Christine Schenk
Ponto de vista desde Bregenz, Áustria
Aqui passei, de 10 a 12 de outubro, para o primeiro encontro internacional das lideranças das organizações de presbíteros de seis países. O evento ofereceu uma rica oportunidade para se trabalhar em rede internacional o enfrentamento de problemas comuns e a partilha de estratégias criativas na abordagem de questões críticas da renovação da Igreja. Isto incluiu a escassez, em âmbito internacional, de padres, a defesa da integridade das paróquias, a necessidade de um verdadeiro diálogo, o empoderamento do laicado, as estratégias de se lidar com o abuso de autoridade e a liderança das mulheres na Igreja.
Graças à mediação carismática de Pe. Helmut Schüller, da Iniciativa dos Presbíteros da Áustria, e do Diácono Markus Heil, porta-voz da Initiativa das Paróquias: Suíça, com grande energia, facilitou profissionalmente a coleta reunindo cerca de 30 pessoas. Entre eles, encontravam-se lideranças de movimentos leigos e associações de presbíteros dos Estados Unidos, da Alemanha, da Irlanda, da Austrália, da Suíça e da Áustria.
Eu participei do Encontro como representante de dez organizações estadunidenses pela reforma, que aderiram à bem sucedida campanha, intitulada de “Catholic Tipping Point”, um giro por 15 cidades, contando com a assessoria do Pe. Helmut Schüller, no verão passado. Esta coalizão comprometeu-se a desenvolver um trabalho em rede de padres e pessoas que lutam pelos direitos fundamentais ao interno da Igreja. Martha Heizer, do Movimento Internacional Somos Igreja; Deborah Rose-Milavec, diretora-executiva de FutureChurch; e Hans Peter Hurka, do Movimento Somos Igreja – Áustria aportaram relevantes perspectivas dos movimentos leigos por reforma, nos âmbitos internacional, nacional e local.
Um importante traço comum subjacente, entre os participantes, foi a luta conjunta para se cumprir o ministério em meio a um constante agravamento da escassez de padres.
“São padres sofridos, sinceros, compassivos, com senso de ministério … que vivem para as pessoas em suas igrejas”, disse Pe. Dan Divis, da Associação dos Presbíteros Católicos dos Estados Unidos, cujos membros chegam a 1.000 sacerdotes. “Eu vejo padres que estão assustados com o futuro, se questões como o fechamento de paróquias, a escassez de padres e a participação das mulheres na liderança da igreja, etc., não forem atendidas.”
“Por favor, não deixem para cima a medida de nossos copos de esperança, bem como o conhecimento.” – Um doador de Seetonk , MA
Instantâneos interesses surgiram sobre os desafios que enfrentam as associações ministeriais de presbíteros, em cada país. Assim como nos Estados Unidos, um grande problema na Alemanha diz respeito à preocupação com a consolidação de mega-igrejas, algo que muitos padres alemães dizem não ser útil para o seu povo, que se organiza dentro de um forte senso de comunidade alimentado por paróquias menores. As associações de padres alemães oriundas de seis dioceses: uma com mais de 40 anos representando 160 sacerdotes, outras duas filiadas ao Movimento Somos Igreja – Alemanha, enquanto as três últimas são inspiradas por Pfarrer Initiative, dos padres da Áustria, formadas ao longo dos últimos seis anos. Ao todo, os movimentos de padres alemães representam cerca de 700 sacerdotes.
Na Áustria, as paróquias são informadas de que não haverá padre para substituir um pastor que esteja saindo. Isso inclui a própria Paróquia de Schüller, situação que o leva a preparar seus paroquianos a assumirem a responsabilidade por suas vidas de cristãos-católicos, quando ele se for. Alguns padres austríacos chegam a cuidar de até quatro paróquias, e alguns foram convidados a assumir mais. Estas condições levaram à fundação da Pfarrer Initiative (Iniciativa dos padres), em 2006.
Em 2011 , os padres lançaram um “chamamento à desobediência”, clamando pela admissão ao sacerdócio de mulheres e de pessoas casadas, bem como por uma maior liderança e transparência na governança de leigos na Igreja. Embora a organização conte com 400 sacerdotes, entre os seus membros (Áustria dispõe de um total de cerca de 1.000 sacerdotes), uma pesquisa independente, feita logo após o “chamamento à desobediência” estimou em mais de 70% os padres da Áustria que acolheram positivamente o chamamento.
Ao longo da conferência, foi recorrente o tema da paróquia como um “sujeito” de auto- determinação. Uma estratégia emergente importante apelava para a necessidade de se capacitar os paroquianos a discernirem o destino de suas próprias casas paroquiais, tendo em vista especialmente o fracasso da igreja institucional, no enfrentamento da escassez de padres.
Grupos na Áustria, na Suíça e na Alemanha comprometeram-se a usar vários folhetos educativos de FutureChurch, abordando os direitos dos paroquianos, como apelar em relação ao fechamento de igrejas e outras ferramentas de defesa como modelos para o desenvolvimento de seus próprios recursos.
Na Suíça, a Pfarrer Initiative da Suíça começou em setembro de 2012, quando um grupo de padres e ministros leigos lançou uma declaração de dez pontos, inspirada no “chamamento à desobediência”, lançado pelos Párocos austríacos.
A declaração da Iniciativa dos Presbíteros da Suíça resultou polêmica, porque declarou publicamente a atual prática pastoral incomum. Seu porta-voz Heill disse que “a rede de Iniciativas é um lugar para compartilhar diversos novos modelos de ministério para uma possível discussão nos outros países.”
