
Do mundo virtual à vida real, até que enfim, meu Deus! Foi isto que pensei hoje pela manhã ao ver minha vizinha e amiga de infância, Marinete, varrendo a calçada depois de tanto tempo. Ainda bem! Algumas vezes, costumava ver sua mãe e suas irmãs; porém ela, nada. Um gesto tão simples e tão significativo neste contexto atual. A impressão era de estar vendo uma convalescente de prolongada doença, alguém que despertava de um sono encantado, melhor dizendo, de um interminável pesadelo. Quase não acreditei e mais ainda me enchi de esperanças ao vê-la sorrindo e acenando para mim. Um ano já se passara nesta distância, frieza, indiferença e a sensação de que morávamos uma no polo norte; outra, no polo sul. Hoje, depois de tantos dias, voltar a varrer aquela calçada, arrumar aquela casa, fazer aquela comidinha caseira e até cantarolar aquelas modinhas sem graça eram sinais de vida e renascimento. Para mim, indícios de que nem tudo está perdido.
Penso que valeu a pena ter-lhe feito aquela visita na semana passada, mesmo sem ter sido convidada. Notei que ficou bem aborrecida, porém, como dizem que “por falta de um grito se perde uma boiada”, tomei coragem e fui mesmo à casa de Marinete; não cheguei a gritar com ela, apenas lhe disse umas poucas e boas. O que sei é que não podia mais ficar omissa e indiferente àquela situação, afinal de contas somos vizinhas há tanto tempo, amigas de infância e colegas de trabalho.
Marinete, ou marionete? Não sei, nunca quis e nem posso julgar. Só sei que me sentia inquieta e vinha meditando a respeito daquela situação há bastante tempo.
Acredito que tudo deve ter acontecido por Marinete ser tão influenciável, vulnerável mesmo, digamos assim, “uma Maria vai com as outras”. Desde muito cedo, nunca demonstrou ter opinião própria. Verdade seja dita: uma pessoa de um grande coração, muito querida por todos, amiga, solidária e companheira; no entanto, ninguém sabia o que aquela jovem realmente queria da vida. Insegura na escolha de roupas, calçados, penteados, chegando ao absurdo de se deixar conduzir por outros e outras. Constantemente, e por causa de amigos e namorados, chegava a mudar de religião, de partido político, de time de futebol. E assim foi indo: de católica à evangélica, à espírita, à católica novamente; do partido a, b, c, d, ao partido c, b, d, a; de flamenguista a botafoguense, de vascaína a fluminense, de palmeirense à corintiana, após conhecer José Paulo, por quem se apaixonou de verdade, chegando a se casar e com ele formar uma linda família.
Cuidadosa com tudo e com todos, excelente esposa, mãe, amiga e vizinha. De início, mas de forma equilibrada, gostava muito de ver televisão, hábito que se tornou vício. Detestava quando chegava alguma visita bem no horário da sua novela preferida, mas tudo começou a piorar mesmo quando José Paulo comprou o primeiro computador, a fim de incentivar os filhos, José Augusto e Maria Luísa, a terem mais gosto pelos estudos. Que estudo que nada! Desde então os meninos não saíam mais da frente do tal computador, que por sinal era enorme e com tanta parafernália que mal cabia naquela saleta. Marinete ficou encantada com tudo aquilo e não dava mais sossego aos filhos, gritava o dia inteiro chamando por Guto e Malu, querendo saber de tudo e acompanhando todas as novidades. E assim, tecnologicamente falando, eram águias; nas relações interpessoais, no entanto, não passavam de simples tartarugas. Nessa corrida tecnológica, sempre mais e mais inovações: dos enormes computadores de mesa aos mais modernos notebooks e tablets; dos primitivos joguinhos aos mais sofisticados videogames; dos celulares tipo tijolão e rapadura aos mais caros e superpotentes ipads, ipods e iphones. Smarts tvs por todos os lugares da casa e smarthphones para cada membro da família. Eita! Isso é que é vida!
