A vida como um contínuo movimento de renovação

Considerações em torno de “o voo da águia.”

Pela segunda vez, em menos de sessenta dias, foi-me dada a oportunidade de participar da reflexão em torno de uma conhecida narrativa – “o voo da águia”.

Estima-se em cerca de 70 anos a longevidade da águia. Tal longevidade, porém, não lhe vem gratuitamente. A certa altura da vida em razão de fatores altamente limitantes, ela tem que tomar uma decisão crucial: ou não mais suportando seus próprios limites, aceita morrer; ou, desejosa de prolongar, por mais trinta anos sua vida, toma a difícil decisão de renovar-se. No primeiro caso, ao atingir 40 anos, vários fatores limitam, de forma comprometedora, seu movimento. Seu bico envergado já não lhe permite capturar facilmente suas presas. Suas garras, por outro lado, exageradamente crescidas e deformadas, já não ajudam seus movimentos de captura das presas. Suas asas, igualmente, resultam envelhecidas e demasiado pesadas para seu voo habitual. Ou se acomoda, resignadamente a tais limites definitivos, ou ousa sobreviver a tais limites, devendo para tanto renovar-se, cumprindo, no mais alto de uma montanha, um longo período de 5 meses, nesse processo de renovação.

Para isto, a águia bate o bico envelhecido contra o rochedo, até arrancá-lo de todo. Ao ganhar um novo bico, cuida também aparar suas garras, refazendo-as aptas à sua ação de captura das presas. Por fim, aplica-se em fazer o mesmo com suas asas. Está pronta a realçar voo, por mais trinta anos, tendo a seu favor condições propícias para ampliar significativamente as chances de uma vida com qualidade.

A narrativa, tal qual uma obra de arte, permite distintas leituras. De minha parte, cuidei de extrair lições para mim mesmo, evidentemente naquilo que me cabe, pois entendo a vida, antes de tudo, como um dom de Deus, razão por que não me pertence conjecturar sobre a duração, por exemplo. Há, contudo, aspectos de minha vida em relação aos quais tenho condições de decidir. Um deles tem a ver com buscar aprimorar, dia após dia, a qualidade do (con)viver, naquilo que está ao meu alcance. É o que tento explicitar a seguir, partindo de três dimensões focadas pela narrativa: quanto ao bico, quanto às garras e quanto às asas. Pela narrativa, aprendemos o que representaram estas três dimensões, tomadas pela águia como partes-alvo de seu processo de renovação. E para o bicho humano, o que poderiam significar essas mesmas partes-alvo do processo de renovação?

Comecemos pelas asas: o que significariam as asas? Podemos tomá-las como representando nossos sonhos, nosso horizonte, nosso rumo. Uma pergunta útil, nesse sentido, poderia ser: para onde mesmo estou marchando? Mais uma vez, vem-me ao espírito o famoso dito da personagem José Dolores, do filme “Queimada”: “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir.” Quantas vezes, em nosso (co)existir, nos flagramos perdidos! Nossa agenda repleta de afazeres, mil atividades, ao ponto de termos dificuldade em administrá-la. E, no entanto, quando nos damos ao trabalho de avaliar os frutos desse ativismo, sobrevém-nos uma grande frustração: quando exprememos a laranja do ativismo, sai pouco suco… O que estamos mesmo querendo? Nossa agenda é definida, dia após dia, em cima de que critérios? Trata-se, em sua maioria, de critérios consistentes, do ponto de vista de seu alcance PÚBLICO ou, ao contrário, de atividades, em grande parte, vazias de conteúdo libertador? Atividades apenas para “encher tempo”, em relação às quais, caso deixem de ser realizadas, delas não se sentirá falta? O que fica mesmo do que andamos fazendo? De nossa agenda, o que, de fato, soa essencial, do ponto de vista de seu alcance PÚBLICO, isto é, a serviço de causas reconhecidamente libertárias? E o que não é compatível com o horizonte libertário, que confesso ser o meu? O que posso e devo fazer, para aprimorar minha agenda, nesse sentido?

Em relação às “asas”, eis uma hipótese do que se pode depreender para o bicho humano.

Com relação ao que corresponde ao bico da águia, que ensinamentos é possível extrair, em relação aos humanos. Também aqui, abrem-se múltiplas possibilidades. Uma delas pode ser assim expressa: de que ando me nutrindo, material e espiritualmente? Nutrição, inclusive, em sentido figurado. Sem desconsiderar hábitos alimentares e elementos correlatos (autodisciplina em matéria de regularidade, horário, quantidade, qualidade…), cumpre atentar igualmente para os nutrientes do espírito. O modo como se desenha minha rotina comporta o cuidado com o que ando aprendendo e tentando pôr em prática? Que tempo dedico, em minha agenda, a (re)visitar aspectos relevantes do imenso acervo cultural da humanidade, em distintos tempos e lugares? Sinto-me concernido pelas lutas, pelas conquistas, pelas dores e pelas esperanças da humanidade, de ontem, de hoje, vislumbrando as de amanhã? Que lugar reservo aos bons clássicos, em distintos campos de saberes- na literatura (quantos romances marcantes!), na história, nas artes, nas invenções, nas experiências com o Sagrado, na relação com o Cosmo…

Que tempo e esforço dedico para aprofundar meu conhecimento e minha sensibilidade pelas figuras humanas e pelas coisas de minha região, nas mais diversas áreas de saberes? Empenho-me em aprofundar, dia após dia, meu sentir, meu pensar, meu querer, meu agir, no tocante a um vastíssimo acervo cultural de minha região, de nossas lutas de ontem e de hoje, de tantas conquistas significativas, e também de páginas tristes, para delas extrair lições?

Com relação às “garras”, reportamo-nos, em especial, à nossa postura na arte do (con)viver, na busca de nutrientes materiais e imateriais, na arte de bem escolher e tomar decisões. Cuidamos de trazer presentes os meios, os instrumentos (“garras”) por meio dos quais cuidamos de tocar nossa existência, conforme o rumo que confessamos ser o nosso.

Costumo recorrer a meios e instrumentos, não apenas apropriados, mas também compatíveis com os fins que persigo? Numa avaliação da maior ou menor eficácia dos meios utilizados, quais os frutos recolhidos dessas experiências? Qual tem sido minha postura habitual de fazer estrada com pessoas e grupos, participantes da mesma ou semelhante empreitada? Trata-se de uma postura de diálogo ou de de sutil ou explícita imposição?

Eis alguns questionamentos que me faço e compartilho, na tentativa de recolher ensinamentos da narrativa sobre o “voo da águia”.

João Pessoa, 17 de novembro de 2017

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