O que é isso companheiro?

companheiro
O que seria de nós se não fossem as nossas contradições e erros. A vida seria chata, certinha demais e não haveria necessidade de se repensar, de sofrer com as vergonhas do passado nem evoluir com as próprias desgraças e incoerências.
Além dos erros e contradições, também de nada adiantam diplomas, homenagens de honra ao mérito, discurso acadêmico se não houver contato com o povo.
Mergulhar no meio da multidão, ser multidão é o caminho mais próximo para se enxergar e se entender a vida. A liberdade que a multidão proporciona nos conduz a pensamentos, muitas vezes, baseados no antiraciocínio da própria massa. A verdadeira análise e o conhecimento exigem contato direto com as diversas vozes populares.
E para se chegar lá, nada melhor que o velho e bom bate-papo. O diálogo com um transeunte qualquer ou com um conhecido, também nos serve bem. É a voz da massa singularizada. É nessa intimidade que ouvimos e falamos grandes pérolas, grandes verdades ou grandes alucinações.
Hoje pela manhã conversei com um desses, conhecido do Catete. Sempre pela manhã me aparecem camaradas, com os mais diversos comentários e opiniões. Mesmo com divergências, todos vêm em tom pacífico e de certa forma agradável. Há de se convir que, no turno matinal, quase não ocorrem brigas, insultos. Discorda-se, mas jamais com ódio.
A passividade da manhã talvez venha do amável e sublime desejo de “bom dia”. Depois do cumprimento, não deve haver briga. Talvez, quando nos tornarmos mais robóticos e menos humanos, deixaremos de lado o “bom dia” e tornaremos a manhã mais abjeta e odiosa.
Voltando ao sujeito, suas marcas são a simpatia e o seu reacionarismo. Entre nós um acordo tácito de não agressão. Passamos por cima de toda a polarização odiosa no campo político e conversamos como bons amigos.
Depois de vinte minutos de conversa, eis que ele lança sua grande verdade: “O esquerdista até os trinta é considerado de bom coração. Depois, um sem cérebro.”.
O que mais poderia se fazer ou dizer depois de ter recebido um “bom dia” e conversado até então de forma leve e serena? Apenas rir.
Ri e antecipei a saída para a aula das nove.
Falo de tudo isso para chegar ao Gabeira. Antes de pronunciar sua grande verdade, o sujeito havia rasgado elogios ao jornalista.
Já fui admirador do Gabeira. Encantavam-me sua serenidade, conhecimento e retórica. Por incrível que pareça, nesse mesmo dia, era ele um dos entrevistados no Programa do Jô.
Aguardei ansiosamente a entrevista, que só pude ver pelo computador no dia seguinte.
Um misto de curiosidade e medo tomava conta de mim. Vou explicar. A curiosidade devia-se a sua guinada de posição. Um homem com uma história de luta pela esquerda havia mudado de posição. E o pior, além da mudança, participa dos atos lado-a-lado com os militantes da extrema-direita, com rosto pintado de verde-amarelo, sem poupar abraço e selfie com Constantino. Toda aquela retórica antes elogiada, agora era feita para os defensores do impeachment, onde alguns exibem faixas com pedido de intervenção militar, em inglês.
O medo, ou melhor, a angústia revelava-se pela opinião que o ex-esquerdista poderia dar. Poderia aquela mente tão brilhante devastar meus conceitos e convicções?
Antes de qualquer coisa, não me incomodam suas críticas e insatisfações com o petismo. Além de tudo ser natural e até certo ponto justo, há de se convir que não se avança sem críticas. Mas em um momento como esse, onde vemos na oposição tudo que há de mais ignóbil e vil, esperava-se outra postura. Como até então não teve, aguardei uma explicação congruente vinda daquela mente.
Mas o que se ouviu durante a entrevista foram explicações pífias e rasas. Ao que me pareceu, o dissabor com a política havia tomado conta do entrevistado.
Muitas vezes com olhar vago, parecia pensar no que se falava, com dor e descrença na própria opinião. Seu olhar denunciava que nem ele acreditava no que dizia.
Jô educadamente o apoiou não se opondo a nada. Inclusive endossou algumas ideias de que o impeachment nada tem de golpe. Cada bola levantada pelo entrevistador vinha seguido de um leve toque no nariz.
O entrevistador se esforçou para que a conversa prosseguisse bem, estimulando os bons argumentos. A entrevista não fluía e os bons argumentos não vieram.
Dentre suas falas, comparou o impeachment de Collor com o de Dilma, como se os dois fossem exatamente a mesma coisa.
Elogiou todas as instituições que hoje investigam a corrupção, mas foi incapaz de reconhecer quem as deu autonomia. É como se o Brasil tivesse avançado nesse aspecto por ordem do acaso.
Citou Lula como um tirano, desesperado, impondo a Ministros do STF alguma ajuda. Jamais apontou a tirania de Moro ou de Gilmar Mendes. Não passou pela sua cabeça que o ex-presidente merecesse uma investigação justa, sem os excessos característicos dos justiceiros fascistas.
Ao mesmo tempo em que sugeriu a Lula escolhas de ministros-defensores, citou o mensalão, processo em que Joaquim Barbosa demonstrou-se livre, não deixando de punir governistas. Uma pequena contradição, já que tudo isso mostra que não se escolheu defensores a dedo.
Outro ponto lamentável foi sua opinião sobre a política externa dos governos Lula-Dilma. Segundo ele, o Brasil deu as costas para os países que proporcionariam avanços tecnológicos e voltou-se para os aliados bolivarianos.
Talvez de todos os pontos do governo, a política externa tenha sido a que menos se errou. O Brasil quebrou toda aquela história de subserviência aos países imperialistas, ampliou seu mercado, colaborou com um mundo mais equilibrado e menos dependente de forças opressoras e achacadoras. O BRICS é a prova disso tudo.
Também avançamos tecnologicamente. Hoje somos um país com projetos de iniciação científica, que certamente nos renderá muitos frutos. Sem contar na transferência de tecnologia que recebemos em algumas negociações externas. Na última, com a Suécia, compramos tecnologia que nos possibilita a entrada no desenvolvimento de caças.
A cada minuto passado minha ansiedade diminuía. A lamentação aprofundou-se quando percebi que a grande referência de antes não falara nada de genial ou profundo.
O quadro histórico da esquerda brasileira havia se perdido em seus dissabores políticos. Suas palavras, seu olhar distante e melancólico aprofundaram o esvaziamento da retórica. As palavras sábias e envolventes de antes, ficaram para trás. Talvez perdidas num carro de som, cercada por militantes reacionários que pediam intervenção militar.
Teria ele bebido da mesma água que o ex-intelectual de esquerda Fernando Henrique Carsdoso? Se pensam totalmente igual eu não sei, mas o lado escolhido e a pose blasé de letrado, acima do bem e do mal, já os assemelham muito.
Não quero apontar, denegrir ou afronta-lo. Pelo contrário, quero refletir. O que será que a vida nos reserva para que essas coisas aconteçam?
Enquanto me perco em devaneios fúnebres, peço dias melhores para aquele que já foi um brilhante jornalista. E que os ventos sóbrios do passado soprem novamente sua mente, antes que o estrago em sua história seja maior.
(*)Foto: memoriasdaditadura.org.br

