Sociedades não capitalistas

Robert Kabas, Meio ambiente, 1982

Se o socialismo real foi autoritário e destruiu a natureza, isso não invalida a crítica de Marx; ao contrário, seus últimos escritos mostram que crescimento ilimitado em planeta finito é a verdadeira armadilha.

 

 

POR Kohei Saito* / A Terra é Redonda, 25/03/2026

Como um marxista, eu tenho buscado considerar a potencialidade do comunismo, no qual qualquer um consiga viver liberto e feliz, superando o “capitalismo” que tem se empenhado na destruição exaustiva do meio ambiente e da sociedade.

Será que o socialismo é realmente pior?

Me parece que realmente existem muitas pessoas que têm uma imagem negativa do Karl Marx ou do comunismo. Um exemplo disso é que eu deixei escrito no meu perfil do Twitter o termo “marxista” e aqueles que veem isso questionam: “será que ele é uma pessoa perigosa?”

Agora, ninguém sequer pensa sobre isso se estiver escrito no perfil algo como “empreendedor” ou “CEO”. Provavelmente pensaria “Ah, tá.” e fim de papo. Ainda assim, caso conste termos como “marxista” ou “de esquerda”, alguém pode acabar pensando: “esse aí não é um cara meio perigoso?”.

Contudo, não é como se eu não compreendesse os sentimentos daqueles que pensam assim. Isso porque há imagens ditatoriais atreladas a, por exemplo, o Stalin da União Soviética e o Partido Comunista Chinês e, ao considerar os movimentos de esquerda, realmente houve também incidentes como os massacres nos movimentos estudantis do passado.[1]

Na verdade, ao ponderar se a experiência socialista da União Soviética foi algo bom ou não, eu, particularmente, também acho que foi terrível. A da China e da Coreia do Norte também são ruins. A sociedade japonesa é, de longe, melhor.

Portanto, é claro que isso não significa que eu queira recriar a União Soviética na atualidade.

Ainda assim, existem duas razões para eu estar propositalmente chamando a atenção para a necessidade do socialismo ou do comunismo.

A primeira é que a União Soviética e a China, ao invés de socialistas, são exemplos de um capitalismo sob um modelo de liderança de Estado e por burocratas. Por isso que eu gostaria que compreendessem que, enxergá-los como socialistas é, por si só, um erro. Na realidade, o comunismo concebido por Marx retrata uma sociedade completamente distinta da URSS e da China.

A outra razão, que também se relaciona à imagem mencionada anteriormente, é que ao considerar a União Soviética ou a China como as únicas propostas de alternativa ao capitalismo, nós perdemos a habilidade de imaginar “sociedades não capitalistas”.

Em resumo, o que eu gostaria que considerassem é a possibilidade de que, em decorrência do estereótipo de que “o socialismo é pior”, estamos sendo levados a pensar que “o que nos resta, então, é o capitalismo”. Ao acreditar que “marxismo ou socialismo são perigosos”, é natural que acabemos desenvolvendo uma mentalidade que considere que “o Japão é o melhor!” ou ainda que “temos que ser como os Estados Unidos!”.

Mas será que o Japão é realmente melhor? Mesmo havendo tantas desigualdades e injustiças? No momento, até a democracia está sendo ameaçada. Sobretudo, seria bom pensarmos que embora haja tanto avanço tecnológico, há ainda a possibilidade de existir uma sociedade mais igualitária e livre. Marx é, então, justamente aquele que nos dá esta dica.

Questões que estão surgindo por causa do capitalismo

Os problemas que estão surgindo atualmente por causa do capitalismo são divididos em duas grandes questões. A primeira é o fato de as desigualdades acabarem se expandindo massivamente.

É particularmente notável nos EUA, onde uma parcela de pessoas bem-sucedidas, como Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Elon Musk, possuem um patrimônio gigantesco. Isso porque eles circulam em jatos particulares e possuem mansões em várias partes do mundo. Eles estão inclusive tentando ir ao espaço, né? Mesmo com a pandemia do Coronavírus, a fortuna deles só vem aumentando cada vez mais.

