Greve geral de 1983: operários cruzam os braços contra a ditadura

Lula discursa para os trabalhadores em greve no ABC Paulista. | Cpdoc/JB. Via Memorial da Democracia

A estratégia grevista foi utilizada de forma intensa até 1980, quando o regime militar interveio nas organizações sindicais, afastando e detendo as lideranças. Lula foi preso pelo DOPS e processado pela Lei de Segurança Nacional.

FMI impõe o arrocho

Novas greves foram organizadas entre 1981 e 1982, mas sem o caráter grandioso das mobilizações anteriores, estando mais regionalizadas e restritas a categorias profissionais específicas.

O agravamento da crise econômica a partir de 1983, entretanto, voltou a insuflar a insatisfação da classe trabalhadora. Por intermédio do Banco Mundial e do FMI, as nações imperialistas haviam direcionado para os países subdesenvolvidos as consequências do terceiro choque do petróleo.

Delfim Netto, Ministro da Fazenda do governo de João Figueiredo, obteve um empréstimo de 4,4 bilhões de dólares junto ao FMI e se comprometeu a adotar integralmente o receituário ortodoxo ditado pela instituição. O acordo com o fundo incluía medidas como o aumento da taxa de juros, política de austeridade fiscal, corte de investimentos públicos, arrocho salarial e incentivo à precarização da classe trabalhadora.

As medidas resultaram no aumento do desemprego e na queda generalizada do poder de compra da população, corroído pela inflação galopante. O salário mínimo equivalia a menos de um terço do valor necessário para cobrir as despesas básicas das famílias. Houve um intensificação do processo de desindustrialização e a explosão da dívida externa, que ultrapassou o limiar dos 100 bilhões de dólares.

Apesar dos resultados pífios, o regime militar insistiu no receituário neoliberal, editando uma sequência de decretos-leis que impunham novos critérios de redução dos salários no primeiro semestre de 1983.

Dois decretos eram particularmente perniciosos para a classe trabalhadora. O decreto 2.036, conhecido como “pacote das estatais”, visava avançar o projeto de privatização das empresas públicas, precarizando o regime de trabalho dos servidores através da limitação e redução das remunerações mensais e do esvaziamento do papel dos sindicatos.

O decreto 2.045, por sua vez, estabelecia que o reajuste de todas as faixas salariais seriam limitados a 80% da variação do índice de inflação (INPC) e autorizava empresas em situação de “insuficiência econômica” a estabelecerem reajustes ainda menores.

Pouco tempo depois, em 13 de julho de 1983, o governo anunciou o tabelamento dos juros e instituiu o chamado “imposto-calamidade”, que confiscava 4% dos rendimentos das cadernetas de poupança e demais ativos da população.

Lula discursa para os trabalhadores em greve no ABC Paulista. | Cpdoc/JB. Via Memorial da Democracia

A greve geral

As medidas impostas pelo governo causaram indignação na classe trabalhadora. No interior de São Paulo, os petroleiros da Refinaria Paulínia (Replan) deram início a uma greve que durou sete dias e reverberou em outros estados, nomeadamente na Bahia, onde os funcionários da Refinaria Landulpho Alves (Rlam) também cruzaram os braços.

A ditadura militar reagiu de forma agressiva, atacando os trabalhadores, fechando sindicatos, cassando diretorias e ordenando demissões. Mesmo não sendo noticiada pela imprensa, a greve inspirou diversas categorias à ação e ganhou apoio das entidades estudantis, dos partidos de esquerda, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e de outras organizações. Bases de petroleiros em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Pará também aderiram ao estado de greve.

Em solidariedade aos petroleiros, os metalúrgicos do ABC Paulista reforçaram a paralisação e começaram a articular uma greve geral. Passeatas e mobilizações contra os decretos e contra a ditadura foram organizados em todo o país e as entidades sindicais foram convocadas para os atos.

Ao todo, 138 entidades representando 35 categorias profissionais aderiram à greve geral de 21 de julho de 1983. A greve foi uma das maiores da história do Brasil, mobilizando cerca de três milhões de trabalhadores para a ação direta e afetando as atividades de mais de 40 milhões de pessoas, sobretudo em função das paralisações dos meios de transporte.

Grandes manifestações populares foram registradas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador. No Rio de janeiro, mais de 50 mil manifestantes saíram em passeata entoando a palavra de ordem “Fora daqui, FMI”.

Protestos de grande porte também foram registrados no ABC Paulista, onde o comércio fechou as portas e a Polícia Militar reprimiu violentamente os trabalhadores. O governo decretou intervenção nos sindicatos dos bancários e dos metroviários de São Paulo e ordenou a prisão de centenas de pessoas.

A greve geral também acelerou o processo de criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), fundada pouco mais de um mês após a paralisação, em 28 de agosto de 1983, durante o Primeiro Congresso Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), sediado em São Bernardo do Campo.

O objetivo da nova entidade era unificar a ação do movimento sindical através de uma organização externa à estrutura sindicalista corporativa, capaz de se manter autônoma e independente em relação ao regime militar e contribuir na luta pela construção de um sindicalismo classista e de massas. Jair Meneguelli, sindicalista filiado ao Partido dos Trabalhadores, foi o primeiro presidente da central.

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