Deslumbramento e ansiedade constantes, pois quando já estavam se acostumando com um novo aparelho, programa ou aplicativo, eram lançados no mercado outros bem mais modernos e sofisticados. Quando estavam achando que o msn e o skipe eram tudo de bom, chegam o orkut, o facebook, o youtube, o instagram, o whatsApp, o Twitter, e mais isso e mais aquilo…
E agora? Como acompanhar tantas novidades e ficar “antenados” o tempo todo? Pobre José Paulo! Teve que trabalhar dobrado e fazer muitas e muitas horas extras naquele escritório de advocacia, pois o salário da mulher, bibliotecária de escola pública, mal dava para as despesas pessoais e, o pouco que ganhava, só gastava em coisas supérfluas.
Marinete encantou-se especialmente com o Facebook, chegando a ter milhares de amigos virtuais que eram seu maior orgulho. Chegava a discutir na repartição com quem não tinha Face, achando que isto era uma coisa inadmissível nos dias de hoje e que pessoas do meu tipo, por exemplo, eram anormais e só podiam viver mesmo no mundo da lua. Um dia chegou a me dizer:
– Não acredito, Pery, que em pleno século XXI você não tenha “Face”!
– Tenho face, não serve? – Brinquei.
Lamentavelmente, enquanto ia “se achando”, Marinete foi se perdendo cada vez mais. Deslumbramento, empolgação com o mundo virtual: Que beleza! Que mundo lindo e maravilhoso esse do Face! Tudo tão incrível! As pessoas lindas, felizes, sorrindo, postando fotos maravilhosas e belíssimas mensagens; às vezes, sentia até inveja da vida daquelas pessoas. Tudo tão perfeito, aquilo sim é que era vida!
Diferentemente da harmonia do universo, que partiu do caos, segundo o livro bíblico do Gênesis – “No princípio as trevas cobriam o abismo…” – e tudo foi surgindo… e Deus viu tudo… e tudo era muito bom; a estruturada família de Marinete começava a se desintegrar, esfacelar, desmontar, pois ninguém seria capaz de resistir a tal rotina: Face manhã inteirinha: foi-se o primeiro dia; Face manhã e tarde: foi-se a primeira semana; Face manhã, tarde e noite: foi-se o primeiro mês; Face manhã, tarde, noite e madrugadas: foi-se o primeiro ano. E ninguém via nada… e tudo foi desmoronando… e tudo era muito mau.
E quem disse que alguém se lembrava mais de arrumar aquela casa, que sempre fora tão limpa? Muitas das plantinhas do jardim e daqueles vasos maravilhosos morreram por falta d’água; o gato e o cachorro viviam famintos e rabugentos por falta de banho, terminaram aqui em casa e foram adotados por meu sobrinho. Daqui de casa, muitas e muitas vezes sentíamos o cheiro de feijão queimado. Daqueles lados, nenhuma música se ouvia mais. Silêncio absoluto. Absoluto isolamento dos membros daquela família que não mais se falavam, a não ser com os seus milhares de amigos virtuais. Coitada daquela família!
Pobre José Paulo, a primeira vítima, pois além de sentir o prejuízo no bolso era considerado um zero à esquerda, um homem invisível, um fantasma dentro de sua própria casa. Passou a sair todas as noites e, às vezes, nem voltava para casa, até que um dia não voltou mais.
Coitado de José Augusto (o Guto), adolescente magro, esquelético e muito mal alimentado. Saindo todas as noites, ficava na rua até tarde. Dizem que está enveredando pelo caminho tenebroso da droga. E Maria Luísa, a Malu? Junto com seu namoradinho não larga o celular, a não ser para um relacionamento mais íntimo e já dizem as más línguas que ela está grávida. Grávida sim, senhor! Uma menina de quinze anos!
Quando as pessoas ficam alheias e indiferentes a tudo e a todos, conforme diz Renato Russo em sua música “Monte Castelo”, parece mesmo que “Todos dormem…”, mas precisam ser acordadas. No caso de Marinete, teria que ser com um balde d’água bastante fria, aliás, muito gelada. E foi isto que fiz na visita da semana passada. Ainda bem que o fiz. Não podia mais ficar indiferente ao caos que se tornara a vida da pobre mulher. Face a face, “cortei o seu barato”, que já tem saído muito caro. Foi uma longa e necessária conversa. Finalmente, está se dando conta do real. Cair em si, já é começar a levantar-se!
Pery-Açu
Vitória da Conquista-BA: maio de 2015
Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com
