Texto submetido a O Globo

Foi com surpresa e indignação que li a reportagem (com chamada de 1ª página) de domingo, 11/7/10, intitulada “Ensino superior, mas nem tanto”. A matéria toma exemplos isolados para destacar apenas aspectos negativos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ignorando o excelente desempenho apresentado pelos seus egressos em concursos e em provas nacionais como o ENADE, desempenho este confirmado pela preferência do mercado de trabalho por profissionais formados na UFRJ.
Mostrando números oriundos de uma única fonte, a matéria ignora dados públicos disponíveis no site da PR3-UFRJ que demonstram que, em 2009, foram iniciadas e/ou licitadas inúmeras obras (salas de aula, restaurantes universitários, bibliotecas, etc.), financiadas pelo programa do governo federal REUNI, de expansão das universidades federais. A matéria ignora, ainda, que a adesão ao referido programa foi voluntária e amplamente discutida nos colegiados de cada uma das faculdades envolvidas. Nenhuma decisão de aumento de vagas foi tomada de forma irresponsável. A contratação, somente em 2010, de 500 novos professores, e o aumento em cerca de 10 vezes (de 3,6 para 34,6 milhões de reais), entre 2003 e 2008, das verbas de investimento repassadas pelo governo federal à UFRJ, são uma prova disso.
O número de vagas nas universidades federais aproximadamente dobrou entre 2003 e 2008, como diz a matéria. É fato notório que, em empreendimentos de qualquer tipo, aumentos de tamanho/quantidade resultam em ganhos de escala. Portanto, considerando que as universidades federais agora atendem ao dobro do número de alunos, com manutenção do valor por aluno investido pelo MEC (alteração de apenas 3,8%, de R$ 15.341 para R$ 14.763), chega-se a uma conclusão diferente daquela sugerida pela matéria: levando-se em conta o ganho de escala, certamente as condições de financiamento hoje são melhores do que antes.
O campus da Ilha do Fundão tem fluxo diário de pessoas aproximadamente igual ao dobro da população da Cidade de Deus e área ocupada similar à de Ipanema e Leblon juntos. Se os índices de criminalidade mencionados na matéria forem comparados àqueles registrados nestes dois nobres bairros da cidade, certamente a conclusão será de que é mais seguro transitar pelo Fundão do que por Ipanema. Por que não fazer uma matéria levantando estes dados?
Nos últimos anos, vêm se repetindo, sempre às véspera das inscrições no vestibular, matérias negativas sobre a UFRJ n’O Globo. Por que o jornal não publica matérias extensas sobre a UFRJ também em outras épocas do ano? Por que o jornal não relata a preferência do mercado de trabalho por profissionais formados na UFRJ?
O MEC e a UFRJ estão tomando ações concretas com o objetivo de que nossa universidade continue oferecendo um enino de alto padrão, a um número ainda maior de brasileiros. O campus da Ilha do Fundão está passando por uma revolução que o transformará, ao longo da década que ora se inicia, em uma cidade universitária de dar inveja às universidades dos países mais ricos. Eu gostaria de desafiar O Globo a fazer uma matéria sobre as obras atualmente em andamento na UFRJ, dando maiores informações ao grande público sobre o Plano Diretor UFRJ 2020 (www.ufrj.br).
Se a UFRJ, na década de 1990, soube manter a excelência de seu ensino mesmo frente ao descaso e abandono de então, por parte do governo federal, certamente não será nesta década, marcada por muitos novos investimentos, mais verbas e novos docentes, que deixaremos de oferecer um ensino superior do mais alto padrão. E certamente seremos capazes de fazê-lo para um número ainda maior de brasileiros.
(*) Artigo escrito pela professora Leda R. Castilho, da Coppe/Ufrj.

