Lula concilia com militares

Lula diz que famílias de vítimas da ditadura não têm culpa “se um familiar se envolveu com uma coisa errada”. Por Ana Manuella Soares, do Jornal da ADUFRJ

Na última quarta-feira, 29/8, em cerimônia no Palácio do Planalto, foi lançado o livro-relatório Direito à Memória e à Verdade, publicação coordenada pelo ministro da Secretaria Es-pecial de Direitos Hu-manos (SEDH), Paulo Vannuchi, e pelo presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos, Marco Antônio Barbosa.

A solenidade contou com a presença de 150 familiares das vítimas do regime militar do período de 1964 a 1985, no Brasil. Filha de Zuzu Angel e irmã do estudante Stuart Edgar Angel Jones, a jornalista Hildegard Angel esteve presente em sua coluna de 31/8, no Jornal do Brasil, revela as imperdoáveis gafes do presidente Lula da Silva ao comentar o sofrimento dos parentes dos militantes torturados e mortos durante os anos de chumbo.

Hildegard descreveu um presidente e “que não parecia à vontade no assunto”. Não bastasse a ignorância de Lula sobre a recente história do país que governa, o presidente teve a coragem de afirmar, segundo a colunista, que as famílias dos torturados, mortos e desaparecidos “não tinham culpa se um familiar se envolveu em uma coisa errada”. Não satisfeito com a gentileza prestada aos presentes, Lula ainda inocentou a ditadura “contando que, em conversa com os comandantes militares, quando discutiam a abertura dos arquivos, ele lhes disse: ‘vocês não podem ser responsáveis porque algum elemento da instituição cometeu algum tipo de excesso'”.

Nas palavras de Hildegard sobre o discurso de Lula: “Tropeços de quem talvez não sinta em profundidade essa tragédia, ou mesmo de quem não a entenda”. O irmão da colunista foi torturado e arrastado por um jipe, com a boca no cano de descarga do veículo, pelo pátio interno do quartel do Centro de Informações da Aeronáutica, em 1971.

Para militante, presidente deveria ter pedido desculpas em nome do Estado

Segundo a fundadora e presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, Cecília Coimbra, a publicação é, na verdade, um relatório sobre o funcionamento da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos da SEDH que apreciou os casos encaminhados pelos familiares das vítimas e por entidades como o Tortura Nunca Mais.

“O livro é um passo importante, sem dúvida, não podemos deixar de reconhecer. É importante porque pela primeira vez o Estado brasileiro assume que torturou, seqüestrou e ocultou cadáveres. Assume oficialmente que durante o período da ditadura militar, a tortura e desaparecimento foi uma política oficial do Estado. Óbvio que seria muito importante se, no dia do lançamento, o senhor presidente Luiz Inácio Lula da Silva viesse a público e pedisse desculpas à nação pelos crimes cometidos em nome da segurança nacional naquele período.”, comentou Cecília sobre a solenidade de lançamento do relatório da SEDH.

Ônus da prova ficou para os familiares

Cecília conta que o decreto que criou a Comissão foi assinado em 1995, no então governo Fernando Henrique, mas acabou tornando-se um problema a mais para os parentes e entidades que lutavam pela abertura dos arquivos do aparelho repressivo da ditadura. “Nós queríamos que esta lei tivesse sido revisada, pois tínhamos algumas questões contra o decreto que instituiu a Comissão”, conta Cecília, que também é professora doutora do departamento de Psicologia da UFF. “Simplesmente, na ocasião, não fomos ouvidos pelo governo FHC. Achávamos que a lei era um passo importante, mas, ao mesmo, tempo extremamente perversa, pois colocou o ônus das provas nas mãos dos familiares e entidades de direitos humanos”, denuncia.

Penteando a história a contrapelo

A professora não se eximiu da tarefa de relembrar o que significou os desmandos da ditadura. “Não são só as organizações militares, mas também os empresários financiaram a tortura. Parlamentares e políticos que ainda hoje atuam apoiaram e respaldaram diretamente o terrorismo de Estado que se instalou neste país naquele período”. Penteando a história a contrapelo, a professora lembra que as instituições “como um todo” foram responsáveis pela ditadura e por suas vítimas. “É importante que se passe a limpo esta história e que se peça desculpa à nação pela violação de direitos humanos cometidos”.

Sem novidade

Cecília confirma a crítica de que a publicação da Secretaria não traz novidades em relação ao que já havia sido divulgado durante os últimos anos sobre as vítimas do regime militar. Trabalho que, segundo ela, deve ser creditado muito mais aos familiares e à própria imprensa. “A publicação deste livro ainda é um passo tímido e pequeno, porque todos aqueles fatos que estão narrados neste relatório já foram publicados em jornais. Foram desvendados – quase que um trabalho de detetive – pelos familiares de mortos e desaparecidos e pelas entidades. Então, não tem nenhuma novidade ali. A novidade e a importância são que esses fatos são agora reconhecidos”, conclui.

Matéria publicada no Jornal da ADUFRJ – Seção Sindical dos Docentes da UFRJ e no site http://www.adufrj.org.br. Colaborou Diego Cotta, estagiário.

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