O número de membros do grupo suíço é de cerca de 100 padres e de 400 ministros leigos. Muitas paróquias suíças são cuidadas por diáconos ou ministros leigos, com a vinda de padres aos domingos, para a administração dos sacramentos.
Ute van Appeldorn, uma ministra leiga e membro do Conselho da Iniciativa suíça, lidera uma equipe de 13 pessoas da paróquia e executa todas as funções pastorais, inclusive batismos, e testemunha o casamento, ocasionalmente. Ela prega todos os domingos, trabalha com famílias de jovens em preparação para os sacramentos, conduz os serviços da Palavra e da Comunhão às quartas-feiras, e acompanha adultos em suas viagens espirituais.
“Construir relacionamentos é o meu papel mais importante. Passo muito tempo ouvindo as pessoas e vendo o que está acontecendo entre elas”, disse van Appeldorn. “Nesses encontros, eu sinto Deus no trabalho. [ Este encontro ] me fez perceber que excelente privilégio eu tenho. Nunca tive que brigar pelo ministério na Suíça, apesar de eu não sofrer pelo fato de não ser ordenada.”
Embora existam cerca de 500 ministros paroquiais, nos Estados Unidos , são poucos os que rotineiramente batizam, testemunham casamentos ou pregam regularmente no domingo.
Um tema recorrente foi o dos direitos na Igreja, inclusive os direitos das mulheres e todos os leigos, de participarem da tomada de decisão na Igreja. Rose- Milavec e Heiser levantaram discussões sobre como ajudar o Vaticano a incluir as famílias reais no próximo Sínodo sobre a Família, previsto para outubro de 2014.
“Eu quero que todas as mulheres – casadas, solteiras, jovens, idosas – possam participar da tomada de decisão na igreja”, disse Rose-Milavec. “Eu quero as mulheres no Sínodo sobre a família, e quero que as mulheres ajudem a eleger o próximo papa.”
Outra questão-chave para os padres e leigos empenhados nas reformas prendeu-se às dificuldades dos bispos em se disporem a um verdadeiro diálogo.
“A partir das diferentes conversas com os bispos e conferências episcopais, nem tudo o que é chamado de “diálogo” é realmente uma conversa aberta a resultados”, disse Heil. Para ele, um resultado importante é que “as iniciativas vão despontar e promover um esboço de regras para um diálogo bem sucedido e honesto com os bispos”.
Para o futuro, a “rede de redes”, como o novo grupo internacional de padres e leigos agora se domina, escolherá um dos cinco ou seis membros uma equipe internacional para planejar futuras encontros e iniciativas. A prioridade é a comunicação regular usando todas as ferramentas disponíveis, na tecnologia atual.
Perguntei a Divis sobre seu ponto de vista sobre o que esta reunião pode significar para a Associação de Padres Católicos dos Estados Unidos.
“A organização precisa não ter medo”, disse Divis. “Os leigos não tiveram medo. Eles têm tomado a frente. Eles têm sido mais ousados e corajosos. Os padres não têm nada a temer. Acredito que os problemas que nos preocupam, são também os que estão preocupando os bispos. [ Os bispos ] precisam do nosso apoio. Deve haver nova abertura para falar de muitas coisas por causa do papa Francisco.”
Enquanto as várias iniciativas de reforma compartilhadas com entusiasmo sobre a mudança positiva na cultura da Igreja, a partir do Papa Francisco, eles ainda observaram que as esperanças e as expectativas do povo de Deus por mudança estrutural têm crescido cada vez mais.
Como dar respaldo e apoiar o desejo do Papa Francisco, de renovar e reformar a Igreja tem animado várias discussões de pequenos grupos, em particular o apelo do Papa para que o pastor passe a impregnar-se do cheiro das ovelhas, seu aceno de esperança em relação aos gays, e sua esperança de que a Cúria, os bispos, os cardeais sintam-se chamados a servir o povo de Deus.
Solidariedade com aqueles que sofrem os abusos de poder na Igreja, desde a paróquia ao Vaticano, constituiu um tema preocupante para muitos. A presença do padre redentorista . Tony Flannery, fundador da Associação Irlandesa de Presbíteros católicos, a quem a Congregação para a Doutrina da Fé impediu de exercer o ministério em 2012 por conta de alguns de seus escritos, provou ser um lembrete constante de que as estruturas da igreja, como aquelas da Congregação doutrinal, estão em grave necessidade de reforma.
A nova “rede de redes” internacional planeja desenvolver uma série de estratégias que tratem de abuso de poder na Igreja, inclusive apoio financeiro e legal para quem experimentá-la.
“Ainda mais importante será a troca de experiências em cada conflito, especialmente com os bispos ou o Vaticano, para que haja mútuo aprendizado, e menos abuso”, afirmou Heil .
Quando Flannery calmamente observou que “a não ser que mudem as estruturas, não ocorrerá qualquer mudança verdadeira.” Esta observação teve peso. Enquanto as palavras recentes do Papa Francisco são esperançosas e um bom começo, para os padres e as pessoas ao redor do mundo, em breve, será preciso mais do que palavras.
Enquanto isso, os padres reformadores de associações internacionais e seus parceiros leigos estão forjando um caminho criativo para os direitos humanos básicos na Igreja.
[A irmã de São José, Irmã Christine Schenk é um co- fundadora e diretora-executiva emérita de FutureChurch , onde trabalhou por 23 anos. ]
Tradução: Alder Júlio F. Calado, a partir do texto publicado em:
http://ncronline.org/news/theology/international-priest-organizations-lay-leaders-meet-discuss-church-reform
