Beneficiado por políticas públicas dos governos de esquerda, região hoje reúne escolas de excelência, portos, refinarias e centros de pesquisa, desfazendo o mito do atraso.
Do Opera Mundi | Por Estevam Silva·São Paulo··Atualizado

Um vídeo publicado pelo deputado federal Nikolas Ferreira na última terça-feira, dia 20 de outubro, virou piada nas redes sociais. A peça pretendia transformar os problemas enfrentados pela população nordestina em munição eleitoral contra Lula, mas acabou sendo exposta como uma encenação, após o vazamento de cenas de bastidores.
As imagens revelaram uma produção cuidadosamente dirigida, com orientações para compor o cenário e até remover elementos que indicassem “modernidade”, a exemplo de uma antena parabólica. Pior ainda: moradores da cidade onde o vídeo foi gravado denunciaram que os “depoimentos” de “cidadãos comuns” eram, na verdade, discursos roteirizados. Um dos homens que aparece nas imagens como um exemplo de sertanejo sofrido é, na verdade, um gerente de fazenda, proprietário de uma casa espaçosa e moderna e de uma caminhonete Toyota Hilux.
O vídeo de Nikolas Ferreira busca evocar o estereótipo de um Nordeste miserável e estagnado, perpetuamente condenado ao atraso. Para fazer isso, no entanto, o deputado teve de se apoiar em cenários enquadrados, edição e textos roteirizados. Isso porque a região estereotipada que Nikolas pretendia retratar é um Nordeste que ficou no passado.
Desde 2003, sob os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, e com apoio de sucessivas gestões estaduais alinhadas à esquerda, o Nordeste tem apresentado um desenvolvimento econômico e social sem precedentes. Políticas federais de transferência de renda, valorização do salário mínimo, expansão do ensino público, ampliação do crédito, investimentos em infraestrutura e fortalecimento da agricultura familiar alteraram significativamente as condições de vida de milhões de pessoas.
Redução da pobreza e da fome
Criado por Lula em 2003, o programa Bolsa Família foi um dos principais instrumentos da transformação social vivenciada pelo Nordeste. Sua importância foi particularmente notável em municípios pequenos, onde o benefício recebido pelas famílias ajudou a estimular a circulação de recursos, fortalecendo a demanda e impulsionando o comércio local, permitindo que mercados, farmácias, padarias, feiras, lojas e açougues prosperassem.
A política de valorização do salário mínimo também teve papel fundamental para essa mudança, possibilitando o aumento real da renda dos trabalhadores e alavancando o valor dos benefícios previdenciários e assistenciais.
Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), o número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no Nordeste caiu de 56,6% em 2012 para 39,6% em 2024. A redução no percentual de pessoas vivendo em extrema pobreza foi ainda mais acentuado, caindo de 8 milhões de pessoas em 2012 para 3,8 milhões em 2024, uma queda de 53,8%. No mesmo período, a renda média per capita da região apresentou um aumento real de 26,7% (acima da inflação).
A melhora do rendimentos dos nordestinos e as políticas de apoio à produção de alimentos possibilitaram grandes avanços no combate à fome. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), criado por Lula em 2003, estabeleceu mecanismos para que o poder público comprasse produtos diretamente da agricultura familiar, destinando-os aos órgãos federais e a grupos em situação de vulnerabilidade. Além de oferecer maior previsibilidade aos produtores, o programa ajudou a fortalecer as cooperativas, estimular a diversificação agrícola e fixar a população sertaneja no campo.
A transposição do Rio São Francisco, um projeto de segurança hídrica aguardado há quase dois séculos, e o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) foram igualmente revolucionários, perenizando rios, enchendo reservatórios e viabilizando a captação e o armazenamento de água potável em larga escala, reduzindo tanto a dependência das fontes hídricas sob controle dos coronéis quando a necessidade de soluções emergenciais em períodos de estiagem. O flagelo da seca, que por séculos atormentou o Nordeste e ceifou milhões de vidas, foi finalmente superado.
O programa Luz para Todos possibilitou a universalização da cobertura do sistema elétrico nas áreas rurais do Nordeste. O número de domicílios integrados à rede elétrica saltou de 89,4% para 98,8%. Ao mesmo tempo, a instituição da Tarifa Social de Energia Elétrica, disponibilizou descontos para a população de baixa renda. Milhões de nordestinos finalmente puderam ter acesso a bens como aparelhos de televisão, geladeira, telefone celular e acesso à internet.
