Felismina, a Heroína

Capa do cordel

O Nordeste brasileiro foi terreno fértil para a literatura de cordel aportar no Brasil e se desenvolver como forte manifestação cultural. Influenciado pelos trovadores medievais dos séculos XII e XIII, o cordel popularizou-se em Portugal durante o Renascimento, no século XVI, e de lá foi trazido ao Brasil pelos colonizadores.

Complementando esses fatos históricos, há de se destacar o paraibano Leandro Gomes de Barros, natural de Pombal, considerado o “pai do cordel” brasileiro por ter consolidado o gênero no final do século XIX e início do XX, com a produção, impressão e distribuição de folhetos.

Além disso, há a cantoria de repente – interligada ao cordel pela função, oralidade e métrica -, que teve sua origem também no Nordeste, no município de Teixeira, no Estado da Paraíba, em meados do século XIX, através de Agostinho Nunes da Costa (1797-1851) e seus filhos Antônio Ugolino Nunes da Costa (o mestre Ugolino do Sabugi) e Nicandro Nunes da Costa – “o poeta ferreiro”, assim chamado pela desenvoltura que tinha para moldar o ferro.

E foi no caldo cultural do Nordeste que se forjou a arte poética do cordelista mamanguapense João Batista da Silva, que além deste cordel “Felismina, A Heroína” publicado em 2010 e abaixo transcrito, compôs os seguintes cordéis: A Paraíba em versos, Ser Mãe, Ser Mulher, A terapia Comunitária e a recuperação da Pessoa Humana, Ciência e Fé, O terço das famílias, O Controle do Mal de Parkinson, O Folclore no Cordel, ⁠Cultura Afro-Brasileira, ⁠O Cangaço, ⁠Alerta ecológico, Desmatamento, ⁠Maria Bonita, Espiritualidade, ⁠Terapia Comunitária, Normose, ⁠Vegetarianismo, ⁠A vovozinha Pirada, ⁠O Rei do Baião, ⁠O Misterioso Triângulo das Bermudas, A Beata Fofoqueira, ⁠Os Leigos na Igreja, Por uma Nova Reforma, ⁠Prudência no Trânsito, ⁠Cidadania, ⁠Paulo Freire: Cidadão nordestino, ⁠Paulo Freire: Cidadão brasileiro, ⁠Paulo Freire: Cidadão do mundo, ⁠Ariano Suassuna e o Movimento Armorial, ⁠A vocação do Pai, ⁠Vida em primeiro lugar, dentre outros, além dos livros “Poemas Poligráficos” e “Reflexões para uma Educação Global”.

01

Num pequeno lugarejo
Da região nordestina
Morava com os seus pais
Uma formosa menina
Que, na infância sofreu,
No entanto, quando cresceu
Tornou-se uma heroína.

Sua família plantava
Batata, milho e feijão,
Mas a terra cultivada
Pertencia ao seu patrão
Com quem a safra dividia
E pra viver no dia a dia
Mal conseguia o pirão.

Era a filha mais velha,
Seu nome era Felismina
Que ao tornar-se adolescente
Lamentava a sua sina
Por não poder estudar,
Levava a vida em cuidar
De uma vaca turina.

02

A vaca não era sua,
Pertencia ao seu patrão,
O seu trabalho era em troca
De leite pra o seu irmão
Menino recém-nascido
Magrelo e bem desnutrido
De cortar o coração.

Felismina tinha um sonho
De um dia ser modelo,
Costumava se enfeitar
Com uma fita no cabelo,
Tinha um receio medonho
De que um dia o seu sonho
Se tornasse um pesadelo.

A sua mamãe querida
Se chamava Marieta
Casada e muito feliz
Com o Senhor Zé Perneta
Um caçador de tatu,
Rolinha, paca e nambu,
Com espingarda de espoleta.

03

Essa família não tinha
Meios de ganhar dinheiro,
Pra sobreviver criava
Galinhas pelo terreiro,
Criava uma bacorinha,
Uma ovelha, uma cabrinha
E um bode pai de chiqueiro.

No terreno do patrão
Cultivava mandioca,
Porém só tinha direito
À goma de tapioca,
Enfrentava sempre o sol
E pegava peixe de anzol
Usava isca de minhoca.

Certo dia Felismina
Foi tirar leite na vaca
Que estava amarrada
Num pequeno pé de jaca,
A vaca, muito marota,
Cabeceou a garota
Que caiu sobre uma estaca.

04

A menina, no acidente
Sofreu lesão na cabeça
E gritou: Eu vou morrer
Logo antes que anoiteça.
Sua mãe apareceu
E disse: Queira meu Deus
Que isso não aconteça.