Por outro lado, há muitas pessoas no Japão, nos Estados Unidos e em outros países que, devido à pandemia do Coronavírus, foram forçadas a viver na dificuldade, perdendo seus empregos ou levadas à condição de moradores de rua de uma hora para a outra.

Mesmo não estando em tal condição, ainda com nossos empregos e tendo a garantia do básico (alimentação, moradia e vestuário), não podemos dizer que possuímos grandes riquezas. Mês a mês, pagamos nosso aluguel, pagamos nossas contas de telefone, e se saímos algumas vezes para beber, nossa carteira fica às moscas. Não estaríamos apenas vivendo no sufoco? Somos forçados a encarar longas jornadas de trabalho, independente de estarmos trabalhando freneticamente com a insegurança de não saber quando seremos demitidos. A questão é se está tudo bem uma sociedade de merda assim.

A outra crise que temos é o problema do agravamento das mudanças climáticas. Caso as mudanças climáticas continuem avançando no ritmo que estão, as anomalias no clima que têm sucedido atualmente no mundo não serão somente os desastres naturais como incêndios florestais e enchentes, mas também causarão a escassez de água e crises no abastecimento de comida, além de impulsionar problemas migratórios.

Devem surgir grandes mudanças ambientais que se tornarão, literalmente, uma questão de vida ou morte para as gerações mais jovens e para aqueles que vivem em países emergentes. A questão das mudanças climáticas chegou a um ponto que nós realmente não temos mais tempo a perder.

Eis aqui também onde os problemas de disparidade econômica estão escondidos.

Os ricos têm utilizado uma grande quantidade de energia, recursos etc. para usufruir de uma vida de luxo e comodidade. Um exemplo disso é que para uma pessoa viajar sozinha em um jato particular, é usada em vão uma quantidade enorme de combustível para colocar um pedaço de ferro no ar. É natural que ocorra um grande desperdício de energia na busca pelo “conforto” por aqueles que “podem ter o que querem”. Entretanto, eles praticamente não são afetados pelos efeitos das mudanças climáticas. As vítimas são sempre os mais pobres.

Portanto, se não criarmos uma sociedade mais sustentável e mais igualitária, nossa vida acabará sendo ameaçada por causa dos mais ricos. A estrutura do capitalismo, que tem viabilizado que os ricos fiquem ainda mais ricos enquanto sacrificam o planeta, está chegando ao seu “limite”.

A questão da crise ambiental e a questão das desigualdades estão intimamente ligadas, e o fato delas estarem atreladas às falhas do capitalismo me fazem pensar que talvez todos já tenham certa consciência disso. Acredito que mesmo no Japão tem aumentado o sentimento de querer transicionar para uma nova sociedade.

A União Soviética não é um modelo socialista

Reitero que não estou de modo algum querendo dizer que a União Soviética era melhor. Antes de mais nada, quais seriam então os problemas da URSS ou da China? A compreensão que ambas tinham de Marx era mais ou menos a seguinte:

Em primeiro lugar, para que coletivamente haja um crescimento econômico contínuo, promove-se uma renovação tecnológica e aumenta-se a força de produção. Todavia, sob o capitalismo, toda a riqueza produzida à grande esforço acaba monopolizada pelos capitalistas, com os trabalhadores permanecendo na pobreza. Então, se a classe capitalista fosse extinguida por meio de uma revolução, seria possível compartilhar a riqueza da sociedade entre todos, possibilitando que qualquer um tenha uma vida afortunada.

Bem, é justamente por essa razão que a União Soviética e a China tiveram a plena intenção de desenvolver tecnologias e elevar a força de produção. Entretanto, dizer que somente isso as tornam socialistas é uma ilusão.

Em prol de uma vida que restrinja problemas como a fome e as doenças, é natural ser necessário um certo nível de crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico.

