Fraternidade/sororidade como nova síntese da relação igualdade e liberdade: notas sobre a Encíclica “Fratelli Tutti”, do Papa Francisco

Veio a lume, nesse 4 de outubro, data comemorativa de Francisco de Assis, a mais recente Encíclica social subscrita pelo atual Bispo de Roma. Foi significativo o modo como o Papa Francisco decidiu também firmar este Documento: ele o fez, após a celebração eucarística realizada em Assis, sobre o túmulo de Francisco. Eloquente também foi o silêncio que o presidente daquela celebração eucaristia decidiu exercitar, no espaço reservado à homilia. No dia quatro, finalmente, foi dada a conhecer a íntegra da Encíclica, que vem composta de 287 parágrafos, distribuídos em oito capítulos. Nas linhas que seguem, trataremos de recuperar seus temas-chave, como um alvo de uma primeira leitura, de nossa parte.

 

Após esta primeira leitura da íntegra do referido texto, nosso sentimento predominante foi o de estarmos diante de uma reflexão que nos remete a um Francisco de Assis franciscanamente atualizado, sob vários aspectos. Iniciamos nossa leitura da Fratelli Tutti com um breve registro de algumas observações, principalmente de caráter metodológico, além de outras considerações. Em seguida, buscamos centrar nossa atenção na concepção manifesta na” Fratelli Tutti”, quanto ao conceito e a experiência de “Liberdade” nos tempos atuais. De modo semelhante, procedemos em relação ao conceito e a experiência do que se tem tomado como “Igualdade”, em nossos dias, confrontando-a com o conceito de “Fraternidade” assumido pelo Papa Francisco , fazendo questão de distingui-la de uma noção ou categoria exclusivamente teológica. Por último, cuidamos de extrair desta leitura algumas pistas concretas, a partir das quais podemos, construir no  dia  – a -dia, um novo modo de produção, um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal, alternativos ao modelo vigente. Algumas observações iniciais sobre a Fratelli Tutti

 

Trata-se da terceira Encíclica social assinada pelo Papa Francisco, mesmo considerando que a primeira teve autoria mais diretamente atribuída ao seu antecessor, o Papa Bento XVI, tratando-se, portanto, de uma ocorrência circunstancial, antes que de uma palavra própria do Papa Francisco. Em verdade, sua grande primeira Encíclica social foi, como se sabe, a memorável e apreciadíssima “ Laudato sì”, passando esta – a Fratelli Tutti – como sendo a sua segunda Encíclica, propriamente dita. Para além destas encíclicas, não devemos esquecer, no curso do ainda breve pontificado do atual Bispo de Roma, do conjunto de seus outros escritos, entre os quais exortações apostólicas, a exemplo de seu programa de governo eclesial “Evangelii Gaudium”, bem como de seus numerosos pronunciamentos, homilias, decorrentes inclusive de mais de três dezenas de viagens apostólicas por ele realizadas nestes sete anos de pontificado, tendo percorrido os cinco continentes.

 

