Lula, Madonna, Almodóvar e o que resta do século XXI

– AFP/ Divulgação/ Ricardo Stuckert

Três ícones da política, da música e do cinema seguem em cena como símbolos de resistência ao fascismo emergente.

Por: Marcelo Hailer Revista Forum, 13/06/2026 – às 23h45 | Atualizado em 14/06/2026 – às 13h21

Qual é a conexão entre o presidente Lula, a cantora Madonna e o cineasta Pedro Almodóvar? A primeira delas é que os três pertencem à geração dos baby boomers, aqueles nascidos no pós-Segunda Guerra Mundial. O outro elo é que este trio foi — e ainda é — responsável por grandes revoluções sociais e culturais. E o terceiro ponto de conexão é que as gerações posteriores não foram capazes de produzir figuras à altura deles. Eles sabem disso, e é aqui que mora a melancolia do nosso tempo.

No final dos anos 1970, Pedro Almodóvar era uma das figuras mais icônicas do movimento de contracultura que ficou conhecido como La Movida Madrileña, e seu filme “Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão” (1980) se tornou clássico por capturar a transformação social e cultural que se passava na Espanha, mas também em outros cantos do continente europeu.

Em 1979, Luiz Inácio Lula da Silva liderou a primeira grande greve geral dos metalúrgicos do ABC Paulista e se consolidou como líder do movimento dos trabalhadores que culminou na fundação do Partido dos Trabalhadores, organização de vanguarda que, ainda no final da ditadura, já trazia em seu manifesto de fundação a luta pela liberdade das pessoas LGBT, pela igualdade de gênero e pela dignidade dos mais pobres.

No dia 14 de novembro de 1984, subiu ao palco da primeira edição do MTV Video Music Awards a então iniciante cantora Madonna. Vestida de noiva, ela surgiu no topo de um imenso bolo de casamento, rolou pelo chão, sensualizou em cima do símbolo da “família conservadora” e escandalizou a sociedade estadunidense. O então empresário da cantora afirmou que sua carreira estava acabada. No entanto, aquela apresentação se tornou um marco histórico que definiu um antes e um depois na música pop.

A construção de um modo de vida

Lula, Madonna e Almodóvar construíram mais do que obras icônicas: influenciaram o modo de vida das gerações dos últimos 40 anos e, pasmem, permanecem como referência para aqueles que nasceram, por exemplo, em 2006 e hoje têm 20 anos, ou seja, a geração nutrida por algoritmos.

Mas essas influências de Lula, Madonna e Almodóvar estão diretamente relacionadas a algumas de suas obras e ações, que se tornaram fundamentais em suas respectivas áreas.

Além da greve geral no final dos anos 1970, Lula, ao chegar à Presidência, em 2002, tornou-se a primeira pessoa da classe trabalhadora a governar o Brasil, colocando fim a um domínio da elite de mentalidade colonial. Não satisfeito, lançou os programas “Fome Zero” e “Brasil Sem Homofobia”, marcos históricos da política brasileira.

Em 2000, Pedro Almodóvar subiu ao palco da Academia do Oscar para receber a estatueta de Melhor Filme Internacional por “Tudo Sobre Minha Mãe”, filme que mergulha na maternidade trans e na parentalidade queer para romper estigmas vigentes na época. O longa-metragem entrou para o hall das obras-primas do cinema.

No auge da epidemia de HIV/Aids, Madonna, ao lançar o disco “Like a Prayer”, em 1989, colocou um encarte dentro do álbum com dicas de prevenção, no qual se frisava que o HIV não era exclusivo das pessoas LGBT e que, portanto, todos deveriam se proteger no ato sexual. À época, conservadores e fundamentalistas afirmavam que o vírus HIV “era uma vingança de Deus contra as pessoas LGBT”. A cantora, emergente da contracultura de Nova York, resolveu enfrentá-los.

Portanto, além de Madonna, Lula e Almodóvar serem frutos da geração dos baby boomers, são três figuras que, quando alcançaram o lugar mais alto no que diz respeito à popularidade e à influência sobre as mentalidades, utilizaram esse espaço para transformar a sociedade e enfrentar tudo o que havia de mais retrógrado nas sociedades das Américas e da Europa.

