
Hoje pela manhã conversei com um grande amigo e aluno sobre a atual situação do governo. Falamos dos movimentos pró-impeachment, das incoerências da grande mídia, judiciário e também sobre o histórico golpista da OAB.
Iniciamos analisando os erros de Dilma. Foi um momento breve. Nada daquilo que ficou para trás valia a pena ser discutido. O momento é outro e todos os movimentos dela, aprovados ou não, não tiveram eficiência alguma diante dos golpistas.
Passamos a discutir as manobras pelo impeachment e a perseguição a Lula. Tentamos a todo custo entender porque a voz da razão nunca era ouvida. Há de se convir que está cada vez mais difícil escutar alguma fala sensata nas rodas do poder.
Falamos sobre as pedaladas fiscais. Constatamos que mesmo ela tendo ocorrido em governos federais anteriores e em 17 governos do estado no período atual, o que vale para a degola é qualquer ação do governo petista. Além de todo dinheiro emprestado ter sido obtido para pagar programas sociais, há de se incluir que Michel Temer também assinou pelas pedaladas. E se o rito for seguir esse passo, o vice também terá que ser processado e julgado. A prova da falta de efetividade e ética nisso tudo é que ele mesmo articula junta a oposição toda a trama. Um conluio de picaretas.
Tudo fica muito claro que o alarde e o possível uso desse processo para impeachment se qualificaria como uma jogada explicitamente política. Nada surpreendente ou novo.
Falei também que contra ela não havia nenhum processo ligado à corrupção. E o mais cruel é que grande parte dos que vão votar o impeachment são acusados de diversos crimes. Ou seja, os que decidem o futuro do país e poderão condenar uma presidenta honesta estão mais sujos que pau de galinheiro. Uma constatação tenebrosa, mas ao que tudo indica, será em vão.
Enquanto eu falava, percebi que a minha tentativa de entender os que a acusam era tola. Deveria haver uma razão legal que justificasse esse ato vil, mas não há. Não existe nada de razoável nas acusações. Inclusive quase não se debate isso nos programas políticos. Fala-se na queda, na corrupção, no mercado, nas composições futuras e nada mais.
O curioso é que enquanto eu falava, o meu xará me olhava com cara de dó. Pois é, meu amigo teve dó de mim. Parei de falar e fiquei a esperar o que ele tinha a dizer.
Tocando no meu ombro, meu camarada inicia sua fala com uma voz mansa, típica de quem tem a experiência como aliada:
-Meu caro, não adianta procurar entender. Não é para entender. Eles querem ela fora do governo e isso basta para essa gente. Vão arrumar uma desculpa qualquer, que será enaltecida pelos manifestantes da direita e ganharão aval de justo e verdadeiro pela grande mídia.
Eu paro, respiro e pergunto:
– E ai? O que a gente faz? Ampara-se em quem, acredita no que?
Ele responde friamente antes de voltar a bater no saco:
– Segue lutando e fazendo o que tua consciência manda. Por que se depender e acreditar nas instituições, a gente vai viver numa angustia sem fim. A gente achou que muita coisa tinha mudado, mas estávamos enganados. Embaixo melhorou, mas em cima eles continuam a comandar tudo do jeito que bem entendem. Se o golpe se consolidar, uma pequena parte da sociedade volta a ter exclusividade nos benefícios e a as camadas mais altas da sociedade irão repetir a mesma ladainha de sempre: “O que falta no Brasil é saúde e educação.”. Uma estratégia psicológica de se livrar de algum sentimento de culpa, jogando o problema e a solução para longe de si.
Não quero terminar esta crônica lacônica deixando a atmosfera fúnebre. Até então, tudo deu a entender que nós iríamos esmorecer. Mas não será assim. A conversa tomou novos rumos, o treino rolou e as esperanças se entrelaçaram ao dever de luta.
As mobilizações irão surgir em todo canto. As bases estão se reconstruindo. O movimento pela democracia irá crescer dia a dia. A verdade, que tentam omitir, irá cada vez mais aparecer por aqui: a mídia alternativa vem crescendo e vem dando o seu recado.
E, se eles pensam que vai ser fácil porque o mercado vai ficar favorável e a grande mídia irá apoiar, estão enganados. A gente não quer dar marcha a ré no país. Queremos um país justo e igual, sem deixar ninguém de fora. Temos consciência de que a mudança ampla ocorrerá com uma grande discussão sobre o sistema. É preciso discutir toda esta organização mafiosa que impera a tanto tempo no país. Isso terá que partir de baixo para cima, não apenas com insatisfação ou sentimento de se fazer justiça com as próprias mãos. De nada adiantará trocar uma cabeça por outra, ainda mais quando as que estão para chegar tem uma trajetória nebulosa.
Mas, enquanto eles agem como no filme tropa de elite, onde os grandes corruptos fingem-se de santos imaculados dizendo que “aqui o procedimento é todo certinho”, nós iremos nos contrapor, lutando por um país mais justo. Para cada ato vil, haverá uma resistência corajosa, cheia de amor e sonhos por um mundo melhor.
(*)Foto: donamarianaomulher.blogspot.com
