Communisme à la chinoise

China rural | Imagem: Sandra Mosconi

A ascensão chinesa ao topo do capitalismo global exibe o contraste entre o fausto das metrópoles modernas e a persistente marginalização das populações rurais e migrantes.

Por Samuel Kilsztajn* | A Terra é Redonda, 26 de junho de 2026

A milenar civilização chinesa, no presente, destaca-se pela sua ousada modernidade. Edificou uma série de engenhosas maravilhas arquitetônicas, marcas que registram o seu império contemporâneo – é surpreendente, de se admirar, diria até inacreditável o empreendimento chinês em um espaço tão curto de tempo.

A riqueza e o cuidado de seus projetos urbanísticos são dignos de nota. Nas regiões metropolitanas, as motos a combustão foram banidas e o que se vê nas ruas são milhões de motonetas elétricas, silenciosas e eficientes. A criatividade da indústria chinesa também é exemplar. Mínimos detalhes para o conforto doméstico são considerados, a ponto de produzir uma tela milimétrica que permite a saída enxuta do mel de suas embalagens originais.

Os austeros, funcionais e uniformes jalecos da Revolução Cultural deram lugar a arrojados desfiles de moda em concorridas passarelas – com a assinatura de famosos estilistas nativos –, assim como em brilhantes calçadas floridas e colossais shopping centers, que abrigam lojas com refinadas marcas e grifes, imensos painéis eletrônicos que reúnem modelos chineses e ocidentais, magníficos bares e restaurantes, que servem refinados drinques e pratos da cozinha internacional.

A cosmopolita Shang Hai, a maior cidade da China, ostenta um renque de arranha-céus monumentais e uma teia de gigantescas vias expressas elevadas, além de largas avenidas. Moderníssimos prédios ladeiam o elegante calçadão da Nan Jing East, a tradicional rua mais movimentada da cidade, entre a Praça do Povo e o Rio Huang Pu. As avenidas chegam a ter 16 pistas para automóveis e, nas rotatórias, sobrepõem-se quatro andares de vias elevadas entrelaçadas.

Imensos parques urbanos, de estonteante beleza, são cuidados com rigor e esmero, como se fossem ikebanas, por um exército de jardineiros que arranca as ervas daninhas e mantém o visual impecável, enquanto vários grupos de usuários se dedicam à prática de Tai Chi Chuan, cercados por uma profusão de encantadoras flores, boa parte das quais não existe no ocidente, lagos, peixinhos, patos etc.

Shang Hai tem o maior número de restaurantes per capita do mundo e o delivery é uma instituição. Estava, por acaso, no saguão de um hotel, quando passou por mim um robô gordinho e baixinho, de um metro de altura, parou, pegou o elevador e subiu. Perguntei o que fazia e disseram que estava levando a refeição solicitada por um hóspede. Nos parques, vi robustos robôs varrendo as ruas.

 

A hegemonia internacional

Em abril de 2026, quando o site A Terra é Redonda postou o meu artigo “Xing-Ling, os chineses estão chegando!”, Donald Trump, Vladimir Putin e eu estávamos na China e me dei conta de que os chineses não estão chegando, os chineses já chegaram. O grande capital internacional não só já estava lá, como sabia que os chineses já tinham chegado, que a hegemonia internacional da China já é inconteste – o grande capital internacional, aliás, participou ativamente da organização desta festa, devidamente associado à República Popular da China, estabelecendo parcerias com empresas locais, investindo em plantas industriais, centros de pesquisa e desenvolvimento.

A hegemonia do capitalismo internacional, que no século XX havia atravessado o Atlântico, no século XXI atravessou o Pacífico. Trump & Cia. foram traídos pela Foxconn, Volkswagen, Apple, Samsung, Toyota, GM, Siemens, Nestlé, P&G, Intel, Microsoft, IBM, Coca-Cola, HP, Pepsico, Honda, Unilever, LG, Basf, Dell, Adidas, Pfizer, Johnson etc.

