“As universidades, ainda que as públicas menos, radicalizaram a relação com o mercado”

Em busca de um olhar por dentro das universidades cariocas sobre o ensino do jornalismo, o Fazendo Media conversou com um estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ricardo Cabral faz parte do conselho editorial da revista Consciência.Net e pesquisa na área de comunicação, política e cultura. Na conversa Ricardo fala sobre o espírito da juventude universitária em relação à política, a produção de conhecimento gerado no âmbito acadêmico e o mercado de trabalho na área da comunicação. Para ele,o papel da universidade é fazer entender que comunicar, antes de tudo, é intervir na sociedade”.

Num país em que temos campanhas e mais campanhas enaltecendo o direito ao voto e à democracia, como explicar o desinteresse dos jovens pela política?

Em primeiro lugar, é importante dizer que, apesar de existir um grande desinteresse da juventude pela política, há sim muitos jovens que se preocupam e discutem essas questões, o que fica muito claro principalmente nas universidades. O próprio lugar-comum de que os jovens não se interessam por política já é uma estratégia de esvaziar a participação juvenil, estigmatizando-a. Em segundo lugar, os jovens, e talvez seja melhor dizer a população em geral, não se interessam por política porque não sabem muito bem o que é política. Por quê? Os meios de comunicação são uma das principais formas de mediação existentes na sociedade, certo? Bem, se abrimos o caderno de política do Globo, da Folha de São Paulo ou de qualquer outro jornal, o que vemos ali não é exatamente política, que são as formas de mediações entre os homens na construção da sociedade. É a política discutida num âmbito micro. É politicagem. São as indicações, os esquemas, os mensalões… É natural que isso gere um desinteresse, um descrédito das instituições. Não se discute nada que saia do pressuposto do status quo, da sociedade capitalista. A editoria de política dos jornais não discute política. E acabamos dizendo que política é isso, mas não é.

No passado atribuía-se a alienação das pessoas à falta de estudo. Partindo desse princípio, a que você atribui a falta de teor crítico inerente à maioria das pessoas hoje, principalmente na área de Comunicação Social?

A falta de criticidade e a alienação de professores e estudantes nessa área é bastante complicada, especialmente porque a Comunicação é uma das áreas mais importantes como forma de intervenção na realidade, é uma práxis. O problema é que, desde mais ou menos a década de 70, a Academia – não só na Comunicação, mas em todas as áreas – foi invadida por uma corrente teórica que preza pela relativização absoluta, pelo fim da verdade e por uma suposta imparcialidade, na ausência da verdade: é a pós-modernidade. Os cursos de Comunicação estão cheios de professores pós-modernos. E então esquece-se, no ensino, da função social do jornalismo e do olhar crítico da realidade, que é um olhar que pensa a sociedade da forma como é, mas tem a certeza de que outras formas de organização, e também a mudança, são possíveis.

O segundo problema é a relação com o mercado. As universidades, ainda que as públicas menos, radicalizaram a relação com o mercado fazendo uma sobreposição do ensino prático, como se prática e teoria fossem dissociáveis. Aí não tem o menor senso crítico: é tudo voltado para o mercado e, por isso, não faz sentido questioná-lo. Na UFRJ, por exemplo, o chamado ciclo básico, com maior foco na teoria, fundamenta um olhar crítico mínimo nos alunos, mas quando chega o ciclo profissional, salvo algumas exceções louváveis, o lema das aulas parece ser “esqueçam tudo o que aprenderam que agora vamos preparar vocês para o mercado”. Não importa mais, por exemplo, que o lead seja uma estrutura que descontextualiza a notícia ou que a imparcialidade jornalística seja um mito. Uma vez, durante a aula, uma professora disse que tudo que a gente tinha aprendido de filosofia, antropologia e sociologia só servia para dar base para quem fosse fazer caderno de cultura.

Outro ponto problemático é que, com dezenas de ofertas de estágio desde o segundo período, os alunos são jogados no mercado. Não há nenhuma regulamentação dos estágios, e com a queda do diploma ficou pior. Aos poucos, os estudantes começam a dar cada vez menos valor às aulas que, de fato, não trazem nada de novo, já que a prática propriamente dita você aprende em uma semana de trabalho no primeiro estágio. A universidade esqueceu qual é seu diferencial, sua importância. Aí começa um ciclo vicioso: os alunos desinteressados não dão atenção às aulas e os professores, por sua vez, ficam cada vez mais desestimulados. É uma bola de neve que só cresce.

Você concorda que o objetivo do jornalismo como função social vem se perdendo, a partir do momento em que o jornalista passa a ver a profissão apenas como uma ocupação e, ao invés de contribuir para a transformação da sociedade, se torna massa de manobra nas grandes empresas de comunicação?