Outra observação relevante tem a ver com a extraordinária coerência que vem mantendo, no conjunto de seus escritos, pronunciamentos e posições desde o início de seu pontificado. Coerência nos conteúdos refletidos e na metodologia utilizada. Quanto a um primeiro aspecto, ele se tem ocupado, de modo contínuo, das grandes causas da humanidade, o quê o distingue da enorme maioria dos chefes do Vaticano, enquanto o aproxima de figuras excepcionais como a Papa João XXIII. Não se trata de atribuir qualquer descaso ou desatenção aos problemas intra eclesiais ou intereclesiais, mas de reconhecer seu compromisso maior, inspirado no Seguimento de Jesus, de priorizar o conjunto dos humanos e da criação: “tudo o que é humano nos diz respeito”;. Embora constando nesta Encíclica, esta máxima não é originariamente de autoria do atual Bispo de Roma, nem do Papa Paulo VI , citada em sua Encíclica Ecclesiam suam, mas de de autoria do poeta latino Terêncio,, para quem “Homo Sum et nihil humani a me alienum puto”; (sou um ser humano, e nada do que é humano me é estranho).. Ainda que numa livre tradução em relação a mesma Máxima de Terêncio atitudes como esta tem implicado enorme e crescente atenção, para além do mundo católico e do Mundo Cristão, de modo a torná-lo, reconhecidamente, uma liderança mundial de novo tipo. Assunto sobre o qual já tivemos oportunidade de refletir (Cf.http://textosdealdercalado.blogspot.com/2017/09/voem-alto-sonhem-grande-francisco-bispo.html) Quanto à Encíclica “Fratelli Tutti”, dedicada à fraternidade e à amizade social convém ressaltar uma atitude metodológica recorrente em seus escritos e pronunciamentos. Em primeiro lugar, por assumir uma metodologia profundamente conectada aos conteúdos de seus escritos e pronunciamentos, expressão mesma de sua posição como ser humano, como cidadão, como cristão. Neste sentido, cabe sublinhar algumas marcas metodológicas que nele tem sido habituais: a firme convicção de uma íntima dinâmica conexão entre situações, fatos, acontecimentos da realidade social humana. “;Laudato si”; constitui, nesta mesma linha, uma primorosa ilustração, o mesmo ocorrendo nesta “Fratelli Tutti”;. Outro aspecto de ordem metodológica, digno de registro, diz respeito a sua leitura de mundo, da realidade socioambiental e eclesial, de modo incessantemente problematizador, isto é, analisando também suas contradições, seus entrechoques, fugindo a qualquer verdade linear de entendimento da realidade. Outro princípio por ele seguidamente manifesto tem a ver com sua aposta radical na esperança, no esperançar, isto é, sua convicção ético política de quê a barbárie – inclusive a de caráter sócio ambiental – não terá a última palavra, no processo de humanização.

 

Ainda no terreno dos procedimentos metodológicos, cumpre salientar sua incessante atenção e escuta a uma diversidade de posições com as quais ele dialoga, em seus textos. No caso da “Fratelli Tutti”, isto se pode comprovar pela quantidade de notas por ele apresentadas, de tal modo que o número de notas bem se aproxima do número de parágrafos, constitutivos deste mesmo Documento. Convém, ainda, atentar-se para a diversidade de fontes por ele consultadas, indo de uma pluralidade de fontes laicas a uma atenção a fontes relativas a sujeitos eclesiais e cristãs. Observe se, por exemplo, a atenção que o Papa Francisco dedica e expressa, em relação a um amplo leque de Conferências Episcopais de vários países do mundo – do Congo, da África do Sul, da Coreia do Sul, da Índia, da Austrália, dos Estados Unidos, da Colômbia… O que bem demonstra a qualidade de sua interlocução ou do exercício concreto de Colegialidade, uma das palavras-chave dos documentos do Concílio Vaticano II.

 

