
Um dos papéis fundamentais do jornalismo é a difusão da arte, da literatura e da poesia. Essa vertente do jornalismo se faz mediadora entre o público e a produção artística e literária, valorizando a diversidade cultural. E nestes tempos de superficialidade e imediatismo da era digital, a leitura se torna um ato de resistência, necessária ao aprimoramento intelectual e à saúde mental.
Esses dias, recebi de Alder Júlio Ferreira Calado o seu livro “Florilégio de estrofes da poesia sertaneja”, lançado em 2009 pela Edições Buscas. Como o recebi em ‘versão para impressão’, corri para imprimi-lo e hoje ele é minha leitura de cabeceira. Descobri nele um verdadeiro tratado da literatura poética sertaneja, que faz jus ao título de florilégio – no sentido mais significativo da raiz poética da palavra. Por ele, e maravilhado, faço diariamente uma viagem por grandes representantes dessa modalidade literária.
Convém abrir um parêntese para registrar que é consenso histórico que a cantoria (ou repente) teve como berço a Serra do Teixeira, especificamente a cidade de mesmo nome. Em sua obra “Vaqueiros e Cantadores”, o historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo registra que o surgimento desse estilo se deu nessa região, destacando Agostinho Nunes da Costa e seus filhos, Ugolino do Sabugi e Nicandro, como alguns dos primeiros cantadores conhecidos no lugar em meados do século XIX. A própria Câmara Municipal de Teixeira, com base em estudos e informações históricas, declarou, em 02/12/2025, através da Lei nº 574/2025, o município como “Terra-Mãe da Cantoria de Repente”.
Voltando ao livro de Alder Calado, é justo que eu compartilhe com os leitores da Revista Consciência este valioso presente literário que começa assim, nas palavras do próprio autor:
“PROPÓSITO DESTA COLETÂNEA
À margem da vitrine da mídia do “pensamento único”, segue a poesia sertaneja – seja em sua versão em estilo “Repente”, seja em forma do Cordel ou mesmo em forma de canções – a encantar parcelas expressivas de admiradores, nas cidades e no campo.
À exceção de um estilo de qualidade duvidosa, que, graças à indústria da chamada música sertaneja, impera na mídia oficial, sob a batuta de cantores de massa, pouco se promove a poesia sertaneja de qualidade mais refinada, qual a produzida pelos repentistas e poetas populares.
Tocado, de longa data, pela excelência do Repente e da Poesia sertaneja de boa qualidade, tenho-me associado àqueles e àquelas que se esforçam por cultivar e difundir esse tipo de poesia – ainda desconhecido de parte expressiva da população.
O Repente sempre representou para mim a mais fascinante das artes, sem qualquer propósito de concorrência, afinal qualquer expressão de Arte, desde que seja de boa qualidade, é algo a se cultivar e difundir.
Trato de justificar os traços que mais me fascinam na Arte do Repente.
Mais do que um produto isolado, ou um traço singular, seduz-me, antes, o processo de elaboração do Repente, do qual fazem parte a excelência dos produtores e suas respectivas produções.
Os repentistas são, antes de tudo, exímios Poetas. Dotados, desde cedo, de especial talento, vão se aprimorando cada vez melhor na Arte, graças ao contínuo exercício da mesma. Basta que escutemos um grande repentista, em início de carreira, e esta mesma figura, anos e anos depois, lapidada por décadas de apresentações em incontáveis cantorias e festivais. Como não nos impactarmos com produções de figuras como Pinto de Monteiro, com os irmãos Otacílio, Dimas e Lourival Batista? Como fugir ao justo espanto diante de figuras como Daudeth Bandeira, Ivanildo Vila Nova, Geraldo Amâncio, Oliveira de Panelas, Raimundo Nonato, Nonato Costa, Raimundo Caetano, Rogério Menezes, entre tantos nomes, inclusive de mulheres repentistas?
Não é fácil, porém, a vida de um Repentista talentoso. Ele não nasce pronto. Resulta de um longo processo de aprendizado e de exercício ininterrupto. E isto por diversas razões.
Não pode vir de berço a extensão de conhecimentos em que deve ser instruído e exercitado, como condição fundamental da qualidade do seu desempenho. Do contrário,
– Como vai incorporar e expressar a extensa gama de estilos do Repente?
– Como vai ser capaz de glosar a partir de motes tão desafiadores, quanto às áreas de saberes em que se lhes colocam os motes, de modo a exigir-lhes conhecimentos de Biologia, de História, de Literatura, de Religião, de Psicologia, de Política, de Economia, de Sociologia, de Agronomia, de Geografia, de Direito, e assim por diante?
– Não fosse seu contínuo e operoso aprendizado, como iria enfrentar esse labirinto artístico de tamanha complexidade como a da participação em festivais e cantorias, a exigirem, ao mesmo tempo,
* imediata sintonia com sucessivos estilos ou gêneros solicitados (sextilhas, septilhas, décimas, martelo agalopado, mourão voltado, mourão perguntado, gemido de dois, quadrão mineiro, quadrão alagoano, martelo alagoano, peleja, entre tantas outras)?
* Como vai se exercitar, em cada gênero solicitado, sua adequação à respectiva métrica?
* Como vai lidar com acerto com relação aos mais variados tipos de rimas?
* Como vai encontrar o “baião” certo ou a melodia apropriada à glosa dos seus versos?
* Sobretudo, como vai ser capaz de exercitar sua poderosa imaginação, na criação de imagens fantásticas, de cenas as mais imprevisíveis?