Concordo. O jornalismo há muito tempo deixou de lado sua função social básica, que é a de lutar, através dos meios de comunicação, pela valorização da cultura local, pelo estabelecimento de uma real democracia, pela consciência política da sociedade e pela aceitação das diversidades. Uma contra-argumentação típica é dizer que é isso o que o público quer. Eu digo: ora, é inevitável que o jornalismo lida sempre com o senso comum. Mas a questão é se para reforçá-lo ou para transformá-lo. Eu fico com a segunda opção.

Como você avalia programas do governo federal como o Prouni e o Fies?

O Prouni e o Fies fazem parte dessa onda de privatização do ensino. É uma iniciativa descabida, sem o menor sentido. É só a gente pensar: o governo, com esses programas, a partir de isenção fiscal, está investindo dinheiro nas universidades privadas, certo? A pergunta que fica é: por que ele não pega esse mesmo dinheiro, que é muita coisa, e coloca nas públicas? Ninguém responde essa pergunta. E ninguém responde porque não existe uma única resposta que faça sentido sem mostrar o lado perverso disso tudo.

São dois objetivos. O primeiro, óbvio, é dar dinheiro para os megaempresários brasileiros do ramo da educação, isto é, uma transferência legal de dinheiro público, do povo, para a iniciativa privada. O que o governo está fazendo, então, é uma privatização da educação superior às escondidas. Porque quanto mais ele dá para as privadas, menos ele dá para as públicas, que vão ficar cada vez mais precárias. Até que a lógica que existe hoje de supremacia do ensino superior público vai ser revertida, e o aluno do terceiro ano vai querer passar para uma universidade privada, que não tem uma real preocupação com a formação, mas com o número de matrículas.

O segundo objetivo, por sua vez, é ainda pior. É o sucateamento do ensino. Como eu disse, as universidades privadas têm um ensino voltado para o mercado. É claro que existem exceções, mas geralmente é mais voltado para o aprender-a-fazer do que o questionar-o-fazer. E isso é muito interessante para a ordem capitalista. Você forma um montão de mão-de-obra qualificada mas que não pensa na função social da sua própria profissão.

A questão é que aquilo que é voltado para o lucro, normalmente não visa o bem estar das pessoas. Exemplo: existem projetos (um deles apresentado no TED – Ideas Worth Spreading) de uma simples garrafa que limpa a água. Exatamente. Filtra e purifica a água suja, tornando-a potável! Não é brilhante? No entanto, a ideia é apenas um projeto. Por que? Porque não existe interesse de se investir nele. Existe muita demanda, vide as bilhões de pessoas que vivem em campos de refugiados, zonas de crise e lugares sem saneamento básico, mas mesmo assim não seria interessante produzir porque todo esse público-alvo não poderia… comprar! Óbvio, eles não têm dinheiro. Por isso, não se produz. E essa é a contradição essencial do sistema capitalista em que a gente vive: não importam as pessoas, mas sim quanto elas podem pagar.

Você entende que a maioria dos jovens entra na universidade pensando no glamour e no dinheiro e pouco preocupada com as responsabilidades da profissão? Acredita que há meios para reverter este quadro?
Sem dúvidas. Eu dou muitas oficinas na faculdade e, por isso, estou sempre em contato com os calouros. A maioria que chega quer ser o próximo William Bonner ou a próxima Fátima Bernardes. Mas o papel da universidade, eu acredito, é justamente mostrar o que significa todo esse jogo midiático e suas as relações de poder. É fazer entender que comunicar, antes de tudo, é intervir na sociedade, e aí você tem duas escolhas: conservá-la ou transformá-la. Uma vez ouvi um aluno recém-chegado, depois de ouvir uma palestra muito boa com o Carlos Latuff e o Mário Augusto Jakobskind, perguntar se não dava, então, para ser um jornalista super reconhecido na grande mídia e, ao mesmo tempo, manter a dignidade e a honra da profissão. Eles responderam que não, e é a pura verdade. Hoje em dia, não dá para virar um grande articulista, editor ou diretor de qualquer redação da grande mídia e manter um posicionamento de esquerda, um posicionamento verdadeiramente democrático e de defesa da pluralidade de informações e dos interesses populares. Não dá. Isso vai contra a lógica capitalista, vai contra as grandes empresas. E os grupos de comunicação são, antes de tudo, empresas. Transformaram a notícia em produto e, portanto, querem tirar o maior lucro daí. Não tem jeito.

4 comentários sobre ““As universidades, ainda que as públicas menos, radicalizaram a relação com o mercado””

  1. Ótima entrevista! Que ela ajude a despertar em mais pessoas a segunda opção que o Ricardo escolhe: a de transformar o senso comum, e não legitimá-lo como a grande mídia.

  2. É muito bom poder ler uma entrevista como essa. Parabéns! Realmente é preocupante a formação atual da maioria dos universitários de comunicação social que colaboram cada vez mais para o oligopólio midiático.

  3. O governo deve sim atentar para a distribuiçao de recursos. O tempo não para. É preciso adaptar velhas teorias a novas teconlogias e dar respostas ao novo publico.
    Quem escolhe os governantes? Nós

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