O futuro sombrio que nos espera

Mobilização pela democracia no dia 18 de outubro de 2026 em Salvador. Foto: Daniel Pujol/Mídia Ninja
Mobilização pela democracia no dia 18 de outubro de 2026 em Salvador. Foto: Daniel Pujol/Mídia Ninja
Mobilização pela democracia no dia 18 de outubro de 2026 em Salvador. Foto: Daniel Pujol/Mídia Ninja

O resultado que emergiu do primeiro turno das eleições mostra, em seu conjunto, uma situação de preocupação com o agravamento das tensões políticas e sociais nos próximos anos.

Embora ainda se espere a definição das eleições presidenciais e de alguns estados, esse cenário aponta muitas dificuldades e muitas lutas para os trabalhadores na manutenção de seus direitos. Nesse sentido, a possibilidade de derrota eleitoral do bolsonarismo no segundo turno coloca-se como apenas um aspecto – o mais frágil, talvez – na resistência que deve marcar o próximo período.

No cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, deve haver uma ampla ofensiva contra os direitos conquistados pelos trabalhadores. O fato de ter a maior bancada tanto entre deputados federais como entre senadores permitiria propor pautas que poderiam piorar reformas já desastrosas, como a trabalhista e a da previdência.

Como no governo de seu pai, os gastos do Estado com educação, saúde e áreas sociais serão reduzidos ou, no melhor dos casos, congelados, drenando esses recursos para emendas parlamentares e outras ferramentas de manutenção dos interesses materiais desse grupo político.

Por outro lado, sua grande presença parlamentar fará com que procure avançar em suas pautas reacionárias.

Devem ganhar força debates como a censura a professores ou a perseguição a profissionais de educação, ao mesmo tempo em que se propagandeiam as escolas militares.

No caso das universidades públicas, voltarão a ser tratadas como inimigas, vendo seu orçamento ser desnutrido paulatinamente e as verbas públicas para projetos de pesquisa sendo cada vez mais reduzidas em nome da ampliação da participação privada.

Pautas fundamentais para a classe trabalhadora, como a redução da jornada de trabalho e outras que os mais ricos consideram privilégios, serão enterradas ou mesmo derrotadas e, o que é pior, deve haver medidas para tornar a situação ainda pior.

Esse cenário trágico não melhora mesmo com a vitória de Lula. Por certo que não haveria de parte do governo a postura de fomentar ataques e tirar direitos, mas, sob o cerco dos setores reacionários, o governo não teria condições de avançar em pautas de interesse dos trabalhadores.

O governo, inclusive, procuraria ampliar seu arco de alianças, assumindo compromissos com segmentos da direita que fariam seu governo perder ainda mais o potencial de medidas de interesse dos trabalhadores. Contudo, o fator positivo é que o governo seria o primeiro dique contra o avanço dos reacionários, mas um dique frágil e cheio de contradições, que depende da força de sua base social.

O governo, ademais, correria riscos de ataques vindos dos setores reacionários. Com sua grande bancada entre deputados e senadores, seria possível aos setores reacionários aprovar pautas de ataques aos trabalhadores que, mesmo vetadas pelo presidente, seriam revisadas pelo mesmo parlamento. Este, inclusive, poderia encaminhar o pedido de impeachment de Lula, alegando qualquer motivo sórdido, como o fez com Dilma Rousseff, em 2016.

Portanto, um novo governo Lula estaria sob a pressão dos setores reacionários, que tentariam ao máximo enfraquecê-lo ou mesmo derrubá-lo, fazendo uso dos serviços de mandatos parlamentares ou dos juízes dos tribunais superiores que vêm defendendo de forma aberta o bolsonarismo.

Em qualquer um dos cenários, coloca-se como fundamental a mobilização da juventude e dos trabalhadores. Embora seu objetivo imediato possa ser a derrota eleitoral do candidato bolsonarista, essas mobilizações cumprem um papel estratégico, preparando a resistência que, invariavelmente, deverá ser protagonista depois das eleições.

No debate sobre a redução da jornada de trabalho, essas mobilizações literalmente espantaram a extrema direita, que sequer teve coragem de aparecer na votação seja para fazer demagogia, seja para reafirmar seu programa de arrocho da classe trabalhadora.

Seja com a vitória de Lula, seja com a vitória da extrema direita nas urnas, essas mobilizações poderão garantir a manutenção dos direitos dos trabalhadores e da juventude.

Em um governo bolsonarista, resistindo aos ataques aos direitos que os reacionários tentarão promover. Em um novo governo Lula, garantindo que a pauta vitoriosa nas urnas não se torne mais um estelionato eleitoral, como o foi com Dilma em 2014.

De uma perspectiva estratégica, ademais, as mobilizações indicam a possibilidade, ainda que embrionária, de reorganização da juventude e dos trabalhadores, superando os limites da consciência de classe impostos há décadas pela direção do PT.

Deixe um comentário