Marieta cortou logo
Uma folha de babosa
Uma planta medicinal
De fama prodigiosa,
Fez uma espécie de pirão
E aplicou na lesão
Da cabeça da mimosa.

No mesmo instante a garota
Tranquila e calma fica,
Por acreditar na vida
O pescoço logo estica
E a sua mãe carinhosa
Dá de beber à mimosa
Uma dose de arnica

05

Felismina em pouco tempo
Já se encontrava curada,
Mas quando avistava a vaca
Ficava apavorada,
Desejava se ausentar
E dizia: Eu vou deixar
A minha família amada.

Quando foi um belo dia
Na hora da refeição
Conversou com os seus pais
E falou da decisão
De ir embora pra cidade
Buscar a dignidade
E uma boa profissão.

Sua mãe pôs-se a chorar,
Começou a confusão,
Seu pai disse: Minha filha,
Por favor, preste atenção,
Se você se ausentar
Sei que não vou suportar
A dor da separação.

06

Felismina então falou:
Minha gente, tenha calma!
Eu vou, mas quando voltar
Vocês dois vão bater palma.
Eu preciso conquistar
Equilíbrio e bem-estar
Pra meu corpo e minha alma.

No outro dia a garota
Preparou sua bagagem,
Sua mãe pediu emprestado
O dinheiro da passagem
A fim de que a sua filha
Traçando uma nova trilha
Pudesse fazer viagem.

Felismina viajou
Em direção à cidade
Com sonhos no pensamento
E no coração saudade.
Pra fugir da vida dura
Lançou-se numa aventura
Com muita dignidade.

07

Às duas horas da tarde
Desembarcou na cidade,
Descobriu de imediato
Uma outra realidade,
A partir daí então
Foi péssima a situação,
Enfrentou dificuldade.

A garota Felismina
Era quase analfabeta,
Portanto não conseguia
Alcançar a sua meta,
Para um emprego decente
Aquela adolescente
Não encontrava porta aberta.

Por isso foi obrigada
A viver em plena rua,
Pedia esmola na feira,
Ganhava batata crua,
Sem ter onde cozinhar
Ficava a se lamentar
Da terrível sorte sua.

08

Era bastante evidente
A vulnerabilidade
Daquela jovem indefesa
No meio da sociedade,
Não encontrava saída,
Estava em risco de vida,
Exposta à fatalidade.

Quando pedia comida
E alguém ousava negar,
Aquela jovem sentia
A tentação de roubar,
Mas com a educação que teve
Ela sempre se conteve
E esse mal soube evitar.

Dormia pelas calçadas
Coberta com papelão
E chorava amargamente
Aquela situação,
Sentia dores nas costas
E recebia propostas
Para a prostituição.

09

Alguns dias, muitas vezes
Já quase ao anoitecer
Alguém que vendia droga
Vinha lhe oferecer.
Era grande o precipício,
Mas, Felismina, ao vício
Jamais ousou se render.

Certo dia Felismina

Faminta e bem maltrapilha
Resolveu bater na porta
Da casa de uma família.
Uma mulher bem contente
Perguntou-lhe, sorridente:
Que deseja, minha filha?”

A garota admirou-se
Com aquele tratamento
E disse para a madame:
É grande o meu sofrimento,
Sem abrigo e aconchego,
Desejo encontrar emprego
Pra garantir meu sustento.

10

Sobre a vida da garota
A madame interrogou,
Felismina respondeu:
Eu sou do interior,
Vim para esta cidade
Buscar a dignidade
Que o sistema me roubou.

A madame então falou:
Pode sentar no batente,
Eu vou até a cozinha
Preparar um prato quente.
Ausentou-se e em seguida
Trouxe um prato de comida
Para aquela adolescente.

Felismina almoçou bem,
Pois, sua fome era imensa,
Disse: Deus mantenha sempre
Comida em sua dispensa.
Depois que se alimentou
Pra madame assim falou:
Deus lhe dê a recompensa.

11

Depois de agradecer
Aquela atitude bela
Resolveu então seguir
Numa rua paralela.
De caminhar não cansou
E sem perceber chegou
Numa pequena favela.

Pediu água numa casa
Coberta de papelão
Com as paredes caindo
E muita lama pelo chão,
A casa não tinha nada
E ela ficou assustada
Com aquela situação.

Uma mulher mal vestida
Tirou água de um pote
Pra Felismina beber,
No copo veio um caçote
Frio que nem picolé
E ao cair no seu pé
Deu um pulo em seu cangote.

