
No panorama da teoria social contemporânea, a característica distintiva da obra de Bourdieu é a sua constante preocupação pela reflexividade.
Por Afrânio Catani* | A Terra é Redonda, 18 de junho de 2026
1.
Em várias ocasiões Pierre Bourdieu (1930-2002) expressou sua admiração por Karl Kraus (1874-1936), nascido na Boêmia e que desempenhou relevante papel no debate político e cultural nas primeiras décadas do século XX em Viena, Áustria, sobretudo através de seus escritos em Die Fackel(A tocha), que fundou em 1899 e passou a redigir sozinho a partir de 1911 até poucos meses antes de sua morte.
Pierre Bourdieu escreve que Karl Kraus “acrescenta à ideia do intelectual como Jean-Paul Sartre (1905-1980) construiu e impôs uma virtude essencial, a reflexividade crítica: existem muitos intelectuais que interrogam o mundo; há poucos intelectuais que interrogam o mundo intelectual” (Bourdieu, 2004, p. 37).
Em sua aula inaugural no Collège de France, em 1982, Pierre Bourdieu lembra propriedade das mais básicas da sociologia tal qual a concebe: “todas as proposições que essa ciência anuncia podem e devem aplicar-se ao sujeito que faz a ciência” (p. 4).
Praticando a sociologia da sociologia, analisa o discurso sociológico a partir da posição social ocupada na estrutura do campo social pelo sociólogo que o produz. Segundo ele, “a crítica epistemológica não se dá sem uma crítica social” (p. 7). Em vários momentos de sua longa trajetória como investigador, apreende os atores que estuda, Gustave Flaubert em especial, procurando “assumir o ponto de vista do autor”, com o fito de apreender vida e obra em meio às condições de sua realização. Para ele, “compreender é primeiro compreender o campo com o qual e contra o qual cada um se fez”, ou seja, é examinar de início o estado do campo no momento em que nele ingressa – no seu caso específico, em fins da década de 1950 (Bourdieu, 2004, p. 15).
No panorama da teoria social contemporânea, a característica distintiva da obra de Bourdieu é a sua constante preocupação pela reflexividade ou, nas palavras de Alicia Gutiérrez (2000, p. 12), o autor explora ao máximo “os condicionantes sociais dos produtores de conhecimento social”.
2.
Epistemologicamente, se superam as falsas fronteiras do conhecimento, levando-o a escrever em Choses dites (1987) o seguinte: “…o fato de colocar a respeito de nossas sociedades questões tradicionais da etnologia, e de destruir a fronteira tradicional entre a etnologia e a sociologia, já era um ato político. Concretamente, isso se traduz nas reações que suscitam as duas formas de trabalho: enquanto minhas análises das estruturas mentais que são objetivadas no espaço da casa kabyle suscitam apenas aprovação, e mesmo admiração, as análises que fiz acerca das ‘categorias do juízo professoral’, apoiando-me em avaliações feitas por professores de classes de preparação para o curso de letras (…) acerca de seus alunos ou nos necrológios do Anuário dos ex-alunos da Escola Normal Superior, são vistas como transgressões grosseiras e falta de compostura” (Bourdieu, 1987, p. 36).
E nessa forma de trabalhar, o autor entende que “… é possível pensar com Marx contra Marx ou com Durkheim contra Durkheim, e também, é claro, com Marx e Durkheim contra Weber, e vice-versa. É assim que funciona a ciência” (Bourdieu, 1987, p. 53-64).
Pierre Bourdieu explorou, no conjunto de sua obra, uma vasta gama de objetos de investigação, compreendendo classe operária, setores médios, elites, acadêmicos, religiosos, políticos, empresários, alta burocracia governamental e privada, nobreza, indústria cultural, sistema de ensino, movimentos sociais, atividades intelectuais e artísticas, o Estado, mercado imobiliário, a alta costura etc.
Acrescente-se a tudo isso, a produção de vários artigos e livros envolvendo sua região (o Béarn), a Argélia, textos teóricos, além de farta literatura dedicada à intervenção e ao debate político-cultural, aí compreendendo inclusive a criação de uma editora e intensa participação nos movimentos sociais a favor dos destituídos.
Em um pequeno livro procurei mostrar algumas possibilidades analíticas que suas reflexões permitem, é dizer, elaborar um trabalho de natureza homológica, com a finalidade de realizar a transposição e gerar hipóteses para desenvolver pesquisas comparadas em outro(s) país(es) ou contexto(s) que permitam desvendar os fundamentos ocultos da dominação presentes nas sociedades de classe contemporâneas (Catani, 2013).
Não se deve esquecer que Pierre Bourdieu erigiu uma maneira de fazer ciência por meio de “análises concretas de situações concretas”, entendendo, como escrevemos em outro texto: “a ciência, do mesmo modo que outros espaços sociais, é construída por pessoas de carne e osso, com constrangimentos e interesses sociais múltiplos; é dotada de conflitos em torno da legitimidade de quem produz e do que se cria, mobilizando um modelo explicativo que não é inteiramente independente da compreensão do próprio produtor de ciência e de seu ponto de vista” (Hey: Catani, 2013, p. 51).
*Afrânio Catani é professor titular sênior na Faculdade de Educação da USP. Autor, entre outros livros, deOrigem e destino: pensando a sociologia reflexiva de Bourdieu (Mercado de Letras).
Referências
Pierre Bourdieu. Choses dites. Paris: Minuit, 1987.
Pierre Bourdieu. Lições da aula. São Paulo: Ática, 1988.
Pierre Bourdieu. Actualité de Karl Kraus. Un manuel de combattant contre la domination symbolique. In: Pierre Bourdieu. Intervertions, 1961-2001. Science sociale & action politique. Marseille: Agone, 2002.
Pierre Bourdieu. Esquisse pour une auto-analyse. Paris: Éditions Raisons d’Agir, 2004.
Alicia B. Gutiérrez. La tarea y el compromiso del investigador social. Notas sobre Pierre Bourdieu. In: Pierre Bourdieu. Intelectuales, política y poder. Buenos Aires: Eudeba, 2. ed., 2000.
Ana Paula Hey; Afrânio Mendes Catani. Ladrilhando o concreto: construindo pesquisas a partir de Bourdieu. In: João Ferreira de Oliveira; Jadir de Moraes Pessoa (Orgs.). Pesquisar com Bourdieu. Goiânia: Cânone Editorial, 2013, p. 31-52.
Karl Kraus. Ditos e desditos. São Paulo: Brasiliense, 1998.
Karl Kraus. En esta gran época. De como la prensa liberal engendra una guerra mundial. Buenos Aires: Libros del Zorzal, 2008.
Karl Kraus. Aforismos. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2010.
Sergio Miceli. Uma revolução simbólica. Opinião, Folha de S. Paulo, p. A3, 27.janeiro.2002.

