Relato das Jornadas da XVI Semana Teológica Pe. José Comblin

Imagem: Teologia Nordeste / Grupos Kairós e Comblin

Em mais uma edição da anual, em homenagem à memória do Pe. José Comblin, realizamos, no último 22 de Agosto de 2026, a sessão de encerramento da XVI Semana Teológica Pe. José Comblin (XVI STPJC), sob o tema Discipulado de Iguais x Patriarcalismo/Clericalismo: Contribuições de Agostinha Vieira de Melo, Elisabeth Schüssler Fiorenza e José Comblin.

Desdobrada em dois momentos distintos – um no campo e outro na cidade –, a XVI STPJC realizou a primeira jornada no dia 06 de junho, no Centro de Formação Pe. José Comblin, em Café do Vento, e a segunda, marcadamente de encerramento, na Casa dos Sonhos, em Várzea Nova, Santa Rita.

Momentos iniciais

Estiveram presentes na sessão de encerramento, além de convidados, membros dos grupos fomentadores das Semanas Teológicas – grupos Comblin, Kairós, CEBI, CPT –, entre os quais, Judith, Hemínio, Alder, João Batista, Elenilson, Tânia, Glória, Edna, Inês, Cida, Pe. Gabriele, Denis (de Cruz do Espírito Santo) e Thiago (missionário da Fraternidade Maryknoll).

Dinâmica do evento

O evento, recepcionado pela Ir. Judith, no precioso espaço da Casa dos Sonhos, contou com um café da manhã compartilhado e teve a acolhida de boas-vindas conduzida por Aparecida, do grupo Kairós, ao som da canção “Tudo está interligado” (inspirada na encíclica “Laudato Si”, lançada por ocasião da Campanha da Fraternidade de 2016). Na sequência, uma roda de apresentação possibilitou a identificação dos presentes. A mística, guiada por Glória, do Kairós/CEBI, teve no centro da reflexão o Evangelho de Lucas – “A mulher na casa de fariseu” (Lc 7, 36-50). Após a leitura, a reflexão girou em torno “dessa mulher” anônima, apontada como “pecadora”, carregada de predicados pejorativos também quando citada em outros evangelistas – “ousada”, “prostituta”, “mulher de má fama”.

Mas, quem é essa mulher?

João Batista, do grupo Comblin, inicia a reflexão instigando ainda mais a provocação para o entendimento sobre “essa mulher”: Quem é? Qual a sua idade? Qual a sua origem? Quais pecados cometeu? Se era pecadora, como entrou ou quem permitiu que entrasse na casa de fariseu? O que era considerado “pecado” ante a Torá ou pela sociedade da época? Seguindo a linha de raciocínio, Glória pergunta: Quais as pessoas que eram tidas como pecadoras da época de Jesus? E refletindo sobre quais “corpos” são passíveis de “pecado”, questiona: Que lugar nosso “corpo” ocupa nas pastorais, na leitura popular da Bíblia, nos movimentos sociais, na vida cotidiana?” E tratando-se de um “corpo de mulher”, Edna, do CEBI, nos lembra o quanto a narrativa bíblica contribuiu para a construção do estereótipo “esse tipo de mulher”, corpos que se matam diariamente… Judite, voltando ao Evangelho e à manifestação de amor – ao que fez, e o que não fez, a mulher em casa de fariseu –, retoma a dimensão da natureza e da sabedoria humana. Por fim, Pe. Gabrielly nos lembra que foi de tamanha demonstração de amor que fora proclamado: “Onde quer que chegue o evangelho, ela será lembrada” (cf. Mc 14.3-9).

Celebrou-se o fim desse momento reflexivo com uma leitura do livro da Sabedoria (Sabedoria 7,22-25.27-30).

A mulher em Comblin

Dando continuidade à programação do dia, Cida fez a memória da primeira jornada e, em seguida, convidou Alder a compartilhar as contribuições de José Comblin a partir de um capítulo do seu livro “Vocação para a Liberdade”, que trata das Beguinas. Na ocasião, Alder apresentou a importância das beguinas naquele contexto histórico e destacou alguns dos principais nomes do Movimento: – Maria de Oignies (1177-1213): Considerada a pioneira e inspiradora do movimento beguinal na Bélgica; – Marguerite Porete (c.1250-1310): Mística francesa e autora de “O Espelho das Almas Simples”, queimada na fogueira em 1310 por acusações de heresia; – Hadewijch de Antuérpia (séc. XIII): Poetisa e mística de Antuérpia, famosa por suas cartas e visões sobre o amor divino; – Matilde de Magdeburgo (c.1207-1282): Mística alemã, poeta e autora da obra “A Luz Fluente da Divindade”; – Beatriz de Nazaré (1200-1268): Prioresa e escritora mística flamenga, autora do tratado “Sete Maneiras de Amor Santo”.

Esse momento suscitou reflexões sobre o papel e o lugar das mulheres, de ontem e de hoje, empenhadas nos serviços da causa do Reino de Deus, em prol do bem-comum, junto aos mais necessitados, na sociedade e/ou nas pastorais. Glória, nos lembra que precisamos ter em mente “o que significa ser discípula e discípulo de Jesus, nos dias de hoje.” Fazer parte desse movimento de partilha, colaboração, doação, “muda algo em nossas vidas?” Para Edna, revisitar o papel e o lugar dessas mulheres do passado, e repensar essa experiência nos dias de hoje, significa “investir no perfil das beguinas e na potência de sua relação com o sagrado – de cor, de corpo, de alma.” Edna nos lembra das místicas de hoje, de suas rezas, seus credos, de suas vidas comunitárias…

A maioria silenciosa [silenciada] começa a falar

Na sequência das atividades, sugeriu-se uma leitura compartilhada do texto “A maioria silenciosa [silenciada] começa a falar”, de Elizabeth Fiorenza, sobre o qual foram compartilhadas instigantes reflexões.

