
Após Daniel Ortega afirmar que a Nicarágua não voltará a realizar eleições, Frei Betto relembra sua convivência com a Revolução Sandinista e sustenta que a permanência indefinida no poder rompe com os ideais democráticos que marcaram a vitória de 1979.
Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, afirmou no domingo (19/07), data do aniversário de 47 anos da Revolução Sandinista, que o país não terá mais eleições, para impedir que a oposição chegue ao poder. “Não haverá mais eleições aqui para que eles [a oposição] não tentem tomar o governo e o poder”, declarou.
Conheci-o em janeiro de 1980, seis meses após a vitória da revolução, quando veio a São Paulo participar de um encontro internacional de teologia. Embora sua visita fosse em caráter pessoal, a ditadura que ainda governava o Brasil lhe ofereceu seguranças da Polícia Federal e não o impediu de participar de atos públicos.

Convidado pela Frente Sandinista e pelas Comunidades Eclesiais de Base, atuei na Nicarágua entre 1981 e 1991, implementando o método Paulo Freire de educação popular. Cheguei a escrever um livro sobre a Revolução Sandinista, Nicarágua Livre – o Primeiro Passo (Civilização Brasileira, 1980).
Agora, o homem que liderou uma revolução que irmanou comunistas e cristãos admite que seu governo está tão desgastado que o melhor é impedir a realização de eleições, pois é real o risco de ser derrubado do poder pela via democrática.
Daniel Ortega traiu a Revolução sandinista
Ortega liderou a Nicarágua pela primeira vez ao ser eleito coordenador do Conselho de Administração, em 1981, dois anos depois do triunfo da Revolução Sandinista (1979). Em 1984, ganhou as eleições e ocupou a Presidência até 1990.
Em seguida, a Nicarágua foi presidida por Violeta Chamorro (1990-1996), Arnoldo Alemán (1997-2002) e Enrique Bolaños (2002-2007). Em 2007, Ortega foi novamente eleito e, desde então, permanece no poder. Em fevereiro de 2025, criou a figura esdrúxula de “copresidente” para partilhar o poder com sua mulher, Rosario Murillo.
Ortega está no poder há mais tempo do que qualquer membro da dinastia ditatorial dos Somoza, o grupo familiar que comandou o país por mais de 40 anos e que o próprio Ortega ajudou a derrubar. Anastasio Somoza foi presidente por 16 anos, e seus filhos, Luis Somoza e Anastasio Somoza Debayle, governaram a Nicarágua por quase sete e nove anos, respectivamente.
Em dois anos de trabalho no Planalto (2003-2004), aprendi que o ser humano é vulnerável a cinco grandes tentações: a primeira é o poder; a segunda, o poder; a terceira, o poder; a quarta, o dinheiro; e a quinta, o sexo. As três primeiras asseguram as duas últimas. Isso vale para qualquer escala de poder, da diretora da escola ao gerente da farmácia.
Ao enterrar a democracia na Nicarágua e calar as vozes da oposição (foram expulsos do país, por fazerem críticas construtivas de caráter religioso, padres e bispos católicos), Ortega reforça a acusação da direita de que a esquerda é antidemocrática, não suporta a alternância no poder e fabrica ditadores.

Ortega jamais admitiu que outros líderes da Frente Sandinista fossem candidatos à Presidência da República. Eleito presidente pela primeira vez em 1984, nunca abriu espaço para outro candidato sandinista. Já se candidatou em oito campanhas presidenciais.
Nova Constituição da Nicarágua garante direitos, defende soberania e fortalece poder popular
Ao tomar posse, em 2007, Ortega sabia que a Constituição nicaraguense proibia a reeleição consecutiva e também a candidatura ao cargo depois de dois mandatos em momentos diferentes.
Portanto, não poderia se tornar presidente novamente. Porém, dois anos depois, a Suprema Corte emitiu uma decisão declarando “inaplicável” o artigo 147 da Constituição, que proibia a reeleição. Essa decisão abriu caminho para Ortega concorrer nas eleições de 2011.
No final de 2013, enviou uma proposta de reforma constitucional, aprovada pela Assembleia Nacional, de maioria sandinista, que permitiu a reeleição por tempo indeterminado, estabeleceu a eleição do presidente no primeiro turno por maioria simples e possibilitou ao presidente expedir decretos com força de lei.
Em 2 de junho de 2021, o governo Ortega impôs prisão domiciliar a Cristiana Chamorro Barrios, então candidata à Presidência da Nicarágua, acusada de “administração abusiva, falsidade ideológica e lavagem de ativos”, entre outros crimes. Nos dias seguintes, mais seis candidatos foram detidos.
Semanas depois, ao se referir às manifestações antigoverno iniciadas em 18 de abril de 2018, Ortega fez um discurso no qual justificou as prisões: “Não estamos julgando políticos ou candidatos. Estamos julgando criminosos que atacaram o país tentando organizar novamente outro golpe de 18 de abril.”
A repressão policial aos protestos causou a morte de pelo menos 325 pessoas, segundo organizações internacionais.
Ortega é pragmático. Adota em seus discursos frases anti-imperialistas. Em sua posse, em janeiro de 2007, criticou o “capitalismo selvagem e o neoliberalismo”, mas também se mostrou aberto a manter boas relações com os organismos financeiros internacionais. Os EUA, que ele insiste em chamar de “império”, são, na verdade, o maior parceiro comercial da Nicarágua. Como frisa o analista Eliseo Núñez, “Ortega provou ser o melhor aluno do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ele pratica o neoliberalismo que tanto ataca”.
É, no mínimo, desalentador ver uma revolução tão genuína quanto a da Nicarágua se perder por força da ambição desmesurada de um casal.
Frei Betto é escritor, autor do romance O Voo da Locomotiva (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org.
As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Frei BettoEscritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras); “Batismo de sangue” (Rocco); e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros 74 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – http://www.freibetto.org. Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.
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