Como resultado desse processo, a região registrou um enorme avanço em seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que saltou de 0,516 no ano 2000 para 0,762 em 2024, atingindo o patamar de “alto desenvolvimento humano”. Os estados do Nordeste lideraram os maiores ganhos estaduais no IDH nas últimas pesquisas do PNUD.
Educação
O Nordeste foi uma das regiões priorizadas pela política de expansão e interiorização das universidades promovida pelos governos petistas. Por intermédio do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), o governo brasileiro inaugurou novas universidades, ampliou os campi fora das capitais, dobrou o número de professores e técnicos e criou novos mecanismos de assistência estudantil.
Entre 2003 e 2014, o número de universidades federais presentes no Nordeste passou de 12 para 18, enquanto a quantidade de campi subiu de 30 para 90, um crescimento de 200%. No mesmo período, o total de cursos de graduação nas universidades federais da região aumentou de 583 para 1.299, enquanto as matrículas passaram de aproximadamente 147,5 mil, em 2002, para 281,4 mil, em 2013. Ou seja, o número de estudantes matriculados praticamente dobrou.
A democratização do acesso e a ampliação no número de estudantes universitários foi complementada por outras políticas de inclusão. O Programa Universidade para Todos (Prouni) ampliou as bolsas em instituições privadas, enquanto o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e a política de cotas modificaram as condições de ingresso no ensino superior, ajudando a popularizar o perfil dos estudantes.
A Lei de Cotas de 2012, instituída no governo Dilma, estabeleceu critérios de reserva de vagas nas instituições federais, contemplando estudantes negros e indígenas, alunos de baixa renda e egressos de escolas públicas. O efeito combinado dessas medidas foi ampliar as possibilidades de ingresso de jovens que antes encontravam barreiras econômicas e sociais à formação universitária.
A transformação foi igualmente significativa no ensino técnico e profissionalizante. Entre 2003 e 2016, foram construídas mais de 500 novas unidades da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica em todo o país, elevando o total para 644 campi em funcionamento. O Nordeste recebeu uma parcela expressiva dessa expansão, que levou laboratórios, oficinas, cursos técnicos e formação tecnológica a municípios do interior.
As experiências dos governos estaduais nordestinos perfilados à esquerda também ajudaram a produzir resultados expressivos na educação básica. O caso mais conhecido é o do Ceará, onde iniciativas de alfabetização, acompanhamento pedagógico, cooperação com os municípios e avaliação da aprendizagem contribuíram para a melhoria dos indicadores educacionais.
Os resultados desses investimentos aparecem no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Em 2023, a rede pública cearense obteve o melhor resultado do país nos anos iniciais e finais do ensino fundamental. No ensino médio, a rede estadual alcançou nota 4,6, acima da média nacional de 4,1, segundo os dados divulgados pelo Inep.
O Piauí também apresentou avanços relevantes. Em 2023, o estado alcançou Ideb de 5,9 nos anos iniciais do ensino fundamental, 5,2 nos anos finais e 4,5 no ensino médio. Nos anos finais, o resultado superou tanto a média nordestina, de 4,7, quanto a brasileira, de 5,0; no ensino médio, o Piauí ficou acima das médias regional, de 4,1, e nacional, de 4,3.
Os dados do Ideb 2025 e do Saeb mostram o Nordeste liderando os rankings de qualidade, especialmente nos anos iniciais do ensino fundamental. Todas as cidades com nota máxima (10,0) nos anos iniciais do Ideb estão situadas no Nordeste — cinco no Ceará e três em Alagoas.
As 136 melhores escolas públicas do país em português e matemática (Saeb, anos iniciais) estão no Nordeste: 99 no Ceará, 36 em Alagoas e uma na Paraíba. A primeira escola fora da região só aparece na 137ª posição. Entre as 500 melhores escolas públicas do país, cerca de 92% são nordestinas.
Saúde pública e pesquisas na área médica
O fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), a criação de programas federais de atenção básica, a formação de profissionais e os investimentos em instituições de pesquisa também ajudaram a reduzir as desigualdades regionais.
A política de Saúde da Família foi fortemente ampliada nos governos do PT, articulando União, estados e municípios. O programa Mais Médicos conseguiu diminuir significativamente a distribuição desigual de profissionais e ampliar a cobertura assistencial, levando médicos a rincões afastados, historicamente marcados pela dificuldade de contratação.