Coerente com sua linha teórico-prática de análise, há de se sublinhar ainda sua atenção prioritária às forças e organizações de base de nossa sociedade, em especial os movimentos populares, que Francisco toma como referência prioritária, por entendê-los agentes de transformação qualificados, diante dos enormes desafios sócio econômicos, políticos e culturais que temos diante de nós, sem deixarmos de frisar o desafio ecológico de nossos tempos. Não é, com efeito, a primeira nem a segunda vez, que o Papa Francisco dá provas de sua escuta, de sua observação e de seu investimento, não nas figuras tradicionais de referência, ligadas às estruturas de poder, mas àquelas organizações da sociedade civil em especial os movimentos populares, nos quais ele entende residir a raiz em que devemos nos apoiar, como forças dotadas de potencialidades transformadoras, diante do sistema imperante. Não é ´por acaso que vários encontros mundiais de representantes de movimentos populares têm sido patrocinados, acompanhados, como alvos privilegiados de interlocução, por parte do Papa Francisco. O justo e merecido tributo ao Papa Francisco, como uma figura exemplar, entre as lideranças mundiais de nossa atualidade, não o exime de críticas, inclusive por parte dos “de baixo”, entre os quais os coletivos feministas que dele esperavam uma posição mais afirmativa, na defesa e promoção das mulheres, em especial quanto ao seu papel de sujeitos eclesiais. Não foram tão isoladas as vozes que expressaram sua expectativa, inclusive quanto ao título desta Encíclica, ao silenciar, no título, o polo feminino das relações de gênero: as “Sorelle”. Mas não apenas quanto ao título. Se, por um lado, o louvamos pelo reconhecimento e legitimidade de uma efetiva cidadania no feminino, como afirma neste Documento: “Por conseguinte, ninguém pode ser excluído; não importa onde tenha nascido, e menos ainda contam os privilégios que outros possam ter porque nasceram em lugares com maiores possibilidades. Os confins e as fronteiras dos Estados não podem impedir que isto se cumpra. Assim, como é inaceitável que uma pessoa tenha menos direitos pelo simples facto de ser mulher, de igual modo é inaceitável que o local de nascimento ou de residência determine, de por si, menores oportunidades de vida digna e de desenvolvimento.” (n.121); por outro lado, há de se reconhecer que tal reconhecimento de cidadania também precisa estender-se aos espaços eclesiais.

 

Sem embargo, convém ressaltar a qualidade e a eficácia da palavra de Francisco, em seu exercício de manifestar uma leitura crítica qualificada sobre nossa realidade econômica, política, cultural e também socioambiental, o quê pode ser atestado pelo leque de temas abordados nestes escritos, a despeito de sua humilde advertência inicial de quê trataria apenas de alguns aspectos da questão assumida no título da encíclica. Com um propósito didático, houvemos por bem destacar temas-chave abordados nesta Encíclica: Mundo fechado e em retrocesso; hipertrofia dos poderes econômicos transnacionais; Ressurgimento de nacionalismos obtusos; Neoliberalismo garante liberdade de poucos a custa da supressão ou redução dos direitos das maiorias; A covid-19 como expressão do gemido da Mãe Terra e de sua rebeldia; A excessiva concentração de riquezas e poderes em mãos de poucos ameaça nossa Casa Comum – os humanos e o conjunto dos viventes; aos olhos dos” donos do mundo”, os migrantes são tratados como se fossem menos humanos; tratamento privilegiado dispensado, no processo de migração, a cientistas e a grandes investidores; poderes econômicos transnacionais superpõem-se governos nacionais; democracia sequestrada pelas estratégias de mentira e desinformação em massa; Cultura do Encontro; demolir muros e construir pontes; Política como meio eficaz de resolver problemas coletivos:“Alguém ajuda um idoso a atravessar um rio, e isto é caridade primorosa; mas o político constrói-lhe uma ponte, e isto também é caridade” (cf. n. 186); recrudescimento do recurso à razão da força; a parábola do Bom Samaritano como critério de avaliação das práticas dominantes e de sua superação; gestação de um novo mundo, orientado pelos valores da Fraternidade/Sororidade. Universal movido pela garantia da liberdade e da igualdade; reconhecimento e respeito à diversidade cultural, da qual a figura do poliedro expressa um símbolo inspirador; exercício das práticas de interculturalidade dos povos e das Nações; a primazia atômicos, biológicos e de destruição em massa; postura de universalização dos direitos fundamentais, bem como da satisfação das aspirações humanizadoras; o papel das religiões como fomentadoras de o mundo de paz..do Diálogo como meio eficaz de alcançar a Paz; esforço mundial contra os armamentos

 

Liberdade, sim! Mas, de quem e para quem?

