A feira que nunca acaba

A feira que nunca acaba

A feira que nunca acaba

O nosso modelo de desenvolvimento receberá, em um ou dois dias, mais um evento de grande porte no qual grande parte dos comerciantes – grandes, pequenos – dará descontos em seus produtos para consumidores sedentos por novidades antigas. É a sexta-feira de ofertas.

As grandes cidades, onde nasceu a resistência contra o absolutismo, viram seu poder crescer de tal modo que, atualmente, não conseguimos nos diferenciar dos absolutos poderes da Idade Média.

Longe de uma nostalgia anacrônica, podemos antever no que dará o antropoceno: a nossa própria destruição.

Antes, no entanto, da destruição física, vem a moral – todos os regimes assim caíram. Embebidos de um consumismo frenético que não conhece barreiras, somos como um rio vazio que espera a vida, mas sabe nada poder sem a água e a floresta.

Sabemos o quão desastroso é o modelo destrutivo do consumo, mas parecemos estar paralisados pela frenesi capitalista, em busca de um novo Carnaval no velho modelo explorador e exclusivista.

A volta à ‘normalidade’ – se é que há uma – é a volta ao ato inconsequente de por em marcha nossas velhas ideias moribundas: o crescimento infinito que acaba com os recursos naturais finitos e adoece o planeta (incluindo nós mesmos, pobres seres humanos).

E pior: um modelo ainda mais concentrador e violento, que mesmo com uma ‘pausa’ viu a renda ser direcionada para o topo cada vez mais. A viagem espacial privada é uma realidade num planeta no qual mais de um quinto das crianças em todo o mundo está desnutrido. É vergonhoso e, ainda assim, aceitável em nome do mesmo ‘desenvolvimento’.

A solução é mais do que simples: temos que tornar o planeta verde e azul novamente, aprendendo a dividir o espaço com a natureza. Em outras palavras: agir contra a nossa natureza destrutiva e egoica. A solução é tão simples quanto distante, e a recente conferência da ONU sobre o clima é mais uma prova concreta dessa tragédia.

A ciência, que tem seus princípios sequestrados para justificar a visita privada ao espaço, de nada tem valido quando o tema é nosso futuro comum. A desigualdade gritante da vacinação global é, mais uma vez, prova inconteste.

A sexta-feira de ofertas é a feira na qual estamos presos – como numa caverna, sem conseguir enxergar a luz do sol ou da lua. A mercadoria somos nós mesmos, impedidos de nos perceber seres integrantes da natureza.

Analfabetos ambientais, poderíamos dizer – como humanos, não sabemos quem somos e nem onde estamos. Como que num barco desgovernado, prestes a afundar, continuamos a comprar, comprar, comprar.

Estamos à venda no mercado-mundo, como produtos descartáveis em uma feira que nunca acaba.

4 comentários sobre “A feira que nunca acaba”

  1. Me permito expressar a minha admiração –que não é de hoje– pelos seus escritos. A capacidade de dizer muito e sensibilizar, mobilizar, sacudir a inércia e o imobilismo. Sempre considerei que é um dever de quem percebe, quem vê e sente, alertar aos(às) seus contemporâneos/as. Você faz isto com competência e tranquilidade. Obrigado por voltar mais uma vez e sempre, a este espaço que é seu mais do que de ninguém.

  2. Há uma acidez necessária demais nesse texto de Gustavo Barreto. Ela nos faz compreender o significado real da encruzilhada em que o homem foi colocado pelo modelo de desenvolvimento que ele próprio criou.

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