
Ela se preparou toda para aquele dia, seria um encontro secreto, somente os dois saberiam.
Ela era casada e ele um dançarino de cabaré. Depois que o viu na foto do aviso do Dancing não parou de desejar dançar com ele.
Seu marido não gostava de dançar e ela se complementava na dança. Fazia aulas para praticar e fazer o que gostava, pois o marido não saia de casa mas dava todo apoio.
O dançarino do cartaz trajava uma calça preta com blusa branca de mangas folgadas. Tinha parte do peito a mostra e um chapéu preto na cabeça. Não dava para ver seu rosto, mas parecia ser belo.
Passava várias vezes na porta do Dancing e não cansava de admirar o aviso.
Certo dia a bilheteria estava aberta e ela pediu o contato do rapaz alegando que era para contratá-lo para uma festa. A bilheteira ficou em dúvida, mas ela insistiu e a moça acabou por passar o número.
Saiu dali e foi para um local reservado fazer a ligação, mas não atendeu. Dirigiu então para sua casa e na manhã seguinte tentou novamente e a voz grossa do outro lado disse alô. Ela mentiu seu nome e disse que gostaria de marcar uma aula de dança de tango em um local reservado no período da tarde, que pagaria bem. Achou estranho aquele pedido, mas mesmo assim marcou para quarta-feira, dia de sua folga. Ele teria que ir vestido igual à foto e levar o som com as músicas de tango, sua preferida La Cumparsita. Ela ficou de arranjar o local e avisar.
Tulia, nome inventado, saiu à procura de um apartamento nos bairros mais afastados que tivesse uma sala grande para poderem dançar à vontade. Achou o local e no dia marcado, após o almoço, arrumou uma pequena maleta e colocou um vestido vermelho comprido com a perna direita aparecendo, e uma rosa para o seu cabelo castanho, e o batom combinando.
Às 14 horas chegaram os dois no apartamento. Álvaro ficou impressionado com a sensualidade quando a viu trajando o vestido vermelho, toda linda com a flor no cabelo e ele com a vestimenta acertada. Formaram um bonito par.
Mal conversaram e ele colocou a música, a pegou pelas mãos enlaçando sua cintura e começaram a ensaiar os primeiros passos. Ela o surpreendeu pela sua leveza que deslizava junto com ele. Saíram pela sala e ela cada vez o encantava e os dois flutuavam ao som da música. Nunca havia dançado com uma parceira assim.
Dançavam, dançavam, dançavam cada vez mais próximos, o cheiro dos corpos e o calor da pele dos dois, de repente a levantou e ao abaixá-la a beijou ardentemente ao que foi correspondido. Dessa hora em diante não mais resistiram um ao outro e por ali ficaram até o pôr do sol.
Quando Tulia se deu conta, entrou no banho correndo, trocou de roupa, colocou um envelope em cima da mesinha, saiu sem se despedir, sentindo culpada pelo que aconteceu, pois não era essa sua intenção.
Álvaro não sabia nada dela, ficou ali por uns instantes repassando o ocorrido, até que, fechou a porta do apartamento, deixou a chave na portaria e foi embora.
Mais de dois anos se passaram, ele nunca a esqueceu e pensava que ela o procuraria, tentou ligar para seu número, mas dava inexistente. Certo dia, ao atravessar a rua, a viu parada no sinal em um carro toda sorridente com seu marido na direção, ela também o reconheceu, assustada virou o rosto, o sinal abriu, o carro seguiu devagar e dobraram a primeira esquina à direita.
Ana Amelia Guimarães
meliaguima@gmail.com