12

Assustada com o caçote
Começou logo a tremer,
Mesmo assim aquela água
Ela conseguiu beber,
Em seguida se acalmou
E com a mulher conversou
Já quase ao anoitecer.

Pelos becos da favela
Ela não quis prosseguir.
Pela dona do barraco
Foi convidada a dormir.
A ceia foi tapioca.
Ferroadas de muriçoca
Passou a noite a sentir.

Felismina dormiu bem
Mesmo em cima de uma esteira.
Pelo chão alguns insetos
Passeavam a noite inteira.
Quando o dia amanheceu
A garota agradeceu
E perguntou onde era a feira.

13

Ela estava precisando
Pedir algum alimento,
Pois, a fome, com certeza
Chegou naquele momento
E a feira era o lugar
Pra melhor realizar
Aquele procedimento.

Maroca, a dona da casa,
Começou a perguntar
Sobre a vida da menina
Pra poder lhe ajudar.
Com um semblante inocente
Respondeu a adolescente:
Eu vivo a perambular.

Eu venho do interior,
Tenho uma vida sofrida,
Vim parar nesta cidade
Pra tentar mudar de vida,
Mas, emprego não me dão,
É triste a situação,
Parece que estou perdida.

14

Abandonei meu torrão,
Um lugar muito querido,
Deixe papai e mamãe
Um casal muito sofrido
Que passa muito tormento
Pra garantir o sustento
Do meu irmão desnutrido.

O que ganhei lá no sítio
Foi cabeçada de vaca.
Lá não se consegue emprego,
Não se ganha uma pataca.
Sem escola e sem dinheiro,
Sinto saudade do cheiro
Do meu pé de alfavaca.

Aquele depoimento
Maroca quis escutar,
Porém, num dado momento
Chegou a se emocionar
Com o jeito que Felismina
Se lamentava da sina
E começava a chorar.

15

Trouxeram um copo com água
A fim de lhe acalmar,
Mas dessa vez o caçote
Não veio pra pinotar
No cangote da menina
E, mais calma, Felismina
Continuou a falar:

Nesta cidade eu comi
O pão que o diabo amassou,
Até mesmo um traficante
Maconha me ofertou,
Mas droga é coisa do cão,
Logo eu soube dizer não
E ele então se mandou.

Recebi então proposta
Para a prostituição,
Mas no meu entendimento
Isso é uma humilhação.
Portanto estou consciente,
Só de uma forma decente
Quero ganhar o meu pão.

16

Maroca, a dona da casa,
Precisava trabalhar,
Por não conseguir emprego
Ousava negociar
Com tapioca na feira
Durante a semana inteira
Para o dinheiro ganhar.

Maroca então percebeu
No olhar de Felismina
E no jeito de falar
Que era uma boa menina
E, pensou: Vou dar-lhe abrigo,
Para trabalhar comigo
Essa garota combina.

Depois de ouvir a história
Daquela adolescente
Percebeu que a garota
Era muito inteligente
E para ela foi dizendo:
Você vai vencer vendendo
Tapioca e café quente”.

17

Sou pobre igual a você,
Minha casa é um barraco
Nesta favela terrível
Toda cheia de buraco.
Alimentação é pouca
E os meus filhos usam roupa
Feita de pano de saco.

Você mesma está vendo
A minha situação,
Não tenho cama pra dormir,
A gente dorme no chão,
Mas uma coisa eu garanto,
Apesar de sofrer tanto
Eu tenho um bom coração.

Você está convidada
Pra nesta casa morar,
Tristezas e alegrias
Comigo irás partilhar,
Você vai evoluir,
Com certeza vai sentir
O prazer de trabalhar.

18

Felismina admirou-se
Com todo aquele incentivo,
Pois desejava atingir
Todo o seu objetivo
Por meio da honestidade,
Evitando, na verdade
Comportamento nocivo.

A garota então ficou
No barraco de Maroca,
Chão de barro e muito úmido
Todo cheio de minhoca.
Cada dia ao amanhecer
As duas iam vender
Café quente e tapioca.

A garota Felismina
Trabalhava o dia inteiro
De maneira muito honesta
Conseguia algum dinheiro,
Soube dar a volta por cima
E a sua autoestima
Elevou-se bem ligeiro.

19

Tinha permanentemente
Pensamento positivo,
Na feira, sabia agir
De um modo bem prestativo.
Estudou e evoluiu,
Numa escola concluiu
O seu curso supletivo.

