Amazônia: E teria o invisível uma cor?

© Marcela Bonfim 📷 Resistência, Quilombo de Vila Bela, Oiapoque, Amapá, 2015

Parte constitutiva e essencial da região, sua população negra sofre um apagamento histórico. Na contramão da história oficial, livro de fotógrafa reflete e registra as raízes afrodiaspóricas do norte do país. Quem nos apoia concorre a um exemplar.

Por  / Outras PalavrasBlogDaRedação – Outros Quinhentos / Publicado em 29/05/2026 às 17:16 – Atualizado em 29/05/ 2026 às 17:26

Parte constitutiva e essencial da história da Amazônia, a população negra na região sofre com um apagamento histórico. Em 1750, a corrida do ouro e a construção do “Forte Príncipe da Beira” trouxeram as primeiras levas de povos escravizados. No final do século XIX, o “Ciclo do Ouro” e o “Ciclo da Borracha” atraíram outras levas migratórias vindas do nordeste do país. Já no século XX, trabalhadores barbadianos eram uma das forças de trabalho na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Essa Amazônia Negra saltou aos olhos da artista visual Marcela Bonfim que ao deixar o eixo Sul-Sudeste e passar a transitar pelas ruas da capital rondoniense, adentrou um caminho sem volta: um processo de autodescoberta e letramento racial.

Foi do ímpeto da artista de organizar o que via, ouvia e sentia ao atravessar os trajetos cotidianos de sua nova morada que nasceu a obra Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível (Igrá Kniga, 2025).

Outras Palavras sorteará um exemplar de Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível, de Marcela Bonfim, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 8/6, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!

O livro é a consolidação de mais de uma década de pesquisa, vivência e registros fotográficos da artista pela região e surge da necessidade de nomear os silêncios por ela percebidos.

A publicação, que foi viabilizada pelo Edital Funarte Retomada 2023, faz uma leitura crítica de Marcela acerca do racismo estrutural e de como seus mecanismos inviabilizaram as populações afro-indígenas e quilombolas do norte do país – uma espécie de manifesto visual, teórico e autobiográfico, no qual imagens e palavras atuam de maneira conjunta com o intuito de proporcionar um letramento visual.

Na primeira parte, Marcela narra seu trânsito pessoal de autodescoberta identitária ao migrar de São Paulo para Rondônia. Além disso, compartilha suas considerações teóricas acerca do conceito de “Economia Visual”, no qual as imagens são consideradas um ativo econômico, portanto , em um sistema colonial, a cor da sua pele pode atribuir ou retirar valor.


“O livro nasce de pequenas incursões, em que a cabeça, antes repleta de estigmas, dá lugar aos movimentos de uma Amazônia Negra pulsante e cheia de nuances que se aproximam das minhas. Nasce também de um despertar para uma economia visual, em que o meu corpo e a minha mente são os pilares da casa que preciso reorganizar constantemente — dentro de um sistema que se alimenta da vantagem sobre a cor dessa casa”

– Marcela na apresentação da obra


Já o miolo fotográfico captura as diásporas negras da região. Como a memória dos operários vindos do Caribe para trabalhar na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Ao chegar em Porto Velho, a própria fotógrafa foi inicialmente confundida com membros das famílias tradicionais “Johnson” e “Maloney”, o que funcionou como seu primeiro gatilho de pesquisa.

Festejos, terreiros, o cotidiano ribeirinho e até mesmo o interior do sistema prisional rondoniense são outros temas tratados ao longo das páginas.

Ao tensionar as ausências históricas e orientar o leitor no desafio de descolonizar o próprio olhar, Marcela inverte a história oficial, que sempre enxergou a Amazônia como um depósito de commodities minerais, biológicas e de mão de obra barata (o corpo negro escravizado ou precarizado), e reposiciona esse território como um espaço de riqueza subjetiva, intelectual e de conexão transatlântica, recontando uma história que permanece e se reinventa.

📍 Feira do Livro – Espaço Motiva Tablado Literário
✍🏾 Após o bate-papo, haverá sessão de autógrafos com a 


SOBRE MARCELA BONFIM

Marcela Bonfim é fotógrafa, economista formada pela PUC-SP e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública pela Universidade Federal de Rondônia. Já atuou como fotojornalista, colunista, palestrante, júri em concursos fotográficos e curadora de exposições em todo o país. Paulista da cidade de Jaú, após passar seu período universitário em São Paulo migrou para Porto Velho em 2010 em busca de emprego e nesta cidade Foi ela deu início a seu processo de se reconhecer mulher negra. Com uma câmera na mão, muitas ideias na cabeça e toda sua história no corpo, passa a fotografar as populações de origem caribenha, negras quilombolas e indígenas da região. Hoje, com 42 anos, dedica-se, entre outras atividades, à realização do projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta, uma plataforma multiartística, que envolve produção fotográfica, musical, audiovisual e, agora, também textual com este livro que a leitora e o leitor têm em mãos.
Bolsista Pulitzer Center através do Rainforest Journalism Fund, foi uma das vencedoras do Prêmio Itaú Cultural Literatura, em 2020 e do Prêmio PIPA 2021, ano em que também recebeu o 1º lugar do Rencontres d’Arles, no programa IANDÉ e Photodoc / Uma projeção da Fotografia Documental Brasileira na França. Em 2022, recebeu o prêmio do 1º Salão de Artes Contemporâneas de Goiás e também foi uma das mulheres vencedoras do 16º Troféu Mulher Imprensa. Neste mesmo ano teve seu trabalho exposto na mostra coletiva Celebrating Brazil, no Consulado Geral do Brasil em Lagos, Nigéria. Em 2023, recebeu certificação como uma das cinquenta profissionais negras mais notórias da imprensa brasileira pela Rede de Jornalistas pela Diversidade na Comunicação. Marcela, que também atua com audiovisual, é diretora do curta-metragem “Beira”, exibido nas recentes edições (2026) do prestigiado Festival Internacional de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand e na conceituada 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Minas Gerais. Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível, lançado no final de 2025 pela Editora Igrá Kniga, é o seu livro de estreia.


Outras Palavras irá sortear um exemplar de Amazônia Negra: as imagens da cor do (in)visível, de Marcela Bonfim, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 8/6, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!


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