A expansão de serviços de saúde também dependeu de investimentos pesados na expansão das redes de hospitais, unidades de pronto atendimento, centros de diagnóstico, vacinação e formação profissional. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em 2007, incluiu obras de infraestrutura social, enquanto programas nacionais de assistência farmacêutica ajudaram a ampliar o acesso a medicamentos.
Como resultado dessas políticas públicas, o Nordeste registrou avanços expressivos em vários indicadores de saúde. A mortalidade infantil, que chegava a 43 óbitos por mil nascidos vivos em 2000, despencou para 13,1 óbitos em 2023. A expectativa de vida passou de 58,3 anos na década de 1980 para 75,9 anos em 2023. A prevalência de crianças desnutridas caiu de 33,9% em 1986 para 5,9% em 2006.
O Nordeste também se beneficiou com a diversificação dos institutos de pesquisa na área média. Um exemplo é a Fiocruz Ceará, que foi implementada a partir de 2008, por meio de uma parceria entre a administração federal, o governo estadual, a prefeitura de Fortaleza e as universidades cearenses.
Na Bahia, o Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz se consagrou como um centro de referência em doenças infecciosas, imunologia e saúde pública. Em Pernambuco, o Instituto Aggeu Magalhães, igualmente vinculado à Fiocruz, tem se destacado por pesquisas em áreas como biotecnologia, saúde coletiva e doenças tropicais. A Universidade Federal do Rio Grande do Norte também tem obtido crescente reconhecimento por sua produção científica na área de neurociência.
Economia
Sob os governos petistas, o PIB do Nordeste cresceu a taxas superiores à média nacional por longos períodos. Essa característica voltou a ser repetir no terceiro mandato de Lula. Em 2024, o PIB da região cresceu 4%, com Paraíba (6,6%) e o Rio Grande do Norte (6,1%) liderando o ranking nacional.
A renda do trabalho avançou 13% nesse mesmo ano, quase o dobro da média nacional. A abertura de empresas tem sido expressiva. A região ganhou mais de 679 mil novos negócios em 2024 (crescimento de 9,5%). Em 2025, o Nordeste gerou cerca de 347.940 empregos formais.
Nas últimas décadas, os estados do Nordeste ampliaram fortemente sua infraestrutura econômica, ganhando polos industriais, instalações petroquímicas, complexos portuários, atividades de energia renovável, produção agrícola tecnificada e serviços especializados.
Um dos exemplos mais significativos dessa nova infraestrutura é o Complexo Industrial Portuário de Suape, em Pernambuco. Embora criado antes dos governos do PT, foi sob a gestão petista que Suape recebeu investimentos para ampliar sua capacidade logística e industrial, tornando-se um polo de atração de empresas. Destaca-se, em especial, a implantação da Refinaria Abreu e Lima, um grande empreendimento da Petrobras que mobilizou investimentos bilionários e ajudou a ampliar a capacidade brasileira de refino.
No Ceará, o Complexo Industrial e Portuário do Pecém consolidou-se como uma plataforma logística para atividades industriais e exportadoras. A instalação de uma zona de processamento de exportação e o desenvolvimento de projetos relacionados à produção de hidrogênio de baixo carbono reforçaram a perspectiva de integrar o estado às cadeias produtivas internacionais.
No Maranhão, o Complexo Portuário de São Luís tornou-se um ponto estratégico para a movimentação de cargas, incluindo produtos agrícolas, combustíveis e minérios. Sua posição geográfica favorece conexões com áreas produtivas do interior do país, ao mesmo tempo em que encurta as rotas marítimas rumo à Europa, América do Norte e Canal do Panamá.
A Bahia, por sua vez, abriga o Polo Industrial de Camaçari, que se consagrou como um dos principais centros petroquímicos do mundo e é considerado o maior complexo industrial integrado do Hemisfério Sul. O polo abriga mais de 80 empresas, gera cerca de 50 mil empregos e tem um faturamento da ordem de US$ 15 bilhões ao ano.
A diversificação econômica nordestina também ganhou impulso com as energias renováveis. A combinação de elevada incidência solar, ventos favoráveis e disponibilidade de áreas para instalação de parques eólicos transformou a região em um dos principais territórios brasileiros para a geração de energia limpa. Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí estão entre os estados que desenvolveram atividades relacionadas à produção eólica e solar, atraindo investimentos, ampliando a capacidade de geração elétrica e criando novas demandas por serviços técnicos.
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