A mercadoria, com paciência oriental, migrou para a milenar China, que já era civilizada quando o Ocidente ainda andava de calças curtas e, depois da humilhação que sofreu nas infames Guerras do Ópio, enfim retomou a sua rota. Ajustada pelo custo de vida interno, a China já é a maior economia do mundo, 40% maior do que a economia dos Estados Unidos. Eça de Queirós, em Os Maias, escreveu que “os anos vão passando… e com os anos, a não ser a China, tudo na terra passa…”

 

Communisme à la chinoise

Os jovens ocidentais de esquerda acompanharam eufóricos a Revolução Cultural. Jean-Luc Godard, em 1967, filmou La Chinoise, em que estudantes parisienses reverenciavam o comunismo chinês. O filme foi premonitório, porque, em Maio de 1968, os jovens paralisaram a França, em um movimento de contracultura, sob os lemas non à la société de consommation e non à la société du spectacle, com uma greve geral dos estudantes, que desencadeou a ocupação de fábricas pelos trabalhadores e, finalmente, a dissolução da Assembleia Nacional e convocação de novas eleições parlamentares.

O pragmático Partido Comunista Chinês – PCCh, por outro lado, esperou Mao Ze Dong morrer para se desfazer completamente da Revolução Cultural, assim como de seus fiéis seguidores. A Gangue dos Quatro – Jiang Qing, esposa de Mao, Zhang Chun Qiao, membro do Politburo (cerne do Comitê Central), Yao Wen Yuan, que atuava na propaganda ideológica, e Wang Hong Wen, vice-presidente do partido – foi considerada inimiga do povo, afastada do partido e encarcerada. A política adotada pelo Partido Comunista Chinês, a partir de 1978, seguiu na contramão da Revolução Cultural, valorizando os mecanismos de mercado, iniciativa privada, empreendedorismo, competitividade, abertura da China ao investimento capitalista internacional e, mais tarde, o consumismo.

Apesar de ter-se transformado na economia nº. 1 do planeta e ostentar o título de “comunista”, a China enfrenta hoje uma profunda estratificação social, agravada pelo sistema de registro domiciliar, Hu Kou. Nas grandes cidades, em que predomina a presença de uma poderosa elite e de uma numerosa e arrivista classe média, o sistema Hu Kou é responsável por produzir cidadãos de segunda classe, que ultrapassam 350 milhões de habitantes – pobres migrantes de outras cidades e principalmente da zona rural, sujeitos a empregos mal pagos, com restritos direitos trabalhistas e sociais e sem direito político algum.

Ao lado dos 350 milhões de migrantes nas cidades, os 450 milhões residentes na zona rural também não foram convidados para a festa, somando 800 milhões entre o total de 1,4 bilhão de habitantes em 2026. O trabalho no campo é familiar e informal e não há regulamentação de direitos trabalhistas. A população residente na zona rural também não tem acesso aos amplos direitos sociais para habitação, saúde, educação etc. reservados à população com Hu Kou das cidades onde vivem.

Em 22 de maio de 2026, o governo chinês, através do Conselho de Estado, anunciou novas diretrizes para o relaxamento do sistema Hu Kou, com o objetivo de garantir que os serviços públicos sejam ampliados de forma a beneficiar os migrantes. São diretrizes gerais, não são medidas políticas concretas. Quando e quais setores de migrantes serão efetivamente beneficiados? A China conseguiu sair da pobreza e se transformou na economia nº. 1 do planeta em recordes 40 anos. Mas para convidar o povão para participar da festa seria necessária a anuência do clube de 70 milhões de chineses da elite e dos 490 milhões da classe média, fortemente empenhada em ascender na hierarquia social.

Em meio a esse organizadíssimo caos, enquanto a elite está ocupada em ser chique e a classe média em atingir o consumo supérfluo, os camponeses estão ocupados em arar a terra e os migrantes estão ocupados em garantir o seu emprego e pagar o aluguel no final do mês. Embora seja ilegal, há trabalhadores urbanos em regime 996 e até 997, doze horas de trabalho, das 9h às 21h, 7 dias por semana. Há manifestações contra as jornadas 996 e 997 e algumas empresas já foram punidas.

O governo central, extremamente autoritário e eficiente em coibir qualquer manifestação que considere minimamente contrária aos interesses do país, contudo, não tem tido sucesso em eliminar essas insanas jornadas – ilegais, mas que fazem a “grandeza da nação”.

*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos. [https://amzn.to/4cKKvX1]

 

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