INFORME DA DIREÇÃO DA ESCOLA DE COMUNICAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
Em Matéria mostrando apenas aspectos negativos da UFRJ, publicada no jornal O Globo de 11/07/2010, busca-se desqualificar os recentes investimentos do governo brasileiro em centenas de concursos públicos para professores, técnicos-administrat ivos, a expansão de vagas e as inúmeras obras em andamento nas Universidades Federais. Investimentos sem paralelo na história das Universidades públicas e gratuitas, apoiado por Universidades Federais de todo o país.
Como relata a professora Leda Castilho da COPPE/UFRJ (ver carta para O Globo abaixo), trata-se de matéria com calendário fixo: “todos os anos, quando se aproxima o período de inscrições nos vestibulares, O Globo publica matérias extremamente negativas sobre nossa universidade, influenciando pais e alunos”.
Em relação à Escola de Comunicação a matéria (num exemplo de jornalismo editorializado e parcial) cita apenas que: “Na comunicação, das 12 câmeras fotográficas, seis estão quebradas”. Não sabemos quais as fontes dessas informações, a matéria não informa, por exemplo, que as câmeras estão em manutenção.
A matéria prefere pinçar essa informação parcial do que informar, por exemplo, que a Escola de Comunicação recebeu entre 2009 e 2010, 20 (vinte) vagas para novos Concursos Públicos permanentes e que só agora em 2009 irá realizar 9 Concursos públicos para professores permanentes, que resolvem problemas estruturais da Escola, além de outros investimentos em equipamentos, obras, no Salão Vianninha, etc.
Também na matéria são mostrados (com uma foto inclusive ) pequenos sacos de cimento empilhados, informando que são “para obra de prédio [da CPM2]”, outra informação errônea, pois são simplesmente sobras de um pequeno reparo no espaço de convivência ao lado da CPM. A Direção da ECO, a Coordenação da CPM, a direção administrativa, seus professores e técnicos não foram ouvidos. As informações mínimas sobre a ECO não foram checadas.
A obra para a CPM2, prevista pela Reitoria da UFRJ para ser realizada na ECO, está no momento suspensa após análise do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico) que autoriza ou não construções nas imediações do Palácio Universitário, bem tombado pelo Patrimônio Histórico e com restrições em relações a novas edificações em seu entorno. Processo que a Direção da ECO está acompanhando e pressionando para que uma solução seja dada, seja autorizando a construção (para a qual a UFRJ dispõe de recursos) seja apontando outra solução que beneficie a ECO.
A UFRJ e a ECO fazem parte de uma gigantesca e complexa comunidade acadêmica com um projeto do qual nos orgulhamos de universidade pública e gratuita, e tem evidentemente uma série de problemas e desafios enormes a serem enfrentados, que encaramos (gestores, professores, estudantes, técnicos) diariamente no cotidiano da nossa Escola e para os quais é preciso um esforço coletivo continuo, colaboração, reivindicação, criticas e também reconhecimento dos avanços.
Uma matéria como essa fere o que entendemos como um jornalismo crítico, não editorializado, com fontes diversas, que mostra os “dois” lados (e os diferentes lados) da questão.
Citamos a professora Leda Castilho da Coppe: “Por que o jornal não publica matérias extensas sobre a UFRJ também em outras épocas do ano? Por que o jornal não relata a preferência do mercado de trabalho por profissionais formados na UFRJ?”
Ainda nos entristece particularmente o fato dessa matéria ser assinada por ex-estudantes da Escola de Comunicação da UFRJ. Sabemos que matérias são editorializadas, servem a interesses eleitorais, de um grupo, de uma elite, de uma corporação e muitas vezes vem pautadas de antemão para “demonstrar”, “desqualificar” ou “consagrar” uma instituição ou pessoa.
Não é esse o jornalismo ensinado na Escola de Comunicação da UFRJ, cuja excelência é reconhecida pela próprio mercado que dá preferência e contrata estudantes formados na UFRJ, mesmo que seja para desqualificar esta mesma instituição, pública e gratuita, mantida por toda a sociedade, e que tem entre seus valores a ética pública e o pensamento crítico.
(*) Artigo escrito por Ivana Bentes, professora e diretora da ECO/UFRJ.
Segue abaixo a matéria publicada no jornal O Globo:
ENSINO SUPERIOR, MAS NEM TANTO
Governo amplia rede de universidades, mas UFRJ, a mais antiga, sofre com falta de manutenção, insegurança e expansão desordenada
Prestes a deixar o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz ter criado mais universidades federais que qualquer outro presidente. Mas oito das 13 que afirma ter feito, na verdade, já existiam e foram ampliadas ou federalizadas. Enquanto isso, porém, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a primeira do Brasil, sofre com a falta de estrutura e a expansão desordenada, o que compromete a qualidade dos cursos. Na medicina, turmas com até cem alunos têm aulas de anatomia em só duas peças de cadáver. Na arquitetura, as pranchetas usadas são obsoletas, reclamam os alunos. Na comunicação, das 12 câmeras fotográficas, seis estão quebradas.
