Veias abertas à democratização da mídia

batalha
O livro “A batalha da mídia – governos progressistas e políticas de comunicação na América Latina e outros ensaios” não poderia ter sido publicado em momento mais oportuno. A partir da compreensão do poder que a mídia exerce sobre a vida das pessoas – e também nas políticas de Estado – Denis de Morais traz a comunicação para o centro do debate e escancara a sua urgência, enquanto boa parte da esquerda segue ignorando a centralidade da luta pela democratização dos meios de comunicação.
A mídia, hoje, é a instituição com maior capacidade de forjar consensos, moldar opiniões e reproduzir subjetividades. Isso significa estabelecer formas de pensar e agir das pessoas, das instituições e, consequentemente, do próprio país. Enquanto as outras instituições de controle – família, escola, exército etc. – estão restritas a determinadas áreas de atuação, a mídia atravessa todas elas.
Por isso é dramática a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucas empresas privadas, como é o caso brasileiro. Um pequeno exemplo disso é citado nas páginas 112 e 113: “Seis empresas de mídia controlam o mercado de TV no Brasil, um mercado que gira mais de U$3 bilhões por ano. A rede Globo detém aproximadamente metade deste mercado, num total de U$ 1,59 bilhão. Estas seis principais empresas de mídia controlam, em conjunto com seus 138 grupos afiliados, um total de 668 veículos midiáticos (TVs, rádios e jornais) e 92% da audiência televisiva; a Globo, sozinha, detém 54% da audiência da TV”.
Para além do caso brasileiro, o autor traça um panorama bastante amplo da comunicação na América Latina e indica as diferenças das políticas implementadas pelos principais países da região. O Brasil é um dos países mais atrasados, tanto em termos de concentração quanto ao que diz respeito à legislação para o setor – cujo arcabouço é oriundo da ditadura civil-militar de 1964. Apesar do notório avanço do atual governo em relação ao anterior em diversas áreas, no que tange à comunicação o que se tem são políticas mínimas, geralmente localizadas no Ministério da Cultura, enquanto as diretrizes gerais são determinadas pelo cartel privado que se apossou do Ministério das Comunicações sem encontrar resistência do presidente Lula.
Por outro lado, os governos mais progressistas da região têm investido pesado para recolocar o sistema de comunicação a serviço do povo. “Mesmo acossados nas guerras audiovisuais e impressas que lhes são movidas, os presidentes Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa têm mantido a determinação de modificar os sistemas de comunicação”, esclarece o autor.
E exemplifica: “Bolívia e Venezuela reestatizaram as empresas de telecomunicações. Em maio de 2007, Hugo Chávez nacionalizou a CANTV, garantindo a soberania nacional em matéria de telefonia pública. A empresa já responde por 80% da telefonia móvel, 18% da telefonia fixa e 20% do acesso a internet. O programa da Venezuela para o qüinqüênio 2010-2012, com investimento inicial de U$ 1,8 bilhão, inclui uma lei de regulação das telecomunicações; a integração das redes de fibra ótica do Estado; a colocação em órbita do satélite Simon Bolívar; a criação da empresa mista de telecomunicações Grannacional; a instalação de cabo submarino Cuba-Venezuela; o funcionamento da fábrica de celulares e o desenvolvimento da televisão pública” (página 118).
A leitura de “A batalha da mídia” também ajuda na compreensão do atual momento político latinoamericano. Conhecer a estrutura comunicacional no continente facilita, por exemplo, o entendimento do recente golpe de Estado em Honduras. Certamente uma pessoa informada pela TV Globo terá uma opinião muito diferente de outra que ficou sabendo da história pela Telesul – a TV multiestatal de Venezuela, Cuba, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador e Nicarágua. Segundo Denis, “a emissora propõe-se a pluralizar as interpretação dos fatos e refletir posicionamentos dos movimentos sociais, geralmente tratados com desconfiança pela mídia tradicional, como acontece com o MST.
Assim, enquanto a Globo mostra apenas as manifestações favoráveis aos golpistas, a Telesul exibe imagens de protestos e abre espaço para o presidente deposto, além de destacar a relação do movimento golpista com os interesses estadunidenses – fato omitido pela TV Globo.
Se o Brasil quer avançar no campo da comunicação, professores de todo o país devem usar “A Batalha da Mídia” em sala de aula. Jornalistas, com ou sem diploma, devem decorá-lo. Médicos e juízes devem conhecê-lo. Garis e porteiros devem tê-lo. Desempregados devem encontrá-lo. Todos precisam ler esse livro, especialmente os participantes da I Conferência Nacional de Comunicação, que agora têm uma nova arma para o encontro que será realizado em dezembro deste ano, em Brasília.
Lutar pela democratização da mídia em nosso continente, conclui Dênis de Moraes, “Significa viabilizar uma América Latina de veias abertas à recuperação e à multiplicidade de bens e sonhos que lhe foram historicamente usurpados”.

13 comentários sobre “Veias abertas à democratização da mídia”

  1. Sugiro divulgar, caso haja, os sites de TVs como a Telesul que transmitem programas pela internet, para que as pessoas possam assistir aos programas que informam a verdade dos fatos, libertando-se da triste mídia marrom.

