O futuro em 1.000 dias

Arquivo pessoal

Maria José Rocha Lima – Zezé*

Os primeiros anos, 1.000 dias de vida de uma criança, são particularmente importantes. Os neurocientistas ressaltam que já durante a gestação há um movimento extraordinário de conexões neurais. Os mil dias são aqueles que vão da gestação humana, que dura cerca de 270 dias e somados aos dois primeiros anos de vida do bebê, cada ano com 365 dias, portanto, 730 dias, constituem os primeiros 1.000 dias de vida do bebê. Nesse período ocorrem trilhões de conexões no cérebro do bebê humano, atingindo o pico de sua atividade.

Os bebês aprendem nos primeiros anos como jamais aprenderão ao longo de toda a sua vida. Essa razão já seria suficiente para priorizar a Primeira Infância, se não tivéssemos outras tão importantes quanto esta.

Na fase de zero a dois anos, os estudiosos observaram um importantíssimo desenvolvimento cerebral. Cientistas informam que nos 1000 (mil) dias de vida o desenvolvimento cerebral é tão intenso que é possível estabelecer até 700 novas conexões neuronais por segundo, praticamente o dobro de sinapses executadas aos dez anos de idade, de acordo com estudos feitos pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (2015).

O pediatra Jack P. Shonkoff³ (2016), do Centro de Desenvolvimento Infantil, da Universidade de Harvard, estudou um fenômeno chamado plasticidade cerebral, que ele descreveu como a capacidade do cérebro de ser flexível e adaptável e como ele pode reajustar-se para assumir novos desafios. Jack Shonkoff (2016) afirma que o bebê ao nascer tem no cérebro todos esses neurônios, mas pouquíssimas conexões, pouquíssimos circuitos. Esses circuitos são rapidamente desenvolvidos nos primeiros anos de vida. “A plasticidade do cérebro está em níveis ótimos nos primeiros anos de vida da criança” (SHONKOFF, 2016, p. 98).

As causas para o desenvolvimento dessa plasticidade dependem da genética e do ambiente. Eles influenciam conjuntamente. Há uma série de predisposições e as experiências vividas por uma criança aproximam e potencializam essa extensão (SHONKOFF, 2016, p.97)

O cientista James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia no ano 2000, realizou uma experiência de maior repercussão mundial para as políticas pela Primeira Infância. Foi o Projeto High Scope Perry Preschool que demonstrou com um estudo longitudinal, que acompanhou as crianças desde os 3 até os 41 anos de idade, que o investimento em programas de alta qualidade com respostas apropriadas às demandas das crianças resulta em um retorno de mais de 17 dólares por cada 1 dólar investido em programas sociais. Heckman expôs esse estudo em conferência realizada durante o I Seminário Internacional do Marco Legal da Primeira Infância, na Câmara dos Deputados, em 16 de abril de 2013.

James Heckman (2013), ao avaliar os dados sobre o desenvolvimento humano nos Estados Unidos, observou que a maneira mais eficiente de remediar problemas causados por ambientes familiares adversos é investir nas crianças em seus primeiros anos de vida. Para Heckman, os políticos devem ser sábios e levar em conta os resultados das ciências para fundamentá-las e devem ser bem planejadas para transferir capacidades. São incontestáveis os argumentos e evidências resultantes das pesquisas de diversas ciências que dão sustentação, bases fundamentais e diretrizes para a intervenção junto à primeira infância.

Ainda para o cientista, o investimento em políticas públicas para a primeira infância desde as idades mais precoces previne e melhora o estado de bem-estar e a abordagem das potencialidades do ser humano, tem impacto na redução das enfermidades crônicas das crianças pequenas, em suas habilidades sociais, cognitivas, emocionais e no rendimento e produtividade por toda sua vida (HECKMAN, 2013).⁴

Durante a conferência no I Seminário Internacional do Marco Legal da Primeira Infância, na Câmara dos Deputados, ele reiterou a relevância da participação dos pais no desenvolvimento pessoal das crianças, como de extrema importância dos mil primeiros dias de vida do ser humano, para desenvolver aprendizagens altamente significativas.

Em 21 de maio de 2019, James Heckman disse em uma entrevista à BBC que investir em educação para a primeira infância é a melhor ‘estratégia anticrime’. A entrevista teve grande repercussão, uma vez que a BBC de Londres é uma emissora de TV e Rádio Pública, de muita credibilidade e alcance mundial. No Brasil, a entrevista ganhou repercussão no Jornal o Globo do dia 07/06/2019 e em outros órgãos de comunicação. O cientista destacou que o resultado anticrime é o principal do seu estudo. Para ele, o maior retorno para cada dólar investido em todos eles é a redução de crimes e a criação de um ambiente encorajador para as crianças.

 

³ SHONKOFF, Jack. Professor de Pediatria na Faculdade de Medicina de Harvard e do Hospital Infantil de Boston Diretor do Centro da Criança em Desenvolvimento da Universidade de Harvard. Preside o Conselho Nacional Americano de Desenvolvimento Científico da Criança em Desenvolvimento.

⁴ James Heckman em Conferência realizada durante o I Seminário Internacional do Marco Legal da Primeira Infância, na Câmara dos Deputados, em 16 de abril de 2013.

 

*Maria José Rocha Lima – Zezé é
Professora, mestre em Educação, doutora em Psicanálise. Deputada baiana de 1991 a 1999.

E-mail: zezerochalima@gmail.com

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