A contínua luta contra o fascismo

Durante o lançamento de seu novo filme, “Natal Amargo” (2026), no Festival de Cannes, Pedro Almodóvar criticou os colegas cineastas que se acovardam diante do fascismo do século XXI e seus líderes, e classificou Trump, Netanyahu e Putin como “monstros”:

“Como europeus, também somos obrigados a nos tornar uma espécie de escudo 
contra estes monstros, como Trump, Netanyahu ou o russo (Putin) […] Na 
Europa, sim, há leis. Trump precisa saber que há um limite para todos os seus 
delírios e suas loucuras e que a Europa nunca vai fazer uma vassalagem em 
relação às políticas de Trump […] o artista, a partir de sua pequena tribuna […] 
deve falar sem sinônimos, deve falar com a cara descoberta sobre o pior que está 
acontecendo, e coisas terríveis demais estão acontecendo conosco a cada dia 
[…] me parece um dever moral.”

Em 2024, o presidente Lula se tornou um dos primeiros líderes mundiais a classificar Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, como “genocida” e foi alvo de ataques do governo israelense, que o classificou como “persona non grata”. Mas o presidente brasileiro não recuou:

“O que eu falei na primeira entrevista que eu dei, na União Africana, sobre o que 
aconteceu em Israel, eu mantenho 150%. Mantenho 150%. E aconteceu porque 
o primeiro-ministro de Israel não quer resolver o problema. Ele quer aniquilar os 
palestinos. Isso está visível em cada gesto dele, em cada ato dele”, disse Lula na 
cúpula do G7 em 2024.

No primeiro dia de seu segundo mandato à frente da Casa Branca, Donald Trump revogou todas as normas federais do ex-presidente Joe Biden que visavam garantir direitos às pessoas LGBT e reviveu a política do “Don’t Ask, Don’t Tell”, que proíbe pessoas LGBT nas Forças Armadas e que havia sido revogada pelo governo de Barack Obama. Madonna reagiu e foi para cima de Trump:

“É muito triste ver nosso novo governo desmantelando lentamente todas as 
liberdades pelas quais lutamos e CONQUISTAMOS ao longo dos anos. Não 
desistam da luta!”

Madonna acaba de lançar o curta-metragem “The Confessions II — The Film”, ambientado em uma festa realizada em um banheiro público, o famoso “banheirão”. A artista, aos 67 anos, se levanta contra o etarismo e faz da liberdade sexual a sua principal arma contra a perseguição moral perpetrada por Donald Trump.

O que resta do século XXI

Além de sua fala enfática contra o fascismo do século XXI, o cineasta Pedro Almodóvar também falou sobre seu tempo presente no que diz respeito à idade e ao mundo que o cerca. Tal análise está presente em seu filme mais recente, “Natal Amargo”, em que, a partir de um alter ego, temos um Almodóvar sem ideias, pressionado pela morte iminente, pela solidão e por uma vida que parece girar em círculos. Mesmo assim, ele avisa: não vou parar.

O mesmo se dá com Madonna e o presidente Lula. Vira e mexe, Lula publica vídeos com suas rotinas de treino e incentiva seus admiradores a fazerem o mesmo, pois está a nos lembrar: é preciso estar saudável para enfrentar o fascismo e o bolsonarismo. Madonna segue pela mesma trilha: não há idade para travar a luta pela liberdade sexual, mas também nos lembra: “Se cuidem, bixas!”

Mas é aqui que mora certa melancolia — e vários pronunciamentos recentes de Lula, Madonna e Almodóvar nos alertam sobre isso —: um dia, eles não estarão mais aqui. Hoje, eles ainda possuem energia para incentivar e fomentar a luta contra o fascismo. Lula é a única figura da esquerda brasileira com capacidade para vencer o bolsonarismo; Almodóvar foi o único cineasta a usar a tribuna de Cannes para denunciar Trump e Netanyahu; Madonna é a única a resistir no banheirão.

Estamos prontos para dar continuidade a esse legado de luta contra o fascismo?

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