Não se deve perder de vista o valioso lema da Revolução Francesa: ” Liberdade, Igualdade,Fraternidade” de que liberdade porém se trata? Um exame dos frutos de nossas sociedades ocidentais, em especial na atualidade, nos permite avaliar o alcance e o significado desta palavra. Nas sociedades ocidentais, o termo “Liberdade” quase chega assumir um sentido dogmático nas relações do cotidiano, entretanto, podemos melhor aquilatar a densidade ou esvaziamento deste termo, por meio dos frutos que esta árvore da Liberdade tem produzido. Que liberdade pode haver para milhares de jovens, negros, favelados, jogados nos porões do nosso sistema prisional, durante anos, sem que cerca de 40% deste contingente sejam sequer julgados? Por outro lado, como se queixar de liberdade quem – uma minúscula quantidade de pessoas privilegiadas – goza de todos os privilégios possíveis e imagináveis: contando com um acúmulo espantoso de bens, de riquezas, de patrimônio (mesmo em tempos de pandemia, conseguem aumentar significativamente suas riquezas, graças aos mecanismos financistas sob seu controle)? Um percentual mínimo de financistas, atuando em negócios espúrios, em seus paraísos fiscais, auferindo lucros extorsivos com negócios sujos, com dinheiro proveniente do tráfico de armas, do tráfico de drogas, do Comércio de pessoas, tráfico de animais, tráficos de orgãos, trabalho infantil análogo ao trabalho escravo? Um punhado desses megabilionários concentram em suas mãos riquezas equivalentes a soma de dezenas de países, enquanto centenas de milhões de pessoas, mundo afora, sobrevivem à míngua, com fome, no desemprego estrutural, sem moradia digna, sem serviços públicos de saúde, de educação, de previdência, de transporte público… que liberdade é esta? É a liberdade reclamada e proclamada aos quatro ventos pelo Neoliberalismo. Trata-se de uma liberdade para muito poucos, enquanto dela são sistematicamente privadas multidões, pelo mundo afora. Tal é o controle que estes agentes financistas detêm sobre os negócios, que ficam suas decisões muito acima do poder decisório dos próprios Estados, o que representa verdadeiro clamor de Justiça e de liberdade, para a enorme maioria da população mundial.

 

O direito de ir e vir a poucos é assegurado, enquanto a enorme maioria da população mundial se vê continuamente perseguida, julgada e condenada, quando parte destas multidões ousa ganhar a vida dignamente fora de sua terra, por nas suas não encontrarem as condições mínimas de uma vida digna, não apenas quanto as suas necessidades básicas, mas também, como lembra a Encíclica, as condições necessárias ao seu desenvolvimento integral de pessoas. De que “Liberdade” gozam centenas de milhões de pessoas desempregadas, sub-empregadas, mal-empregadas, em tantas partes do mundo? Que liberdade se pode dizer daquelas multidões numerosas de habitantes sem terra para viver e trabalhar, sem teto para seus familiares, sem acesso a condições dignas de saúde, de educação, de Previdência Social, de transporte público, de assistência, de Segurança Pública, entre outras…

 

Igualdade: experiência efetiva no chão do cotidiano ou mera formalidade legal?

Tal como o conceito de Liberdade, também de Igualdade encontra extremas dificuldades de efetividade, isto é, embora este conceito conste nas leis principais de nossas sociedades, inclusive por inspiração direta da Declaração Universal dos Direitos Humanos e, a partir daí, nos textos constitucionais e das leis ordinárias. No chão do dia a dia, porém, sua efetividade se torna questionável e mesmo contraditória. As razões disto são muitas: “todos são iguais perante a lei” , mas, como isto sucede concretamente, nas relações sociais do dia a dia? A Encíclica “Fratelli Tutti” se reporta, com efeito, a múltiplas situações, fatos e acontecimentos, em escala mundial, de modo a visibilizar e mesmo a escancarar tais contradições, profundo hiato entre o que se diz garantir legalmente e o quê acontece, de modo concreto, no chão do dia a dia, em relação ao qual os povos originários,  as Comunidades Quilombolas, as comunidades ribeirinhas, os camponeses, os Operários, as mulheres, os jovens favelados, a Comunidade LGBTs, entre outros sujeitos destituídos de sua efetiva cidadania, graças a um modelo de organização social impregnado de contradições de garantia de privilégios à custa dos constantes desrespeitos e violações aos efetivos direitos de grandes maiorias das populações, espalhadas nos vários continentes.

