movimentos sociais que não se libertaram de velhas formas de engajamento. Muitas ecovileiras e ecovileiros como eu são oriundos de movimentos de esquerda em que existe muita teoria sobre como o mundo deve ser e muito pouca prática destes atributos sonhados. Há muita disputa de egos ao invés de busca de autoconhecimento. Muito desconfiança, ao invés da celebração dos sonhos comuns. Muito mal trato entre pessoas que têm ideias divergentes ainda que no mesmo campo político, ao invés do convívio saudável e de complementaridade que se quer ver na sociedade.
A ideia de fundo de que é preciso se sacrificar pela causa, que a principal forma de ação é o combate ao velho e não a construção do novo gera sofrimento que tem muito a ver com a dificuldade em agir de forma unitária e ter comportamento tolerante e compassivo. Se as ecovilas têm proximidades com as ideologias de esquerda que buscam um futuro mais justo, ecológico e democrático, sua unidade interna vem do passo além que se propõem a dar na coerência aqui e agora entre o que se sonha e o que se pratica. Não que a unidade interna baseada nas premissas acima descritas seja dada. Ela é penosamente construída, pois é completamente antissistêmica. O exercício da política da amizade vai distanciando a vida comunitária do ambiente inóspito da militância de esquerda. Combater um sistema desigual, competitivo, hierárquico e destruidor da Natureza significa construir outro igualitário, cooperativo, horizontal e regenerativo. Simples assim de dizer, mas imensamente desafiante de praticar pois significa novos pactos que articulem as transformações pessoais com as transformações coletivas.
Ter a alegria como bússola é um horizonte sadio pois indica a preservação da vitalidade de cada pessoa na comunidade. A alegria de viver pode ser vista como um poderoso indicador de cumprimento das missões de vida de cada ser, que tem muito a ver com exercer os talentos que se carrega dentro de si. Saber que o coletivo aproveita dos talentos que a pessoa oferece a faz se sentir aceita e valorizada. Uma comunidade de pessoas assim se sente fortalecida por sua unidade na diversidade interna, curte estar junta, se alegra por ter desafios e celebrações em comum. Isto não descarta fricções, diferenças pontuais de interesses, discussões acaloradas em alguns momentos, distanciamentos eventuais entre pessoas e grupos da comunidade. Mas o foco de que se está construindo hoje a sociedade de amanhã é suficientemente motivador para que, quando o tempo toma sua estatura, rupturas se façam ou os conflitos sejam solucionados ou deixados para traz. Até que novos surjam, pois esta é a dinâmica saudável da vida.
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