Assim como na primeira jornada, também aqui, buscamos esse diálogo entre José Comblin, que nos apresenta as “beguinas” (mulheres da Idade Média que se destacam por sua espiritualidade vivida na experiência e na convivência com os pobres de sua época), e as teólogas e missionárias Elizabeth Schüssler Fiorenza e Agostinha Vieira de Melo, as quais, cada uma ao seu modo, sendo exemplo de vida e de escolhas, centradas no serviço e na promoção da causa das mulheres seja na Igreja, seja na sociedade, dão margem ao entendimento de que somos todas e todos convidados a formarmos um grande “discipulado de iguais”.

Ao lembrar da relação de amizade entre Ir. Agostinha e Pe. Comblin, Alder recordou o poema “Apressador de Urgência”, de Agostinha Vieira de Melo, publicado no livro A Esperança dos Pobres Vive, de Padre José Comblin. Como bem lembrou João Batista, a partir de suas anotações, “Alder fez questão de enfatizar a importância da Ir. Agostinha a partir de sua experiência concreta de Religiosas inseridas nas periferias e nas lutas populares”.

Certamente, não se tinha respostas para tantos questionamentos, e os desafios permanecem. Pe. Hermínio, nos lembrou que “precisamos de uma nova teologia”. Para avançar, disse Alder, é preciso dar “passos efetivos para a passagem de uma espiritualidade eclesiocêntrica, para uma espiritualidade reinocêntrica”. E Judite complementa, “é preciso migrar a atual concepção de Igreja, para apostar no Reino”. Alder indicou o livro “Espiritualidade da Libertação”, de Pedro Casaldáliga e José Maria Vigil, como sugestão de aprofundamento.

– Que instigações mais fortes podemos recolher desta edição da XVI STPJC/2026?

Os preparativos e a vivência das duas jornadas – a do Centro de Formação PJC, em Café do Vento, e a da Casa dos Sonhos, em Várzea Nova – nos trouxeram reflexões e debates provocadores. As pessoas que participaram de uma e/ou de outra saíram marcadas intensamente, não apenas pelo tamanho dos desafios à nossa frente, mas também e sobretudo pela disposição de fazer a nossa parte, no chão do cotidiano, quer no âmbito da sociedade, quer no plano eclesial, sempre em busca de dar razão à nossa Esperança. Com efeito, os textos lidos e debatidos suscitaram fecundo debate provocado pelos questionamentos levantados, seja por José Comblin, seja pelas teólogas Agostinha Vieira de Melo (1926-2016) e Elizabeth Schüssler Fiorenza (1938 – ).

Da parte de José Comblin, por exemplo, continuam ressoando suas provocações feitas a partir da revisitação do movimento das Beguinas, que nos inspirou a fazer valiosas aproximações com as experiências das Religiosas Inseridas no Meio Popular. Revisitação que nos instiga a perceber melhor os caminhos atuais de resistência e de enfrentamento ao sistema patriarcal e clericalista, em busca de ensaiar veredas do Discipulado de Iguais.

No caso de Agostinha Vieira de Melo, cujo centenário estamos a comemorar, seguem calando fundo em nossas almas seus poemas e reflexões bíblicas a inspirar ânimo e ousadia na construção cotidiana da Tradição de Jesus, do Discipulado de Iguais. Igualmente, em Elizabeth Schüssler Fiorenza encontramos ternura e vigor para seguir apostando na construção de alternativas, tanto na sociedade quanto nas Igrejas cristãs, aos profundos estragos da tradição patriarcal/clericalista, hoje abertamente hegemônica, de tal modo que esta autora, por diversas vezes, em seu livro, não hesita em alertar as atuais autoridades eclesiásticas do “pecado estrutural” em que permanecem, enquanto perdurar tal sistema patriarcal/clerical, a impedir o ensaio de passos em direção ao Discipulado de Iguais, de modo a reconhecer o direito das mulheres, de serem, junto aos homens sujeitos eclesiais.

Neste sentido, tendo em vista a crescente gravidade dos escândalos protagonizados por parte do clero, bem como a aliança da hierarquia eclesiástica com outras forças reacionárias da sociedade e de outras Igrejas cristãs, sentimos a necessidade cada vez maior de ensaiar passos orgânicos inspirados em uma Espiritualidade Reinocêntrica, marcada por uma relação ecumênica de base com figuras de outras denominações cristãs, bem como de outras expressões religiosas, em especial de matriz afro-indígena.

A guisa de conclusão

Após as discussões da segunda plenária, seguimos para os encaminhamentos finais da Semana Teológica. Glória conduziu a oração final e em seguida passou a palavra ao Pe. Hermínio para os informes. Ficou definido que em fevereiro faríamos uma reunião de avaliação e planejamento para as atividades do ano vindouro. Ainda desfrutando de poemas da Ir. Agostinha Vieira de Melo, aproveitou-se para convidar os presentes a participarem das atividades comemorativas de seu centenário cuja comemoração será encerrada em outubro próximo.

Ao fim, porém não menos importante, queremos deixar registrado nossos sinceros agradecimentos às pessoas que, naquela ocasião, gentilmente contribuíram na preparação da merenda servida.

João Pessoa, setembro de 2026

Colaboração dos Grupos Kairós e Comblin

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