Houve por bem revisitar ou voltar a incursionar por esse universo, dele recolhendo algumas pérolas que possa compartilhar com amigos e leitores, com o propósito de tocar especialmente a sensibilidade de educadores e educadoras que se animem a socializar com os jovens esse universo ainda tão pouco conhecido, de modo tal que chegue a impactar uma boa parcela de nossos jovens, que se acham, não raro, reféns da produção cultural hegemônica, que pouco contribui para um processo de humanização que dignifique a condição humana, ou que ajude a recuperá-la.
Outro ponto que costuma impactar até mesmo os iniciados, é a extensa gama de gêneros de cantorias: desde as sextilhas tão comuns, passando pelas septilhas, os mourões (Mourão Voltado, Mourão Perguntado), as oitavas (Oito a Quadrão, Quadrão Mineiro, Quadrão Paulista, Oitavão Rebatido), as estrofes de nove linhas (Toada Alagoana, Dez a Quadrão), as décimas (Martelo Agalopado, Martelo Alagoano, Galope à beira-mar), Quadras, Gemedeira, além de outras, e sem contar as inovações…
Para a organização desta coletânea de estrofes do Repente e da Poesia Sertaneja, contei com a contribuição de alguns amigos, seja pelas sugestões
valiosas, seja pelo incentivo. Externo minha gratidão, em especial, aos Amigos Josué Euzébio Ferreira, Francisco Romildo da Silva, João Fragoso e Rolando Lazarte.
Convém, ainda, ter presente o caráter limitado, circunstancial e parcial da seleção. À medida que me deparava com poesias que me pareciam especiais, de certo ponto de vista, delas tratei de extrair algumas estrofes representativas. Outros, em meu lugar, poderiam ter tido outros critérios. Trata-se, como se percebe, de um pequeno recorte de um vasto universo. Um aperitivo para outras incursões pelo belo universo da Poesia Sertaneja e do nosso Repente”.
E termina assim:
“LXVI
CABOCLO ROCEIRO
Patativa do Assaré
No centenário do nascimento de Patativa do Assaré, ocorre-nos prestar uma homenagem à memória desse ícone nordestino.
Poeta de enorme produção – e produção de qualidade! Patativa afirma-se Poeta a partir mesmo de sua figura existencial. Certamente poética é sua vasta produção. Mas, tanto quanto ou até antes mesmo do que punha no papel, era seu viver recheado de profunda poesia. Caracterizavam-no a beleza estética dos seus versos, a força dos argumentos, a riqueza de imagens, a cadência e a relevância temática que desenvolvia.
No caso das estrofes escolhidas, o Poeta Patativa revisita, uma vez mais, seu cenário preferido: cantar sua Terra e cantar sua Gente, em especial o viver sertanejo, a exemplo da célebre “Triste Partida”, considerada o hino nacional dos nordestinos do semiárido Na poesia que segue, vemos Patativa reverenciar, bem ao seu modo, uma figura que tão bem conhece, até porque ele próprio foi uma delas: o roceiro.
Caboclo roceiro
Das plagas do Norte
Que vive sem sorte
Sem terra e sem lar
A tua desdita
É tristonho que canto
Se escuto o meu pranto
Me ponho a chorar
Ninguém te oferece
Feliz lenitivo
És rude, cativo
Não tens liberdade
A roça é teu mundo
Também tua escola
Teu braço é a mola
Que move a cidade
De noite tu vives
Na tua palhoça
De dia na roça
De enxada na mão
Julgando que Deus
É um pai vingativo
Não vês o motivo
Da tua opressão
Tu pensas, Amigo
Que a vida que levas
De dores, de trevas
Debaixo da cruz
E as crises constantes
Quais sinas espadas
São penas mandadas
Por nosso Jesus
Tu és nesta vida
Fiel penitente
Um pobre inocente
No banco do réu
Caboclo, não guarda
Contigo essa crença
A tua sentença
Não parte do céu
O Mestre divino
Que é sábio profundo
Não faz neste mundo
Teu fardo infeliz
As tuas desgraças
Com tua desordem
Não nascem da ordem
Do eterno Juiz
A Lua se apaga
Sem ter empecilho
O Sol, o seu brilho
Jamais te negou
Porém, os ingratos
Com ódio e com guerra
Tomaram-te a terra
Que Deus te entregou
De noite tu vives
Na tua palhoça
De dia na roça
De enxada na mão
Caboclo roceiro
Sem lar, sem abrigo
Tu és meu amigo
Tu és meu irmão.
Fonte: http://www.fisica.ufpb.br/~romero/port/ga_pa.htm#Afes
Patativa escolheu desenvolver seus versos acima, seguindo o modelo de estrofes de oito versos, sendo cada verso composto de apenas cinco sílabas, com acentos recaindo sobre a segunda e sobre a quinta sílabas. Quanto à rima, Patativa orientou seus versos, seguindo o formato ABBCDEEC.”
Leia aqui 👇 o livro na íntegra: ![]()
livro_Florilégio da Poesia Sertaneja (versão para impressão)
Bacharel em Ciências Sociais, ambientalista e poeta.

Sinto-me honrado por ver esta joia de autoria de Alder Júlio Ferreira Calado, disponibilizada para o nosso público leitor. As palavras iniciais de introdução e apresentação, de Martim Assueros Gomes, merecem também aplauso, uma vez que situam esta obra no contexto educativo e formativo humanizador, que são a marca registrada desta revista.