É a minha arte predileta. Ou uma das minhas artes prediletas. Escrevo e a vida acontece. Aterrisso cada vez que escrevo e leio. Me vejo nas palavras. Tudo é escrito. Sou parte dessa escrita que tudo contém. Isto me contenta e acolhe. Toda a minha história está aqui. Sou este escrito e todos os escritos por onde ando quando ando por aí. Não me obrigo a publicar tudo que escrevo. Me basta estar aqui onde estou, nesta folha, nesta hora, nesta manhã de novembro.
O país se levantou e eu junto com este país. Este fato traz uma força nova. A história se faz presente. Não queremos ser mandados por quem não respeita nada, nem gente, nem instituições, nem sentimentos, nem emoções, nem educação, cultura, trabalho, vida. Todos temos um lugar sob o sol. O sol está lindo nesta manhã. Brilhante. Que essa luz guie meus caminhos como o vem fazendo. Não sou perfeito nem procuro a perfeição. Me basta ser quem sou. Isto é o bastante.
Fiz a minha vida trabalhando. Escrevendo. Pintando. Publicando. Fui saindo da morte que tinha sido plantada em mim. A arte e o trabalho. A ação comunitária. Os afetos e os vínculos. A minha decisão e dedicação incansável foram me trazendo de volta. Tudo isto foi me trazendo de volta. Me devolvendo ao que sou. O meu espaço interno, que aprendo a preservar no meio a uma exterioridade em que aprendo a agir desde uma atenção e serenidade que me possibilitam um viver prazeroso.
Não é fácil. A violência deixa marcas de distinto tipo com as quais é preciso lidar de contínuo. Não me mataram. E agora que tenho consciência de ser o autor deste fato, sinto mais apreço e respeito por mim mesmo. Saí do lugar de vítima. Eu não fui vítima de nada. Aconteceram situações que soube enfrentar de maneira vitoriosa. A ditadura foi uma delas. Não sei se foi a pior, mas houve antes e depois da ditadura situações que tive que enfrentar e enfrentei superando a morte que me quiseram impor.
Vejo que a arte tem esse efeito. Liberta. Anima, alegra. Centra a pessoa nela mesma. Fui vendo pessoas que também saíam por meio da arte. Vinham a si. Criavam vínculos. A Terapia Comunitária Integrativa é um desses espaços de refazimento da pessoa. Saímos do isolamento e do fatalismo. Ganhamos força. Construímos visões de mundo que libertam. A esperança se fortalece e o aqui e agora recupera uma condição de novidade, ao invés de resignação. É isso aí. Vamos que vamos!
Escrevo nesta revista desde o ano de 2000. Ano em que decidi que voltaria a ser quem eu era antes da ditadura. O fato de aqui continuar a escrever e a continuar amanhecendo, renascendo cada dia, é resultado desta minha decisão. O Brasil foi para mim, desde o começo, uma vida nova, e continua sendo. Renovação. Ordem e progresso. Um lema sociológico. Auguste Comte, o fundador da sociologia, inspira a bandeira brasileira. Sou sociólogo por causa da costura de vínculos e o afeto. É isso aí.
(03-11-2026)

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