 

Nas sociedades burguesas, inclusive na nossa, fala-se muito em meritocracia, isto é, no princípio segundo o qual as pessoas ascendem a cargos mais prestigiosos, em razão de seus méritos pessoais. Na prática, porém, como sustentar tal princípio, quando se tem em consideração milhões de crianças e jovens, especialmente negros e favelados, sem as mínimas condições e oportunidades de galgarem condições mais reconhecidas, enquanto aos membros da classe dominante e dirigente, todas essas condições e outras mais são asseguradas, até antes do seu nascimento? Isto nos remete a muitos casos emblemáticos, dos quais destaco apenas dois. Uma figura famosa, Silvio Santos, costuma gabar-se do fato de que ascendeu profissionalmente, graças aos seus méritos pessoais, passando de ambulante a um dos mais bem sucedidos empresários brasileiros… outra figura, que aqui tomo como um contra ponto, é a do sociólogo Florestan Fernandes (cujo centenário de natalício, estamos a comemorar), filho de uma doméstica, ele próprio não tendo conhecido seu pai, tendo que, desde tenra idade (apenas 6 anos) enfrentar pequenos trabalhos (como o de ajudante de uma barbearia, trabalhando na limpeza da mesma, trabalhando como engraxate, trabalhando como vendedor de produtos farmacêuticos, entre outras ocupações) e tendo que aplicar-se também aos estudos, que teve que abandonar por alguns anos, para ajudar a garantir sua sobrevivência e a de sua mãe. Ainda assim, retomando seus estudos, consegue ingressar na USP (Universidade de São Paulo), na qual, após vários anos de formação acadêmica, ascende ao cargo de professor, ao lado de Roger Bastide, tornando-se em seguida, também professor daquela Universidade, vindo a figurar como um dos maiores sociólogos do Brasil. Florestan Fernandes, diferentemente de Silvio Santos, cuidava de fundamentar, de modo mais crítico, este seu sucesso, indo além do seu empenho volitivo, de sua paixão pelos estudos, atribuindo também as condições sociais que, de certo modo, lhe foram asseguradas. Não é por acaso, que expressa o sentimento de que sua trajetória é uma rara exceção, lembrando tantos de seus amigos de infância , aos quais não foram asseguradas as mesmas oportunidades. Permito-me um breve parêntese, em homenagem a Florestan Fernandes. Já em uma idade relativamente avançada, recebeu solicitação para se candidatar a Deputado Constituinte. Empenhou-se bravamente, no processo constituinte, em defender os serviços públicos, com muita ênfase (especialmente Educação e Saúde). Tendo defendido arduamente a aprovação do SUS, tornou-se conhecido pela sua coerência, ao recusar convite de FHC, para fazer tratamento de sua saúde, fortemente combalida, fora do país, preferindo socorrer-se às filas do SUS. Igualdade? Tem para todos?

 