Há problemas graves ainda no alojamento e no Hospital Clementino Fraga Filho, usado como hospital escola.
Nos dois últimos anos, 22 novos cursos de graduação foram criados na UFRJ. A meta é que até 2020 o número de alunos mais que duplique e saia dos 41.007 de 2008 para 88.530. Porém, na contramão dessa corrida pelo ensino superior – um dos temas-chave da eleição presidencial deste ano, já que a falta de mão de obra qualificada é um dos gargalos do desenvolvimento do país -, o investimento público direto em educação por estudante na educação superior, segundo o Ministério da Educação (MEC), caiu de R$ 15.341 em 2000 para R$ 14.763 em 2008.
Além disso, apesar de o orçamento do Ministério da Educação ter aumentado em valores absolutos nos últimos anos – de R$ 16,5 bilhões em 2003 para R$ 36 bilhões em 2009 -, o percentual do orçamento do MEC em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) teve ligeira queda, segundo estudo da Associação dos Docentes da UFRJ (Adufrj) com dados do Senado e do IBGE: de 1,1% do PIB em 2003 para 1,04% em 2009.
– O orçamento do MEC, em termos absolutos, cresceu porque o PIB cresceu, e não porque tenha havido aumento da parcela do orçamento federal – diz Luis Eduardo Acosta, presidente da Adufrj.
O MEC contesta esses percentuais, sem dizer, porém, quais seriam os corretos: o orçamento informado pelo ministério soma o orçamento da pasta com verba do Financiamento Estudantil (Fies, da Caixa) e do salário-educação.
Ao todo, desde 2003, o país ganhou 117 campus e o número de vagas foi de 109,2 mil para 222,4 mil em 2010.
Porém, a relação da função “educação superior” no orçamento federal em relação ao PIB também não cresceu: de cerca de 0,46% em 2003, foi para 0,4% em 2008, diz o estudo.
“São anos de abandono”
A criação de novas universidades pelo governo faz parte do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), programa de ampliação do ensino superior que inclui também a expansão de universidades já existentes. Para participar, as universidades pactuam metas de aumento de número de vagas, algumas vezes sem condições de cumpri-las.
Da primeira turma de Relações Internacionais, Tomaz Soares fez vestibular achando que teria aulas no campus da Praia Vermelha, Zona Sul do Rio. Dias antes do início do período, descobriu que as aulas seriam numa sala do Centro de Ciências da Saúde, no Fundão. No começo deste ano, começou a ter aulas no Centro.
– Esperava uma faculdade de excelência, mas parece que a UFRJ vive mais de nome – diz Tomaz.
Para Pablo César Benetti, presidente da Comissão do Plano Diretor da UFRJ, que gerencia a execução das metas da universidade no Reuni, não oferecer um curso por gargalos de infraestrutura “é burrice”:
– Os alunos terem aula no Fundão não é problema. Eles podem consultar bibliotecas na Praia Vermelha e no Centro. A universidade não é uma unidade isolada. Querer uma sala mostra mentalidade tacanha.
Segundo Benetti, a UFRJ recebeu, para o biênio 2009-2010, R$ 117 milhões para investir em obras e equipamentos, incluindo laboratórios didáticos de informática, compra de veículos para ronda e mobiliário: – Nunca tivemos tanto dinheiro.
Para Claudio Antonio Tonegutti, do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), as universidades não querem abrir mão do dinheiro e das vagas de concurso do Reuni, e por isso dizem que cumprirão metas não factíveis:
 – As metas têm de ser cumpridas de 2008 a 2011, é uma expansão rápida demais para estruturas já tão complicadas.
Reuni à parte, a UFRJ continua com problemas antigos, como a insegurança no Fundão, que, em 2009, teve 30 casos registrados de furto, 11 de roubo, um estupro e dois seqüestros relâmpago. Com a mesma extensão de Ipanema e Leblon, o campus conta só com quatro carros da PM – Ipanema e Leblon têm cem PMs em seu entorno -, além de seis veículos e de 70 vigilantes da universidade.
Na tarde da última terça-feira, no subsolo do Centro de Ciências da Saúde, não havia vigilantes. Foi no subsolo onde, em 2009, uma professora e alunas de nutrição foram assaltadas por um homem armado.
– Os corredores são isolados. Depois das 17h nem gosto de andar muito por aqui – diz Alessandra Siqueira, do 5operíodo de nutrição.
Outro problema de infraestrutura no Fundão é o alojamento de estudantes, hoje com 500 vagas. Prefeito da UFRJ, Hélio de Mattos reconhece os problemas: – São anos de abandono. O prédio está condenado.
O prédio do Hospital do Fundão também não está muito melhor: no fim de junho, uma ala foi interditada devido a um abalo em dois pilares.
Parte das enfermarias do 8oao 11oandar está sem funcionar até hoje.
– Temos um hospital enorme e leitos vazios. Nas aulas, muitas vezes 30 alunos ficam ao redor de um só paciente – conta Ricardo Rebelo, do 5operíodo de medicina.
– Não espero ver o anexo da Central de Produção Multimídia pronto antes de me formar – diz Kenzo Soares, aluno do 3º período de comunicação.
(*) Reportagem em O Globo (11/07) realizada por Alessandra Duarte e Carolina Benevides.