  2. “Por outro lado, os governos mais progressistas da região têm investido pesado para recolocar o sistema de comunicação a serviço do povo.”
    Ri ALTO com essa passagem. Contra a manipulação da mídia, a favor da manipulação bolivariana. E o autor não fica nem corado escrevendo isso…fácil que o autor também deve achar que reeleições sucessivas do líder esquerdista também servem o povo.

  3. Aliás, vamos chamar as coisas pelos nomes: democratização não, vocês querem é a esquerdização da mídia. Não é porque vocês adoram essa conversa mole de que vocês representam o povo que o que favore vocês é democratização.

  4. Ué Marcelo, meu comentário anterior foi retirado da matéria por quê?
    De qualquer forma repito:
    Caro Marcos segue alguns sítios internacionais que dao notícias confiáveis [sao pró-socialistas]:
    http://www.telesurtv.net
    http://www.prensa-latina.cu
    http://www.aporrea.org
    http://www.radiomundial.com.br
    * Pode ser também que a patrulha que ronda por aqui pode estar interferindo neste sítio e deletando comentários “perigosos”, que podem ajudar a acelerar a democratizaçao da informaçao …
    muito estranho …

  5. Caro Rodrigo Leme,
    você está cometendo um erro crucial. Talvez por desinformação mesmo, e não por maldade (quero acreditar nisso). O que os governos progressistas da américa latina têm feito com o objetivo de (sim!) democratizar a comunicação é investir em produções locais, autônomas a governos e partidos políticos, produções de povos indígenas (como no caso da Bolívia), enfim, acho melhor você ler o livro (com o qual modestamente contribuí) e depois dizer.
    Um abraço.

  6. É vergonhosa a maneira como a grande mídia brasileira apresenta os acontecimentos do Brasil e do mundo. Todos sabemos que televisão, por exemplo, é uma concessão pública. O espaço que a TV ocupa pertence à sociedade brasileira, não aos donos dos meios de comunicação. Eles receberam o poder de transmissão para que possam contribuir na formação da civilidade do nosso povo. A Rede Globo, por exemplo, passa o ano inteiro erotizando a nossa infância, estimulando a violência, evidenciando nas relações humanas a banalidade e o preconceito. Tudo isso é inaceitável. O sr. Rodrigo Leme deveria fazer duas coisas: antes de tudo fazer um curso de Língua Portuguesa. Talvez a sua seja uma cultura de novela. Depois passar a ler alguns livros de História Geral e do Brasil. Podem ser livros didáticos. O seu problema é ignorância socrática.
    Comprarei o livro do companheiro Denis de Morais e, se for bom mesmo, o adotarei nas minhas aulas de Sociologia e de Filosofia.
    Abraços!!!
    Mac Dowell Leite

  7. Oi, Marcelo, estou de volta! (Risos)
    Sim, todos que lutam por um país e um mundo mais democráticos precisam se informar acerca dos oligopólio midiáticos, e precisam lutar por sistemas de representação mais justos e igualitários. Não podemos nos curvar diante das falácias discursivas da ideologia burguesa.

  8. Tenta-se criar uma esquerda, uma frente única contrária à ordem vigente, quando há muitas formas de ser contra, mesmo estando dentro. Chavez favorece a multiplicação das opiniões contrárias ao neoliberalismo, mas concentra estes esforços num outro totalitarismo.

  9. Este blog acerta ao denunciar as implicações político-econômicas da mídia, e erra ao propor como modelo um governo que não favorece as divergências, o conflito de idéias, necessários a uma democracia que leve em conta as criações e aspirações cotidianas das pessoas.
    Aqui fala-se em democratização da mídia. Mas de que democracia estamos falando?

  10. Talves o Thiago Ricardo esteja se informando apenas através do oligopólio da mídia nacional, que se oculpa somente em difamar os governos de esquerda latinoamericanos, entre outros pelo mundo.
    Os governos Chavez, Morales e Correa têm sido extremamente democráticos com as oposiçoes em seus países. E o cerne desta política tem sido desprivatizar o que urge ser público e democrático: a comunicaçao.
    E por fazerem isto, têm sido caluniados como ditadores e anti-democráticos por quem quer manter seus antigos privilégios, e interesses [muito claros].
    Sugiro ao colega acessar os sítios que indico acima e se possível ler o livro em questao.
    abs.

  11. Será que a crítica aos novos governos de esquerda se concentra na mass midia?
    E será que a crítica à mass mídia se concentra na esquerda?
    Um posicionamento a favor do mercado, e um contra-posicionamento a favor de um comunismo absolutista estatal, são bandeiras erguidas com a intenção de se controlar, via venda e consumo, no primeiro caso, e via decisões de uma personalidade, no segundo, o que são anti-posicionamentos: as pessoas não consomem, nem à mídia, como o mercado gostaria, mas usam-nos de outras formas, ativamente. E não são representáveis por um govrno, pois seus desejos são díspares e dão conta, coletivamente, do que querem.
    Quado optamos pelo Estado, nos restringimos à crítica, e caímos numa situação também pouco salutar: afirmar um dominador nós ante a aridez de um mercado impessoal.
    Minha tv pifou. Há dias que só a vejo apagada…

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