Filme de Karim Ainouz e Marcelo Gomes é um constante quase transbordar

Lembrando sempre que falo apenas dos filmes que pude assistir, os três que destaco na seleção competitiva nacional são, não por acaso, filmes que revolucionam, cada qual do seu jeito, a estética e a temática dessa geração cinematográfica nacional em que nos encontramos.

O título do longa, tirado de um bar em uma das paradas na estrada, parece dizer de caminhão. Um símbolo brega da sociedade nordestina. Mas o olhar generoso e curioso dos diretores transforma o sentido não só da frase, como também de toda essa comunidade brasileira tão caricaturesca, de kitsch em genuína.

“Viajo porque preciso, volto porque te amo”, longa dAridez deslocadairigido pela parceria de Karim Ainouz e Marcelo Gomes é um filme sensível e lindo. Uma beleza que não é óbvia, mas que advem da sutileza e do sofrimento de seu personagem principal, assim como da crueza e do lirismo sincero das imagens.

Ambos diretores haviam filmado e fotografado durante as buscas de locação ou até mesmo durante a produção de seus filmes anteriores que se passavam no nordeste brasileiro. “Cinema, aspirinas e urubus”, assim como “Céu de Suely” foram material bruto do novo longa feito pela dupla. Engraçado como aquele material de pesquisa, que teoricamente seria o rascunho dos filmes mencionados se transformaria em linguagem e memória de um novo personagem, completamente destacado e independente das histórias que contaram anteriormente.

Uma das coisas mais surpreendentes é que nada parece estar fora de lugar. Por mais que sejam usados diversos formatos: digital, película – 16mm, 35mm, Super 8 – máquina fotográfica, as imagens todas se encaixam na narrativa sofrida e à flor da pele desse personagem em constante deslocamento.

José Renato, protagonista que nunca vemos, mas que nos guia durante todos os 70 minutos com sua voz calma e forte, parte em busca de conforto e de esquecimento. Após o término com sua mulher, Joana, fato que só descobrimos após algum tempo de filme, o geólogo viaja a procura de consolo, na expectativa de poder voltar a viver sem sofrer, sem lembrar o tempo todo de sua galega. Ou simplesmente na procura de si mesmo, e de respiro, já que se encontra naquela situação em que não consegue se pensar desligado do outro e precisa descobrir essa sua nova identidade unitária e só e nem consegue ver a dor passar.

O processo de superação deste amor, pelo qual ele passa, momento com a qual quase todos podemos nos identificar, é tocante, emocionante e possivelmente até revelador. Ao acompanhá-lo, o espectador fica em um instante estado de “à beira de transbordar”.

Não nos é apresentado dados externos sobre essa mulher ou sobre o relacionamento dos dois. Toda a fonte de informação que temos é a memória e a fala de José Renato. Ele mesmo não contextualiza muito nem tenta explicar porque teriam terminado, quanto tempo juntos teriam ficado e nem dá detalhes sobre a felicidade ou tristeza anterior. Fala como num fluxo de pensamentos, que se justificaria por ser um diário de bordo, já que esta viagem tem também um propósito profissional de avaliar a possibilidade de construção de um canal que resultaria da transposição das águas do rio São Francisco.

Entre lembranças e impressões de sua viagem, as divagações de Zé Renato vão formando uma colcha de retalhos, cada pedaço com uma beleza particular, com uma história rica de detalhes, se completando pelo diferente, se encaixando pelas imperfeições.

Marcelo Gomes fala que este filme surgiu da idéia de usar das imagens filmadas na busca por esse sertão místico já tão retratado, mas pouco conhecido, aquelas que mais os impressionavam e os emocionavam. Para isso, precisavam de um personagem capaz de abarcar toda a emoção, a tensão e os questionamentos pelos quais os diretores também passaram.

Fala também que esse filme foi um ótimo exercício para se pensar a arte-profissão que pratica.

“É difícil assistir o filme até o final, por ser tão pessoal. Mas ao mesmo tempo é ótimo, porque acho que fala muito do que nós acreditamos que é fazer cinema”.
Marcelo Gomes

Assim como as contradições das imagens mostradas, ora poéticas, ora sujas, ora inspiradas, ora borradas e tortas, o personagem passa por etapas comuns para alguém em sua situação, de confusão e insatisfação. Um dos momentos mais significativos talvez seja quando diz algo que pode ser compreendido como uma fala dos diretores em relação a sua profissão ou a esta região árida brasileira, ou simplesmente de José Renato em relação à Joana: “Sinto ondas abruptas de ódio e amor por você”.

Além disso, uma das melhores coisas do filme é não só sua complexidade de sentimentos, como a maneira com a qual lida com toda a tristeza e a desilusão. Não é um sofrer apocalíptico e sem esperanças. É um gosto amargo e um processo pelo qual ele sabe que precisa passar antes de ficar bem.

“Viajo porque preciso, volto porque te amo” é uma raridade da cinematografia brasileira que merece ser vista pelo máximo número de pessoas. Espero que motive outros a pensarem que é possível fazer um cinema delicado, autoral e brasileiro, com poucos recursos, mas bastante sensibilidade e criatividade.

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