2 comentários sobre “O que é isso companheiro?”

  1. Nunca fiquei deslumbrado com Gabeira, para mim era e é uma pessoa vendida . Se vendeu para o mercado e suas perversidades .
    Na ultima manifestação contra o governo, vi, Fernando Gabeira abraçado com que de pior e retrocado que a direita tem, Rodrigo Constantino. Perdemos referencia politicas no Brasil. Perdemos o prazer de falar de política . Boçalidades estão tomando conta do cenário político brasileiro.
    Evoco nomes de Brizola, Arraes , Preste e Ulisses para que ilumine essas e outras cabeças politicas do Brasil.

  2. As pessoas são mesmo metamorfoses ambulantes. Dizem que são conservadores em tudo, mas a verdade é que todo mundo muda. Ninguém que cresceu para as ideias de esquerda pode ficar imutável ali naquele lugar, sem se reconstruir ideologicamente. Tudo bem, mas há que existir coerência nessas mudanças. Somos seres guiados em muito pelas emoções. E política envolve maiormente questões de apelo emocional. Quem não se identifica com um líder político, ou uma ideologia tal, como os nossos jovens “revolucionários”, que maior das vezes encontram identificação com as lutas sociais em busca de um mundo mais igual. Mas, por outro lado, a razão também integra o conteúdo de muitas ações humanas. Usamos a razão para muitas coisas na vida, isso é fato. Por isso que causa surpresa se ver um militante político de esquerda como foi o Gabeira se entrincheirar nas linhas inimigas de tão vil jaez. Alinhou-se aos fascistas golpistas, longe de ser aqui este pequeno texto um libelo contra a liberdade de pensamento. Isso jamais. Somos pela democracia e respeito pelas linhas principiológicas brilhantemente trazidas pela nossa atual Constituição. Só não dá pra aceitar retrocessos radicais. Nem em nós, nem nos demais cidadãos, muito menos em figuras públicas capazes a formar opiniões. Esse nome do ex-esquerdista soa historicamente como um arauto das ideias progressistas de esquerda e dói-me vê-lo agora, com o devido respeito ao duramente conquistado direito de livre expressão do pensamento, professando essas fantasiosas e retrógradas ideologias de direita e ainda erquendo faixas e vestindo camisetas nessas manifestações. O terá acontecido com o velho camarada? será que, como bem disse o cronista, andou bebendo na mesma fonte desses detratores da democracia? quem vai saber, não é?

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