O vício do gerundismo

por Antonio Ozaí da Silva

Estarei escrevendo na tentativa de estar contribuindo para que os leitores possam estar prestando atenção à uma determinada forma de comunicação oral e escrita que está sendo comumente utilizada em nosso tempo.

Caros leitores, por favor, não estranhem a linguagem. Procuro apenas ser fiel à maneira de se comunicar que, se já foi novidade e modismo, hoje parece consolidada e incorporada à fala e escrita da intelligentsia de Pindorama. Até mesmo quem deveria prezar pela “última flor de Lácio, inculta e bela”, como diria o poeta, aderiu ao gerundismo.

O gerúndio, segundo o Dicionário Aurélio, vem do latim gerundiu, é a forma nominal do verbo, formada, em português, pelo sufixo -ndo. Ex.: comendo, falando. Claro que bem usado tem sentido e cumpre a sua função. Por exemplo, alguém me liga no horário do almoço e recebe a seguinte resposta: “ele está almoçando”. Ainda que insista, o recado está dado.

Mas há usos que são estranhos. Não direi risível para não ofender! O jornalista informa que “vamos futuramente estar falando sobre isto” ou que “a gente vai estar conversando”. Outro diz: “É uma satisfação estar conversando com você”. Já a autoridade pública, inquirida sobre um problema urbano, não se faz de rogada e promete “buscarmos sempre estarmos fazendo”. Também diz que “Nós podemos estar trazendo”. O ambientalista, por sua vez, faz questão de dizer que “vamos estar plantando a árvore”. Mas não haverá resistências ao plantio? Afinal, nem todos são palmeirenses, nem todos gostam do verde em frente à residência e, principalmente, ao seu comércio!! “Acho que ninguém vai estar se opondo a isso”, responde.

E já que falamos em árvores, tratemos do nosso próprio “quintal”. No meio acadêmico o gerundismo faz parte das rodas de conversas, reuniões e ornamenta o discurso professoral. Muitos reclamam que os alunos não sabem escrever, e que estão viciados na linguagem do chat, msn, orkut e coisas do tipo. Pelo menos nestes casos evita-se o gerúndio – o estilo é telegráfico e não fica bem esticar a palavras. Porém, em plena aula o/a professor/a, talvez imaginando que assim seu discurso ganha brilhantismo, abusa do gerúndio e fala coisas como: “está sendo organizado”; “ele vai estar colocando”; “não deixar de estar pensando”; “prá nós estarmos pensando”; “o primeiro a estar relacionando”, etc.

O uso do gerúndio nestas circunstâncias é uma daquelas coisas que nos faz segurar o riso. Não rimos por respeito. Mas confesso que também são situações irritantes. Uma vez recebi email cheio de gerundismo. Não resisti e, com o mesmo estilo, caprichei na resposta. O interlocutor não achou graça e não escreveu mais. Passei a prestar mais atenção nessa mania e guardei preciosidades. Compartilho algumas com os leitores.

“É uma satisfação estar conversando com você”
“Está sendo lançado”
“Estarão sendo iniciadas”
“Estarei enviando”
“Estarei fazendo”
“Estaremos apresentando”
“Onde a gente vai tá fazendo”
“Você está se comunicando com”
“Devo estar enviando em breve”
“Estamos tendo”
“Estar acompanhando”
“Gostaria de estar realizando a publicação”
“Quero estar participando”

Agradeço aos autores. Não cito nominalmente porque não é pessoal, nem recordo as autorias e fiz questão de reter apenas as frases. Também não é meu intuito corrigir ninguém. Apenas me soa esquisito tanto gerundismo. Parece-me que torna a língua, parafraseando o poeta, “inculta e feia”. Seria influência do inglês? Não é o caso de repensarmos a linguagem? Prefiro, então, a fala das pessoas comuns, mesmo que, perante a norma culta, cometam erros. Mas é melhor do que o discurso rebuscado, cuja prolixidade geram pérolas como as relatadas.

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