
Foto: Thiago Gadelha.
Entre a paixão pelo futebol, a dor da derrota e a responsabilidade democrática, a Copa ensina ao Brasil que também se amadurece nas derrotas.
A cada Copa do Mundo, o Brasil volta a viver uma espécie de ritual coletivo. Antes mesmo de a bola rolar, ruas são pintadas, bandeiras aparecem nas janelas, vielas ganham cores, praças se transformam em pontos de encontro e famílias reorganizam a rotina em torno dos jogos da seleção.
Não se trata apenas de futebol. Trata-se de um acontecimento social que mobiliza afetos, memórias, expectativas e uma antiga esperança nacional: ver o país novamente no topo do mundo.
A busca pelo Hexa cresce como desejo compartilhado porque toca numa dimensão profunda da identidade brasileira. A seleção, com sua camisa amarela e suas cinco estrelas, carrega a marca histórica de um país que aprendeu a se reconhecer como vencedor no futebol.
Por isso, quando a vitória não vem, a frustração ultrapassa o limite do placar. A derrota deixa de ser apenas esportiva e passa a ser sentida como uma espécie de abalo emocional coletivo.
A frustração como experiência humana
A decepção, no entanto, não nasce apenas do desempenho da seleção em campo. Ela também revela a força das expectativas que projetamos sobre o outro. Esperamos que 11 jogadores realizem, em poucos minutos, um desejo que pertence a milhões. Quando isso não acontece, o sentimento de perda aparece com intensidade porque o torcedor não acompanha a seleção como observador neutro: ele se reconhece nela.
A vitória parece ser de todos; a derrota também. O mesmo ocorre na escolha de nossos governantes, quando projetamos em um candidato a solução de nossos problemas e esquecemos que mudanças duradouras só acontecem com esforço coletivo e respeito a valores.
É nesse ponto que a Copa oferece uma lição que ultrapassa o futebol. Perder e se frustrar fazem parte da vida cotidiana. Desde a infância, cada pessoa aprende, ou deveria aprender, a conviver com desejos possíveis e impossíveis, com pedidos negados, com limites impostos e com respostas que não correspondem à própria vontade.
O “não” recebido em casa, na escola, no trabalho, nas relações afetivas ou na vida pública pode gerar dor, revolta e desânimo. Mas também pode abrir caminho para o crescimento responsável e a maturidade.
A tradição cristã costuma associar a Santo Agostinho a ideia de que o ser humano cresce por duas vias: pelo amor ou pela dor. A formulação é simples, mas ajuda a compreender a frustração como experiência formadora.
Pelo amor, aprendemos quando há escuta, cuidado, orientação, afeto e abertura para reconhecer limites sem que seja necessário quebrar-se por dentro. Pela dor, aprendemos quando a realidade se impõe com perdas, recusas e consequências que já não podem ser evitadas.

A derrota que fere a alma coletiva
A derrota esportiva pode ser vista, nesse sentido, como uma dor simbólica. Ela não fere o corpo, mas alcança a memória, a autoestima e a imagem que um país constrói de si mesmo. Quando elaborada com serenidade, essa dor deixa de ser apenas decepção e se transforma em oportunidade de consciência. Ela obriga o país a olhar para suas expectativas, para suas idealizações e para a tendência de transferir ao outro a obrigação de realizar sonhos que dependem do esforço coletivo.
Como a torcida norueguesa nos lembra no símbolo do remo, é preciso remar juntos e na mesma direção.
Mas seria injusto reduzir a Copa ao instante da eliminação. O legado do Mundial começa antes do apito inicial e se espalha pelo território nacional. Está na mobilização de comunidades que enfeitam ruas, vielas e praças; nos mutirões improvisados para pintar o chão de verde e amarelo; nas bandeirinhas penduradas entre casas; nas conversas de esquina; nos encontros familiares; nos telões montados em bairros, escolas, clubes e espaços públicos.
Esse movimento revela algo que o cotidiano, muitas vezes marcado por pressa, conflito e desconfiança, costuma esconder: o Brasil ainda possui uma impressionante capacidade de se reunir em torno de símbolos comuns.
Durante a Copa, pessoas de diferentes raças, credos, classes sociais e ideologias dividem a mesma expectativa. Abraços entre desconhecidos, cores da bandeira nas ruas, gritos de alegria, cantos de encorajamento aos jogadores e lágrimas compartilhadas mostram que o futebol, apesar de suas contradições, continua sendo uma linguagem afetiva capaz de atravessar fronteiras sociais e construir uma identidade plural.
O respeito às regras dentro e fora de campo
Outro legado importante da Copa está na clareza com que o jogo evidencia a necessidade de regras. Jogadores que desrespeitam normas são advertidos, penalizados e, em casos mais graves, expulsos de campo. A mensagem é simples e poderosa: toda atividade coletiva depende da aplicação da lei e do reconhecimento de limites comuns.
O VAR, árbitro assistente de vídeo, como o nosso STF, ajuda a revisar lances decisivos; na vida institucional, cabe aos nossos legisladores garantir que as regras sejam cumpridas. No jogo democrático, cada cidadão também se torna juiz, com o poder de intervir pelo voto.

Doutor em Psiquiatria e Antropologia. Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Social. Criador da Terapia Comunitária Integrativa. Autor de vários livros. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/8155674496013599.