4 comentários sobre “Texto submetido a O Globo”

  1. Pingback: Tweets that mention :: Fazendo Media: a média que a mídia faz :: » Texto submetido a O Globo -- Topsy.com

  2. Toda esta tentativa de rebaixar a educaçao pública e gratuita em nosso país, tem a mao do império do norte e seu agente n0 1 no Brasil: a corja globo, com certeza!
    Para isso eles tem os congressistas lobistas bem pagos e a sua mídia golpista.
    Fazem tudo que podem para barrar o desenvolvimento desta grande naçao, porque sabem que a educaçao é o caminho e se crescermos, perderao a colonia …
    Parabéns à UFRJ!!!

  3. Com certeza, iniciar uma matéria criticando o presidente Lula – em plena campanha eleitoral – e essa critica vindo do Grupo Globo, é realmente duvido as reais intenções.
    Não conheço a UFRJ, mas diga-se de passagem que grande parte do elenco da TV Globo, formou-se lá na UFRJ, não custa lembra que O ensino superior criou destaque no governo lula…. não digo que FHC não foi bom… ele é o Cara, podemos chama-lo de autor do Plano Real, o plano que fez o Brasil decolar… Porque o Grupo Globo, não procura os méritos dos outros governos? – Globo o povo brasileiro mudou, abaixo o imperialismo, a ditadura e o capitalismo…
    A Propósito.. cuidado com a Mulher… heee.. um mundo é delas….

  4. É muito difícil confiar no que diz qualquer meio de informação controlado pela Globo. Mas, nesta ocasião, o jornal está certo. Caso duvidem, perguntem aos estudantes do fundão. Pois eles sabem muito bem o que está sendo dito. Quanto ao fato de querer manchar a imagem da UFRJ para que ocorra uma evasão para as universidades pagas, isso realmente pode ocorrer. Alguns acontecimentos no Fundão realmente assustam.

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