
Expoente do modernismo e militante comunista, pintor fez da pintura um instrumento de interpretação da realidade social do Brasil.
Do Opera Mundi | Por Estevam Silva·São Paulo·
Há 50 anos, em 26 de outubro de 1976, falecia o pintor, caricaturista e escritor Di Cavalcanti. Ilustre representante do modernismo, Di Cavalcanti foi um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922 e teve ativa participação nos movimentos de renovação artística do Brasil. Sua obra, abundante e original, caracteriza-se pelo predomínio das temáticas nacionais, abrangendo sobretudo o cotidiano e os costumes dos trabalhadores e os festejos e as celebrações populares, com grande enfoque sobre a figura da mulher negra.
Di Cavalcanti nasceu em 6 de setembro de 1897, no Rio de Janeiro, filho de Rosalia de Sena e de Frederico Cavalcanti de Albuquerque de Melo. Cursou o ensino básico no Colégio Pio Americano e teve aulas de piano com Judith Levy. Iniciou-se na arte como autodidata, dedicando-se desde a juventude a fazer charges sociais e caricaturas políticas para a revista carioca Fon-Fon.
Em 1916, mudou-se para São Paulo, a fim de estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Na capital paulista, frequentou o ateliê do pintor alemão George Elpons e fez amizade com os intelectuais Mário e Oswald de Andrade. Ao lado destes, ajudou a idealizar e organizar a Semana de Arte Moderna, sediada no Teatro Municipal de São Paulo em fevereiro de 1922. Di Cavalcanti foi responsável por confeccionar o catálogo e os cartazes promocionais do evento, considerado um marco da difusão das novas tendências artísticas no Brasil.
Em 1923, o pintor partiu para uma estadia de três anos na Europa. Em Paris, estudou na Academia Ranson e travou contato com Pablo Picasso, Georges Braque, Fernand Léger e Henri Matisse, artistas que teriam profunda influência em sua produção.
A exemplo de outros modernistas, Di Cavalcanti buscou adaptar os elementos formais das vanguardas europeias à realidade brasileira, ajudando a elaborar uma expressão nacionalista do estilo moderno. Esse fenômeno é particularmente notável na tela “Samba”, de 1925, onde os influxos estéticos da Escola de Paris se mesclam à poética tropical e às cores brasileiras.
A temática dessa tela também seria recorrente em toda sua obra — a figura da mulher negra em cenários pontuados por tipos populares e elementos da cultura nacional. A obra é igualmente representativa da tendência de Di Cavalcanti de incluir em suas composições exemplos de manifestações culturais até então marginalizadas ou estigmatizadas por sua origem popular.
Em 1926, após participar de exposições em cidades como Londres, Berlim e Amsterdã, Di Cavalcanti retornou ao Brasil. Dois anos depois, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1929, criou o díptico Samba e Carnaval, o primeiro mural modernista confeccionado no Brasil, concebido para decorar o Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Os painéis, com representações do povo brasileiro, negro e miscigenado, habitando os morros e subúrbios, causaram desconforto e protestos do público elitizado que costumava frequentar o local.
Influenciado pelo expressionismo alemão, Di Cavalcanti começou a produzir obras com uso mais acentuado da cor, uma paleta mais iluminada e uma tendência à simplificação das formas, características visíveis, por exemplo, na tela “Cinco Moças de Guaratinguetá”. Em 1930, publicou o álbum A Realidade Brasileira, uma série de doze desenhos satirizando o militarismo, o autoritarismo, a Igreja Católica e as oligarquias brasileiras.
Em 1932, ao lado de Flávio de Carvalho, Antonio Gomide e Carlos Prado, Di Cavalcanti participou da fundação do Clube dos Artistas Modernos (CAM), associação de artistas progressistas que buscava incentivar a arte de vanguarda e ajudar a difundir o ideário socialista. Foi preso no mesmo ano, acusado de ser opositor do movimento armado articulado pelas oligarquias de São Paulo para derrubar o governo de Getúlio Vargas. Após sua libertação, casou-se com a pintora Noêmia Mourão.
Em 1936, Di Cavalcanti foi novamente preso, dessa vez por suspeita de colaboração com os militares envolvidos no malsucedido Levante Comunista de 1935. Libertado graças à intervenção de amigos influentes, o pintor buscou novamente exílio em Paris, onde permaneceu até 1940.
Após o início da Segunda Guerra Mundial, o artista retornou ao Brasil, fixando residência em São Paulo. Na década de 1940, Di Cavalcanti destacou-se como um dos críticos mais aguerridos da arte abstrata, que passou a combater abertamente em uma série de conferências e artigos. Para o pintor, o abstracionismo era uma expressão artística estéril, vazia, “niilista” e de natureza despolitizante.
O mestre modernista expôs no Uruguai, na Argentina e no México e ilustrou livros de Vinícius de Morais, Álvares de Azevedo e Jorge Amado. Ao lado de Anita Malfatti e Lasar Segall, integrou o júri de premiação do Clube dos 19. Em 1947, separou-se de Noêmia Mourão. Posteriormente, estabeleceu um relacionamento com a inglesa Beryl Tucker Gilman.
Em 1951, Di Cavalcanti participou da I Bienal Internacional de Arte da capital paulista e fez uma generosa doação de 550 obras para o Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ao lado de Alfredo Volpi, recebeu o prêmio de melhor pintor nacional na II Bienal de São Paulo. Em 1955, publicou a obra “Viagem de minha vida” e, no ano seguinte, participou da Bienal de Veneza.
Convidado por Oscar Niemeyer, Di Cavalcanti tomou parte da decoração dos edifícios públicos de Brasília, criando as tapeçarias para o Palácio da Alvorada, o painel Candangos para a Câmara dos Deputados, e a via-sacra para a Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida.
Suas obras em Brasília são imbuídas de discretos comentários sociais. Para a biblioteca do Palácio da Alvorada, por exemplo, Di Cavalcanti confeccionou uma tapeçaria denominada “Múmias”, numa referência irônica à classe política. Já no painel “Candangos”, tratou de representar com dignidade, altivez e sobriedade ordenada a figura dos trabalhadores que construíram a capital federal.
Influenciado pelos modernistas mexicanos, Di Cavalcanti executou uma série de murais em São Paulo, incluindo a fachada do Hotel Jaraguá, a sede do jornal O Estado de S. Paulo e a entrada do Edifício Triângulo, de Oscar Niemeyer. Em 1960, o pintor foi homenageado com uma sala especial durante a Bienal Interamericana do México.
Apoiador de João Goulart, Di Cavalcanti foi convidado para assumir a função de adido cultural, mas foi removido do cargo após o golpe militar de 1964. Exilou-se então na França, ao lado de sua terceira companheira e musa inspiradora, a modelo Marina Montini.
Em Paris, o brasileiro publicou o livro Reminiscências Líricas de um Perfeito Carioca. Foi agraciado com o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e laureado com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique pelo governo de Portugal. Faleceu no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1976, aos 79 anos.
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