Sentia felicidade
Quando ia trabalhar,
A sua grande alegria
Era poder estudar.
Sem ter preguiça nem tédio
Concluiu o Ensino médio
E fez o vestibular.

Passou em primeiro lugar
Pra o curso de medicina,
Sua força de vontade
Deu novo rumo à sua sina,
Abasteceu-se na fonte…
Abriu-se um novo horizonte
Na vida de Felismina.

20

No mês em que começou
Medicina estudar,
Com tapioca na feira
Deixou de negociar.
Seu sucesso foi real,
Num interessante hospital
Foi chamada a trabalhar.

Trabalhava e estudava
Só na área da saúde,
Provou que a competência
Era a sua grande virtude.
Autêntica e abnegada,
Uma verdade comprovada
Por meio de cada atitude.

Ao término de sete anos
Demonstrando competência,
Chegou ao fim do seu curso,
Adquiriu experiência.
De uma forma genial
Projetou-se no hospital
No qual fez a residência.

21

Para a sua formatura
Foi eleita oradora,
Fez um discurso brilhante
De mulher batalhadora
Que passou por sofrimento,
Porém, naquele momento
Tinha uma vida promissora.

Pelos seus méritos tornou-se
Diretora do Hospital
Onde fez muitos projetos
De cunho assistencial,
Fez muita filantropia
E cada vez mais crescia
No campo profissional.

A doutora Felismina
Com a vida econômica estável
Até hoje vivencia
Situação confortável,
Sempre teve a consciência
De que a luta e a persistência
Tornam qualquer sonho viável.

22

Voltou ao interior
Onde viveu com os parentes
Que trabalhavam na roça
Em condições de indigentes,
Uma fazenda comprou
E toda a terra irrigou
Para o plantio de sementes.

Organizou um canteiro
De plantas medicinais
Pra reduzir, na saúde,
Os problemas cruciais.
Fez uso da alopatia
E da fitoterapia,
A saúde melhorou mais.

A criação de animais
A doutora incrementou,
Pra trabalhar na fazenda
Muita gente contratou.
Percebo que aquela médica
Tem competência e tem ética
Por isso que prosperou.

23

Durante toda a semana
No Hospital trabalhava,
No domingo de manhã
Pra fazenda viajava.
A médica veterinária
Vestia a indumentária
E dos animais cuidava.

No seu relacionamento
Tinha uma postura bela,
Sua vida de sofrimento
Jamais lhe deixou sequela,
Caridosa e muito humana,
Duas vezes por semana
Voltava àquela favela.

A referida favela
É àquela que a acolheu
Na qual a Dona Maroca
Com carinho a recebeu
E foi sua companheira
Com quem tapioca na feira
A Felismina vendeu.

24

A Doutora Felismina
Nessa pobre região
Desenvolveu um projeto
Para humanização
De toda a periferia
Em prol da cidadania
E fez a transformação.

Ajudou aos moradores
A criarem cooperativa
De forma que os cooperados
Tem hoje uma vida ativa.
Seu sonho concretizou-se,
Pois, a favela tornou-se
Uma área produtiva.

Aqui termina a história
Da Doutora Felismina
Que foi criança sofrida
Mas tornou-se uma heroína
Com a mente evoluída,
O seu exemplo de vida
Belas lições nos ensina.

 

João Batista da Silva

batistasilva33@yahoo.com.br

Abra aqui 👇 o cordel compartilhado:

Felismina, A Heroína – João Batista da Silva

 

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João Batista da Silva, pedagogo e professor aposentado, é natural de Mamanguape-PB e radicado em João Pessoa. Licenciado pela Universidade Federal da Paraíba, habilitou-se em Administração Escolar, Supervisão Escolar e Didática. Tem curso de Radialista em Rádio e Televisão, com registro profissional no Ministério do Trabalho. Seu Currículo, como técnico em educação, abrange a Escola Municipal David Trindade e Escola Estadual Francisco Campos, onde atuou como diretor adjunto. Ocupou o cargo de Supervisor de Ensino na Escola Hermann Gmeiner da Aldeia Infantil SOS Brasil PB. Em nível de docência, atuou na Escola Municipal Virginius da Gama e Melo, onde participou dos embates em defesa de democratização e da transparência administrativa. Também lecionou na Escola Municipal Ana Cristina Rolim Machado e foi diretor de Planejamento da Cooperativa Educacional de Mangabeira. Ainda em Mangabeira, participou da Associação comunitária de moradores e do grupo História Viva. E como católico de concepção ecumênica, participou ativamente da formação da primeira comunidade católica e do primeiro grupo de jovens ligados à Igreja.

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