Ditadura às Avessas (2)

sergiomoro1
Na democracia, todo mundo tem total direito de apoiar quem quiser ou bem entender, inclusive os que pertencem à classe judicial. Podem amar ou odiar Lula, Dilma e qualquer militante do PT e da esquerda. Podem sim, acreditar no liberalismo e ser contra um Estado forte. Podem ganhar rios de dinheiro, gastar como quiserem ou apenas investir na bolsa. Podem acreditar em um país americanizado e torcer pela privatização da Petrobrás. Podem acreditar na meritocracia e não gostar das classes mais baixas. Também podem, por mais absurdo que seja, condenar o projeto Bolsa Família e achar natural o salário e todos os benefícios que o judiciário recebe. E mesmo que o discurso até aqui, dos que se opõem ao PT, tenha sido raso, onde apontar falhas dos seus opositores tenha sido muito mais preponderante do que discutir um projeto de país, ainda sim estarão dentro dos seus direitos.
Antes de prosseguir, quero deixar claro que o que se escreve aqui não é uma tentativa de santificar Lula. Também não irei analisar o Brasil antes e depois dele. Não quero adentrar nas práticas antirrepublicanas de seus antecessores e nem nas republicanas do PT no governo. Esqueceremos a vida pessoal de ambos os lados, mesmo sabendo que a de uns é exposta e investigada sem dó e a de outros se zela por privacidade e respeito.
Pulemos as divergências teoricamente aceitáveis e vamos ao que não é. Comecemos pela atitude do juiz Sérgio Moro, ontem. Parece que não resta dúvida de que sua atitude vai contra ao Estado de Direito. O espetáculo já estava pronto. Os preparativos iniciaram-se na noite anterior, quando a suposta delação de Delcídio se tornou tema unanime na grande imprensa. Inclusive, caso ela realmente tenha ocorrido, foi mais uma vez vazada e chegou de forma surpreendente para alguns meios de comunicação. Há de lembrar, que neste dia, esqueceu-se de Cunha. Sua derrota no STF não teve grande repercussão.
Após preparem os telespectadores para o grande ato, o tapete vermelho já estava estendido para mais uma ação vil de Sérgio Moro. Lula foi coagido por diversos polícias a prestar depoimento. Há de ressaltar que o ex-presidente nunca se negou a prestar depoimento, o que torna a coação desnecessária e ilegal. Os questionamentos foram os mesmo de sempre, o que deixou visível que mais uma vez o grande objetivo era realizar o sonho da direita: ver Lula saindo de camburão e diminuir suas chances para o próximo pleito.
Prosseguindo com os vexames, a justificativa do juiz foi infantil e desonrosa para o país e principalmente para a classe. A contradição já era vista desde a primeira frase:
“A pedido do Ministério Público Federal, este juiz autorizou a realização de buscas e apreensões e condução coercitiva do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva para prestar depoimento. Como consignado na decisão, essas medidas investigatórias visam apenas o esclarecimento da verdade e não significam antecipação de culpa do ex-Presidente. Cuidados foram tomados para preservar, durante a diligência, a imagem do ex-Presidente. Lamenta-se que as diligências tenham levado a pontuais confrontos em manifestação políticas inflamadas, com agressões a inocentes, exatamente o que se pretendia evitar. Repudia este julgador, sem prejuízo da liberdade de expressão e de manifestação política, atos de violência de qualquer natureza, origem e direcionamento, bem como a incitação à prática de violência, ofensas ou ameaças a quem quer que seja, a investigados, a partidos políticos, a instituições constituídas ou a qualquer pessoa. A democracia em uma sociedade livre reclama tolerância em relação a opiniões divergentes, respeito à lei e às instituições constituídas e compreensão em relação ao outro.
Curitiba, 05 de março de 2016.”
Segundo sua nobre intenção, a coação tinha apenas a intenção de proteger, preservar. E as consequências violentas, couberam apenas à lamentação. E tudo foi aceito com naturalidade, como se fossemos idiotas.
O país que já vem sofrendo com aumento do desemprego e com a economia em queda, agora é levado pela irresponsabilidade de quem promove injustiças que podem culminar em um derramamento de sangue. Se antes mal pensávamos que tudo não passava de uma disputa no campo político, a justiça e a grande mídia, de forma leviana, promovem o desastre, fingindo sempre agir pelo melhor do Brasil.
Como a reforma da grande mídia não ocorreu e as autoridades competentes ainda não frearam os excessos da lava-jato, o Brasil fica a mercê dessa classe fascista. E se advogados e pessoas da justiça, depois de anos em uma faculdade, estudando leis e a constituição, ainda sim apoiam o que foi feito contra Lula, afirmo dizer que estes não merecem exercer a função escolhida: rasguem seus diplomas.
Apoiar Moro e suas práticas é torcer pela falência do Brasil e apoiar uma violência generalizada.
Amadureçam senhores, defender a democracia e o estado de direito não é defender partidos ou políticos. O que está em jogo é muito mais valioso do que se pensa. O Brasil precisa superar o espectro golpista de 54 e 64, que teima em não nos libertar desta democracia líquida.
 
(*)Foto: pragmatismopolitico.com.br

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