Flávio, a Globo e o almoço dos muito iguais | Por Castigat Ridens

IA

Flávio prometeu R$ 200 bilhões sem mostrar as contas, escapou de perguntas sobre corrupção e ganhou um almoço reservado com a cúpula da Globo. Castigat Ridens expõe as evasivas do candidato e a imparcialidade indigesta da emissora.

Entre R$ 200 bilhões sem contas, corrupção combatida seletivamente e um almoço reservado, a entrevista revelou mais do que o candidato pretendia.

Primeiro, o almoço. Depois, a entrevista.

Foi assim que Flávio Bolsonaro passou a sexta-feira, 16 de outubro, na Globo. Ao meio-dia, a companhia da direção da empresa. À noite, as perguntas de Renata Lo Prete.

O encontro entre Flávio Bolsonaro e a direção da emissora transformou o almoço na Globo em um episódio tão comentável quanto a entrevista.

O almoço foi reservado. A entrevista, pública. Em ambos, havia questões que mereciam esclarecimentos.

Renata fez sua parte. Perguntou, insistiu e enfrentou um candidato especialmente habilidoso em responder à pergunta que gostaria de ter recebido.

Flávio apresentou um programa no qual os números aparecem com desenvoltura, as explicações nem sempre os acompanham e os assuntos incômodos desaparecem sob uma avalanche de palavras.

R$ 200 bilhões: a economia por encantamento

Flávio prometeu economizar aproximadamente R$ 200 bilhões, preservando salário mínimo, aposentadorias e os pisos constitucionais da saúde e da educação.

Uma maravilha. Uma fortuna economizada sem que ninguém precise explicar de onde ela sairá.

A receita inclui extinguir ministérios, vender patrimônio público e combater a corrupção.

Extinguir ministérios é particularmente engenhoso. Muda-se a placa da porta e, aparentemente, desaparecem salários, contratos e obrigações.

Vender patrimônio também funciona — até acabar o patrimônio.

Mas a verdadeira mina de ouro está na corrupção. Basta anunciar bilhões recuperados para que o dinheiro comece a desfilar diante do eleitor.

O inconveniente é que prejuízo estimado não é dinheiro recuperado, e dinheiro recuperado não é necessariamente receita permanente.

Enquanto isso, universidades, pesquisa científica, habitação e assistência social continuam precisando de recursos reais.

Os R$ 200 bilhões apareceram. A conta, não.

As rachadinhas e os serviços de inteligência da família

Flávio também apresentou o combate à corrupção como credencial de governo.

Sua trajetória recomenda uma conversa mais demorada.

No caso das rachadinhas, foi denunciado pelo Ministério Público do Rio por suspeita de participação em um esquema de apropriação de salários de servidores de seu gabinete, envolvendo aproximadamente R$ 6 milhões.

Quando comprovada, rachadinha não é contribuição voluntária para a felicidade parlamentar. É desvio de dinheiro público.

O processo foi arquivado depois que decisões judiciais anularam provas importantes, sem julgamento definitivo do mérito. Flávio negou as acusações.

Mas a história tem um capítulo especialmente interessante.

Em agosto de 2020, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu no Palácio do Planalto as advogadas do filho, o diretor da Abin, Alexandre Ramagem, e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno.

O assunto? Caminhos para questionar a investigação contra Flávio.

A reunião foi gravada. Seu conteúdo veio a público em 2024. Bolsonaro chegou a sugerir contatos com autoridades da Receita Federal.

Uma curiosa maneira de separar os interesses da família dos assuntos de Estado.

A promessa de combater a corrupção ganhou outro ingrediente com as revelações sobre Willer Tomaz, advogado investigado por suspeita de lavagem de dinheiro relacionada às fraudes do INSS.

E-mails obtidos pela Polícia Federal indicam que o nome de Flávio esteve vinculado a uma conta bancária relacionada a uma empresa de Tomaz sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. Em 2025, uma funcionária solicitou ao banco que o nome do senador fosse desvinculado.

Também foram questionadas movimentações em dinheiro vivo, negócios imobiliários e a compra de uma mansão em Brasília. Suspeitas não equivalem a condenações, mas merecem esclarecimentos.

Afinal, combater a corrupção é uma promessa importante. Melhor ainda quando o compromisso vale para todos, inclusive para quem o anuncia.

Munições: um detalhezinho de nada

Renata perguntou por que Flávio defendia a retirada de exigências de identificação de munições.

O candidato chamou o assunto de “detalhezinho” e passou a falar de penas rigorosas e inteligência artificial.

A identificação ajuda a rastrear munições desviadas de arsenais oficiais e utilizadas por organizações criminosas, inclusive milícias.

O detalhe ganha importância diante de seu histórico de homenagens.

Levantamento da revista piauí identificou 23 policiais e militares homenageados por Flávio que foram condenados ou se tornaram réus por diferentes crimes. Nem todos eram acusados de integrar milícias, e parte das acusações surgiu posteriormente.

Entre os agraciados estavam Adriano da Nóbrega e Ronald Paulo Alves Pereira, associados por investigações a milícias fluminenses. Adriano recebeu duas homenagens, inclusive a Medalha Tiradentes, em 2005, quando estava preso.

Homenagens não comprovam participação nos crimes dos homenageados. Mas tornam ainda mais necessária uma explicação sobre medidas que dificultam investigações.

Renata queria saber por que enfraquecer o rastreamento.

Flávio preferiu falar de outras coisas.

O “detalhezinho” continuou sem resposta.

Banco Master: dinheiro privado, perguntas públicas

Questionado sobre recursos ligados a Daniel Vorcaro no financiamento de Dark Horse, filme dedicado a Jair Bolsonaro, Flávio explicou que dinheiro privado pode financiar uma produção privada.

Uma revelação.