Ainda no âmbito da Igualdade, importa prosseguir considerando as diferentes contradições que rodeiam este conceito. Como considerar igualdade de condições, quando se pensa, por exemplo, nas classes populares, nos desempregados e desempregadas, em tantos segmentos sem terem asseguradas as condições materiais e imateriais de seu processo de humanização em Face de pequena minoria da classe dominante e dirigente, para quem são asseguradas as condições e os privilégios de classe? Desigualdade de condições compromete o próprio exercício da democracia, a medida que implica a existência de cidadãos e cidadãs privilegiados de um lado, e, do outro lado, cidadãos e cidadãs de segunda ou terceira categoria, isso é, aos quais são negados os direitos elementares como aqueles e aquelas que, a exemplo dos integrantes do Parlamento, do Executivo, do Judiciário, tem a seu favor um conjunto amplo de regalias: transporte gratuito assegurado, planos de saúde caríssimos, garantia para seus filhos nas melhores escolas e universidades, altos vencimentos, além de um amplo conjunto de condições privilegiadas. Como compreender, nestas condições, que os ditos “representantes” do Povo não tenham qualquer experiência de se locomoverem em transporte público, ignorarem as dificuldades de moradia, contarem com os melhores serviços de Saúde privada, de terem a seu favor dezenas de assessores e assessorias pagos pelo erário? Como compreender que tais pessoas possam mesmo representar os interesses da maioria da população, devendo parte considerável dela o financiamento de sua eleição à grandes corporações? A isto se deve acrescentar os frequentes episódios de extorsão do dinheiro público, por meio de mazelas e conchavos político-partidários e outros, tal como neste momento, tomamos conhecimento do escandaloso flagrante de um Senador da República, a esconder dezenas de milhares de reais em seu apartamento, parte dentro da própria cueca…

 

Fraternidade/Sororidade como uma nova síntese da relação Igualdade/Liberdade

Dadas as condições de normose, em que vivemos mergulhados, poucas são as pessoas que ainda conseguem atentar para a necessária diferenciação no uso dos termos “fratres/fraternidade”e o termo “sorores/sororidade” para não poucas pessoas, trazê-las de forma conjuntas estes dois termos parece, para dizer o mínimo, algo estranho, soando mesmo como um rebuscar de linguagem, como um recurso desnecessário, já que durante séculos, o termo “fraternidade” tem sido utilizado com um amplo consenso, sem qualquer necessidade de fazer diferença entre o ao outro polo das relações sociais de gênero (as “sorores”: as irmãs). Daí, nossa insistência em busca de reparação, também no âmbito das palavras, às injustiças de que as mulheres , ainda que constituindo-se maioria da população humana, são tratadas como minoria. Também, ao analisarmos a Encíclica “Fratelli Tutti”, sentimos falta da expressão do termo “sorores “ao lado do termo “fratres”/fraternidade isto, vale insistir, não deve soar como um preciosismo ou algo supérfluo, mas como indicativo do nosso esforço, também no âmbito da linguagem, de não cometer injustiça nas relações sociais de gênero. Isto nos remete também a uma outra figura querida, a do Educador Paulo Freire, tendo recebidos amáveis críticas e cobranças da parte de um público feminino apreciador de sua obra, respondeu que, ao usar o masculino plural, não tinha intenção de discriminar as mulheres, e que elas se sentissem incluídas no masculino plural.

 

Como se percebe, o ensaio de uma nova síntese, representada pela Encíclica social “Fratelli Tutti”, arranca da própria necessidade de melhor se precisar o título da referida Encíclica, à medida que, enquanto fio condutor do entrelaçamento perseguido entre ” Liberdade e Fraternidade “, implica a necessidade de reexaminar o termo isolado “Fraternidade”, em vez de articular adequadamente com o termo de “sororidade”. Com efeito, somente assim, podemos aspirar a uma prática de liberdade e de igualdade, conforme as aspirações mais generosa só das mulheres e dos homens deste tempo. Não se trata, todavia, de reduzir tal retificação apenas a uma questão de termos ou de conceitos, mas se trata sobretudo de assegurar substância e legitimidade às práticas do cotidiano em breve, cuida-se de assegurar, por meio da fraternidade/sororidade, um substantivo também às experiências de liberdade e de igualdade. É assim que se pode falar em fraternidade/sororidade como um fio condutor a costurar, adequadamente, as relações sociais e interpessoais de liberdade e de igualdade.