Contudo, visar apenas o crescimento econômico faz com que a classe trabalhadora seja explorada e que o meio ambiente seja massivamente destruído. Sob o lema antiestadunidense “queda dos capitalistas”, tanto os humanos quanto a natureza se tornam vítimas. Na realidade, comparado aos Estados Unidos ou ao Japão, na União Soviética ocorriam questões mais acentuadas relacionadas aos direitos humanos, bem como à destruição ambiental.

Então, por que ocorreram tais questões? Isso se deve ao fato de que a União Soviética não era um modelo “socialista”. O que estava sendo feito e que resultou em uma armadilha ilusória de que “por hora, vamos crescer economicamente, aumentando a força de produção”, não era muito diferente do capitalismo. Mas, o que ocorreu foi somente uma alteração do controle dos capitalistas para o dos burocratas.

Isto é um modelo de sociedade completamente distinto do que eu tenho em vista. É justamente agora, com a queda da União Soviética e com o capitalismo destruindo o meio ambiente do planeta, que nós devemos retornar novamente aos estudos de Marx para resolvermos os problemas do capitalismo.

As soluções dos problemas causados pelo capitalismo têm sido observadas a partir da leitura dos Cadernos de pesquisas” de Karl Marx. O trabalho mais famoso de Marx é O capital; contudo, esta obra não está finalizada. Marx continuou a pesquisar até os últimos momentos de sua vida, mas seus estudos permaneceram inacabados. É por isso que, se quisermos conhecer os pensamentos de Marx nos seus últimos anos de vida, é imprescindível a leitura de seus cadernos de pesquisa, porque neles encontramos diversas menções acerca das ciências naturais.

Em meu primeiro livro, intitulado Antes do dilúvio: Marx e o metabolismo planetário, analisei esses cadernos e compreendi que Marx, em seus últimos anos de vida, se voltou em especial aos problemas ambientais. Ele claramente crítica que, focar somente no desenvolvimento tecnológico em prol do aumento de lucro sob uma “expansão capitalista”, faz com que a classe trabalhadora seja cada vez mais subjugada e que o meio ambiente seja devastado.

Resolução conjunta das “desigualdades” e dos “problemas ambientais”

Vamos tentar realocar essas críticas para os dias atuais. Dizem que atualmente estamos na era do “Antropoceno”. Antropoceno é um conceito da geologia que aponta para o período em que as atividades econômicas da humanidade passaram a impactar o clima do planeta, seu ecossistema e afins.

Como resultado do capitalismo que visou sobretudo o crescimento econômico, a humanidade passou a alterar fundamentalmente as bases existenciais do planeta, e agora estamos pagando na mesma moeda através de mudanças climáticas, pandemias e demais adversidades.

O que Karl Marx pensava em seus últimos anos de vida era que a crise no capitalismo, que busca um crescimento econômico ilimitado sob um planeta de recursos limitados, não pode ser solucionada.

A respeito disso, Marx enfrentou esta questão da seguinte forma: em linhas gerais, é necessário buscar um caminho que resolva simultaneamente “desigualdades” e “problemas ambientais”.

Talvez seja possível resolver apenas uma dessas questões. Por exemplo, ao tentar liquidar o problema das desigualdades, pode haver a possibilidade de se buscar um crescimento econômico a partir do aumento da produção e do consumo em massa, certo? Contudo, o que aconteceria se isso fosse feito? A natureza não suportaria o ritmo acelerado de produção e consumo, e o meio ambiente acabaria sendo destruído.

Portanto, a menos que sejam resolvidos simultaneamente os problemas das “desigualdades” e do “meio ambiente”, não será possível superar a crise do colapso da civilização.

*Kohei Saito é professor da Universidade de Tóquio. Autor, entre outros livros, de O capital no Antropoceno (Boitempo) [https://amzn.to/3Cajluh].

Tradução: Alexandre da Silva Teles dos Santos & Isabela Batista de Lima.

Publicado originalmente no portal Toyo Keizai [https://toyokeizai.net/articles/-/621240].

Nota dos tradutores


[1] O autor se refere ao Uchi-geba, que foram episódios de ataques e assassinatos que ocorreram entre grupos estudantis de esquerda no Japão entre o final da década de 1960 até a década de 1970.

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