O problema não era saber se particulares podem financiar filmes, mas esclarecer a origem e a regularidade dos recursos.

O Banco Master tornou-se objeto de investigações sobre operações financeiras envolvendo investidores e entidades previdenciárias. O financiamento do filme também suscitou questionamentos.

Nada autoriza concluir antecipadamente que o dinheiro utilizado fosse ilícito. Mas chamá-lo de privado tampouco comprova sua procedência.

Flávio apresentou explicações sobre a operação, sem oferecer documentação pública suficiente para encerrar as dúvidas.

Em compensação, recorreu a comparações com negócios de outras empresas.

Dinheiro privado pode ser perfeitamente lícito. A palavra “privado”, porém, não é certificado de procedência.

O Supremo e a soberania opcional

Flávio criticou Alexandre de Moraes com entusiasmo. Quando confrontado com questionamentos sobre Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, a indignação tornou-se mais discreta.

Talvez fosse útil uma regra revolucionária: investigar irregularidades independentemente de quem indicou o ministro, com provas e respeito ao devido processo legal.

O inconveniente dos princípios universais é que também se aplicam aos aliados.

Na política externa, Flávio defendeu a aproximação com o Escudo das Américas, iniciativa de segurança liderada por Donald Trump, e a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas.

Isso não autorizaria automaticamente operações militares estrangeiras no Brasil. Mas exige definições sobre os limites da cooperação.

Os precedentes de intervenções estadunidenses no Panamá, no Iraque e na Venezuela recomendam prudência.

O Brasil possui petróleo e importantes reservas de terras raras, recursos estratégicos de interesse internacional. Isso não comprova qualquer plano de intervenção, mas torna a soberania uma questão concreta.

Flávio aceitaria operações militares estadunidenses em território brasileiro? Bases permanentes? Acordos de segurança acompanhados de concessões econômicas?

Seria interessante saber onde termina a cooperação e começa a subordinação.

Flávio Bolsonaro e o almoço na Globo: os muito iguais

Mas o episódio mais saboroso aconteceu antes de Renata ligar os refletores.

Flávio foi recebido para um almoço reservado por João Roberto Marinho, presidente do Grupo Globo, e Paulo Tonet, vice-presidente de Relações Institucionais. Estava acompanhado de Rogério Marinho, coordenador de sua campanha.

Lula, entrevistado na noite anterior, não teve encontro equivalente.

A Globo explicou que a reunião era institucional, que dirigentes do jornalismo não participaram e que também receberia Lula caso ele tivesse solicitado.

É uma justificativa digna de estudo.

Um candidato obtém acesso reservado à cúpula empresarial da emissora, exatamente no dia da entrevista. O outro não recebe tratamento equivalente. E a empresa explica que a igualdade estava assegurada porque ele também poderia ter pedido.

Talvez faltasse a Lula consultar o cardápio das cortesias institucionais.

Talvez existisse um serviço de reservas.

Talvez a imparcialidade funcionasse por ordem de solicitação.

A questão não é quem pediu o almoço. É por que a direção da Globo aceitou realizá-lo naquele momento sem assegurar previamente condições equivalentes.

A ausência de dirigentes do jornalismo é uma distinção importante. Renata fez perguntas difíceis, insistiu diante de evasivas e não há prova de interferência sobre seu trabalho.

A responsabilidade pelo almoço é da direção empresarial, não da jornalista.

Mas a ausência de jornalistas à mesa não elimina a diferença de tratamento.

Flávio teve acesso reservado aos principais executivos da empresa em pleno segundo turno. Lula não teve oportunidade equivalente.

E o conteúdo da conversa?

O que foi discutido? Por que realizar o encontro naquele dia? Por que não anunciar antecipadamente condições iguais?

Uma empresa que cobra transparência dos candidatos precisa estar disposta a explicar suas próprias decisões.

A imparcialidade não pode ser uma exigência diante das câmeras e uma conveniência à mesa do almoço.

A sobremesa

Terminada a entrevista, ficaram perguntas sem respostas satisfatórias.

De onde sairiam os R$ 200 bilhões? Por que enfraquecer o rastreamento de munições? Como esclarecer integralmente o financiamento do filme? Quais seriam os limites da cooperação militar com Washington?

E, naturalmente, o que justificava aquele almoço?

Renata perguntou. Flávio respondeu ao que quis, esclareceu algumas posições e deixou outras questões em aberto.

A Globo explicou que o encontro era institucional, como se o adjetivo bastasse para eliminar a desigualdade de tratamento.

O jornalismo precisa fazer perguntas difíceis. Os candidatos precisam respondê-las. E as empresas de comunicação precisam praticar os princípios que proclamam.

No fim, o público ficou com as perguntas. Flávio ficou com o almoço. E a Globo, com a conta da credibilidade.

Nota de transparência editorial — Texto elaborado com apoio de inteligência artificial na pesquisa, organização e revisão. As referências a investigações não representam condenações. A ironia e as avaliações políticas integram a linguagem opinativa da coluna.

Legenda: O almoço dos muito iguais — Charge satírica sobre a entrevista de Flávio Bolsonaro e seu encontro com dirigentes da Globo. Crédito: Ilustração satírica produzida com inteligência artificial para a Rede Estação Democracia.

Sobre o autor

Castigat Ridens
‘Castigat Ridens’ é um pseudônimo criado a partir da expressão latina ‘Castigat ridendo mores’, que significa ‘corrige os costumes rindo’ ou ‘critica a sociedade pelo riso’, muito usada no contexto da comédia como instrumento de crítica social.”

Ver todas as postagens

Fonte: Rede Estação Democracia – RED — Publicado em 17 de outubro de 2026 às 12:59 — Editado em 17 de outubro de 2026 às 12:59

Deixe um comentário