 

Ao longo da “Fratelli Tutti”, encontramos diversos parágrafos a indicarem um profundo hiato, quando, nas sociedades ocidentais, inclusive na nossa, se fala nas experiências e nos conceitos de liberdade e igualdade no plano das relações de produção. Não alcança legitimidade o tratamento corrente desses conceitos, trabalhados apenas do ponto de vista formal , seja no âmbito das leis vigentes, seja nas esferas institucionais (família, igrejas, relações de trabalho, entre outros). Os próprios dados estatísticos relativos às relações de produção, nas mais diversas áreas e setores da economia, apontam as graves contradições entre, de um lado, o que se passa de privilégios para parcelas mínimas das populações e o que sucede, na prática, a imensa maioria dos grupos sociais. Liberdade, para uns poucos, contrasta com a liberdade ou a falta de liberdade de imensas maiorias: concentração extrema da renda e das riquezas contrastando com os índices espantosos relativos ao desemprego estrutural de imensas massas desprotegidas, das quais as mulheres, os jovens, os negros, as populações LGBT, os migrantes forçados e outros segmentos de nossas sociedades constituem imensas maiorias, às quais são negados direitos fundamentais – trabalho digno, salário justo, direitos sindicais, direitos de proteção social, previdenciários, acesso regular aos serviços públicos essenciais, o mesmo se diga em relação à questão da igualdade e não apenas na esfera econômica, mas também no que concerne à proteção em relação aos gravíssimos efeitos resultantes do desequilíbrio ecológico, dada a suprema ambição, por parte das grandes corporações transnacionais, das grandes empresas, dos estados nacionais, que não cessam de cometer e violar direitos ferindo também a dignidade da mãe terra e de seus viventes.

 

É com o fio condutor da Fraternidade/sororidade, que vamos poder costurar as dimensões mais generosa da liberdade e da igualdade de modo que não se trate mais de meros conceitos, mas de experiências humanizadoras e em respeito à dignidade do planeta e de toda a comunidade dos viventes a partir deste entendimento, o grande desafio passa a ser o de revisarmos constantemente e repararmos as deformações escandalosas contidas no conceito de liberdade e de igualdade, em todas as esferas da realidade social, econômica, política, cultural, socioambiental. É ainda, por este caminho, que buscaremos superar o desafio das crescentes agressões ecológicas sofridas pelo planeta e pelos humanos. É por esta via que buscaremos reorganizar as atividades de produção, buscando respeitar nossas relações com a mãe natureza e com o conjunto dos viventes, inclusive os humanos, à medida que organizar o processo produtivo implica, por exemplo, na adoção de um estilo de vida alternativo, compatível com os bens e os recursos disponíveis, de tal modo que não tenha mais lugar mórbido acúmulo capitalista, produtor de vários tipos de barbárie.

Por outro lado, também será por meio da fraternidade/sororidade, que seremos capazes de reorganizar nossos valores, nossas crenças, nossos interesses, nossos investimentos e nossas prioridades.

 

Que lições outras somos capazes de extrair da leitura desta Encíclica?

Um primeiro aspecto a sublinhar tem a ver com todo um processo de conversão, a que somos chamados – mulheres e homens – a perseguir, no chão do nosso dia a dia, de forma incessante, processual conversão. Significa, por exemplo, estarmos dispostos a mudar de vida, a ousar modificar o nosso estilo de vida pessoal e coletivo, de tal modo que sejamos capazes de ir construindo, ousando dar passos em direção à construção de um novo modo de produção, um novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal quanto a este. A Encíclica “Fratelli Tutti” nos convoca a reinventarmos a política, entendendo-a como um meio precioso de construirmos uma cidadania, da qual todos são chamados a ser protagonistas. Cuida-se de uma política capaz de examinar, com profundidade, diferentes dimensões de estruturação ou reestruturação e exercício do poder, não tanto apenas em escala nacional, mas em escala global. Reinventar a política – o nosso desafio, a envolver gerações atuais e vindouras, e de forma permanente.

 

João Pessoa, 22 de outubro de 2020

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