TKCSA: Demagogia ou a ficha caiu?


Uma declaração recente de Eduardo Paes (PMDB) surpreendeu o Rio de Janeiro, na última semana. O prefeito da cidade afirmou que, se dependesse dele, não autorizaria a instalação da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) no bairro de Santa Cruz. Paes afirmou que, além da poluição elevada, a empresa gerou poucos empregos, além de pagar poucos impostos, devido às concessões em incentivos fiscais. Segundo o prefeito, é preferível a instalação de “indústrias sem chaminés”. Ele também alegou que foi obrigado a renovar os benefícios concedidos à empresa, para “manter o ambiente de negócios”. “Se eu fosse prefeito em 2003, 2004, eu daria os incentivos? Não. Se uma empresa desse padrão industrial procura a prefeitura, eu nem recebo. Peço para alguém do quarto escalão receber para que se perceba que (esse tipo de empreendimento) não é bem-vindo na cidade”, criticou pela primeira vez Paes, embora já seja prefeito há dois anos.
Paes ainda afirmou que o impacto futuro da empresa no meio ambiente é enorme, e que se deve repensar a política de incentivos fiscais. Seguindo o tom inesperado de demonstração de preocupação ambiental, Paes também anunciou que seu governo prepara a construção do que chamou de “edifícios ambientalmente sustentáveis”, justificando, nesses casos, redução no valor de ISS e IPTU. “Quantos empregos são gerados pela CSA? Talvez menos que o Fashion Week. A indústria sem chaminé é muito mais intensiva em mão de obra. O que incomoda é que uma cidade quer ter uma marca diferente, sustentável, global, e tem um treco jogando fuligem no ar”, disse, complementando que a cidade terá sérios problemas em abrigar a empresa. Com menos de um mês de operação, a CSA recebeu multas de R$ 4,1 milhões. A concessão de licença definitiva de operação foi barrada graças à mobilização popular.
Foco em 2012
Para Sandra Quintela, economista do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), as declarações têm como foco as eleições de 2012. Paes será candidato à reeleição, e já lidera todas as pesquisas. “A primeira coisa que ele fez como prefeito, no primeiro dia de governo, em janeiro de 2009, foi conceder incentivo fiscal para a CSA. Agora ele justifica isso dizendo que tinha que ‘manter o ambiente de negócios’. Ele é responsável por tudo isso”, diz. Para ela, Paes não quer perder a significativa base eleitoral que teve na zona norte, quando ganhou a prefeitura de Fernando Gabeira (PV) com menos de 1% de diferença devido à expressiva votação na região. A insatisfação com a CSA cresce dia após dia no local. Outra fonte, que não quis se identificar, acredita que essa relação com as eleições seja mais profunda. Paes estaria negociando seu silêncio, visando ajuda financeira da CSA para sua campanha à reeleição.
Surpreendido com as declarações, a ThyssenKrupp, que detém o controle da siderúrgica, demorou a se posicionar. Em seguida, o presidente da empresa, o alemão Herbert Eichelkraut, veio a público reconhecer os erros de companhia. “Temos que admitir que tivemos erros. No começo, tínhamos a impressão de que a criação daquela quantidade de empregos que foram gerados durante a construção e, agora, que estão sendo gerados durante a operação, era suficiente. Antes de viajar para o Brasil, trabalhava numa empresa muito semelhante em termos de tamanho e de operação à CSA. Mas essa empresa existe há cem anos. Depois de morar tanto tempo próximo e convivendo, existe uma confiança mútua. Viemos com essa ideia de que, se lá funciona dessa forma, aqui também funcionaria. Foi isso que gerou esse equívoco”, afirmou.

Eichelkraut afirmou que, embora haja apenas 2700 empregos dentro da CSA, com as empresas que atuam no projeto, serão gerados 14 mil até o final do ano. O presidente da empresa teve dificuldades em explicar a poluição nas casas vizinhas, cobertas por fuligem branca e grafite. “Temos que reconhecer que as pessoas não estavam acostumadas a viver numa área próxima a uma siderúrgica. Quando acontece algum tipo de emissão, um material visível, as pessoas ficam assustadas. Tem que haver uma desassociação da questão legal da questão do incômodo”, disse, aparentemente considerando normal a poluição. Segundo Eichelkraut, o Conselho de Administração da empresa aprovou US$ 100 milhões para “aumentar as pesquisas para que isso não volte a acontecer”.
Através da mobilização de movimentos sociais, sindicatos e partidos independentes, a concessão de licença definitiva de operação à empresa foi adiada. A CSA está operando com uma licença prévia. Entretanto, deliberou-se que se deveria fazer uma auditoria para estudar os impactos locais. O que preocupa, agora, as entidades que resistem é que o responsável pela auditoria será a Usiminas. A empresa é considerada suspeita para auditar a CSA, devido a seu histórico de pouca preocupação com os danos ambientais nas áreas em que atua. A empresa já prevê atingir, em setembro desse ano, sua capacidade máxima de produção, de três milhões de toneladas de aço por ano.
Mais transtornos
No dia 23 de abril, um novo problema voltou a surgir, decorrente da atuação da empresa. As fortes chuvas que caíram no Rio de Janeiro durante a semana causaram enchente nas proximidades do canal de São Francisco. As águas chegaram à altura de meio metro. Na região, a CSA desviou um rio, colocando três bombas para impulsionar a água. Quando as bombas falham, há enchente. Na época das obras, o Ministério Público Estadual (MPE) denunciou a insuficiência de dados sobre o desvio no relatório de impacto apresentado pela empresa, mas não houve consequências. “Esse problema já tem dois anos, e até agora, quase nada foi feito”, acusa Rodolfo Lobato, da Associação da População Atingida pela CSA (APACSA). A CSA tem reunião marcada com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para discutir soluções.
(*) Reportagem publicada originalmente no Brasil de Fato.

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