Texto originalmente escrito para Revista Novamerica
A violência nas escolas tem alcançado números alarmantes nos últimos anos, segundo quaisquer levantamentos de que se tenha notícia. Indicadores de agressões, assédio, conflitos verbais, automutilação, vandalismo, tentativa de suicídio, e tantas outras formas de violência, avançam em todos os estados brasileiros. Soma-se a esse quadro o colapso socioemocional de crianças e adolescentes. Crescem exponencialmente depressão, ansiedade, síndrome do pânico, ideação suicida, apatia e outros diagnósticos.

O trabalho de construção de paz nunca foi tão urgente. Porém, também se pode afirmar que nunca se acumulou tanta referência teórica sobre como atuar. Há os projetos de ações no campo da paz interna, com meditação, yoga, música ou literatura. E há os projetos que trabalham a partir das tecnologias de convivência, disseminando a comunicação não violenta, ancorando os círculos de construção de paz, ou elaborando um método próprio de gestão de conflitos escolares.
Nosso instituto atua nesse campo desde 2014, alcançando premiações importantes, e sustentando uma prática de construção de paz muito efetiva. Tornamo-nos referência neste cenário, em um momento em que este tipo de trabalho se tornou mais do que importante, mas imprescindível. Ao longo dos anos, fomos desenvolvendo cinco formas de trabalhar: com os estudantes, com os profissionais de educação (talvez a forma mais efetiva), com a direção, com a comunidade escolar (em especial as famílias), ou com a escola como um todo. Nosso trabalho alcança taxa média de 96% de aceitação.
Há muitos desafios ao espraiamento deste tipo de trabalho. Um dos maiores é a resistência às mudanças, ao diferente. Os profissionais de educação enxergam a escola de uma maneira tradicional, e têm dificuldade de abertura a trabalhos diferentes, mais disruptivos. Vão sempre achar que uma hora dedicada à comunicação não violenta vale menos do que uma aula de matemática, ou a realização de meditação ou yoga vale menos do que uma aula de português. Porque seu olhar está frequentemente viciado na escola conteudista, no que Paulo Freire chamava de educação bancária. O resultado? Alunos em estado emocional dramático sentados em fileiras, calados, com aulas desestimulantes e desafiadoras, e professores estressados e frustrados. Por isso, é necessária uma revolução do entendimento do que é, de fato, Educação.
Temos encontrado realidades muito semelhantes em outros países, quando convidados a visitar projetos no exterior. Na Índia, por exemplo, país com o qual temos vínculo acadêmico, este é um forte debate. O fato da série britânica Adolescência ter repercutido em todo o planeta revela que os desafios da juventude são semelhantes do leste ao oeste, e por isso não se pode falar de Educação Para a Paz sem uma mudança completa na maneira como o planeta entende o ato de educar – uma mudança substantiva, total.
Muitos trabalhos de construção de paz em escolas acabam dando a impressão de se “enxugar gelo”. No entanto, ousamos afirmar que mesmo esse trabalho incompleto, que apaga apenas parte do incêndio, tem obviamente valor. Se em uma amostra de 100 estudantes com depressão ou ansiedade, conseguirmos fazer diferença na vida de três deles, ao menos algo foi feito. É como a fábula das estrelas-do-mar (The Starfish Story).

Dentre os instrumentos de promoção de paz, encontramos bastante resultado na realização de círculos de construção de paz, no formato de diálogo. Fazer círculos sobre temas que atravessam seu cotidiano – bullying, masculinidade, tolerância, aceitação, relacionamento – é algo que conquista seu engajamento, e oferece aos estudantes espaços de escuta, onde podem dar vazão à suas questões internas. A realização de círculos entre professores também pode apresentar resultados significativos – e inclusive pode diminuir sua resistência aos projetos de construção de paz.
Também sugerimos trabalhos como a formação de mediadores mirins de conflitos, entre os estudantes, tutorados por especialistas. Nesses moldes, eles mesmos aprendem a oferecer escuta e acolhimento aos outros estudantes, e promover construção conjuntas a partir dos conflitos escolares. O uso de jogos cooperativos para ancorar valores e práticas também é fortemente recomendado.
Pode-se dizer que as metodologias de construção de paz no ambiente escolar amadureceram ao longo dos anos, a partir da própria evolução acadêmica do conceito de paz, melhor definida a partir da expansão dos Estudos de Paz pelo mundo. Há certa contradição nesse cenário – nunca houve tantos desafios nas escolas, mas também nunca se soube tão bem como enfrentá-los. Essa dialética é natural, uma vez que o aumento do problema gerou o aumento da capacidade de enfrentamento. Nosso instituto entende que é preciso espraiar as formas de atuação em escolas, criar uma rede ampla e atuante, e conectar agentes de paz.
Poucas vezes a humanidade precisou tanto deste tipo de trabalho. E também, poucas vezes tivemos tantas possibilidades de ação. Portanto, tudo o que temos de deixar de mensagem, em um momento como esse é: mãos à obra!
