Um país é muita gente. Muita gente mesmo, inclusive gente que pode nem saber o que seja um país
Gente tão diversa e contraditória que nem pareceria que sejam de um mesmo país, ou do mesmo país
E não é que é assim mesmo?
Para quem tenha alguma atenção a si e à vida
Logo em seguida irá se tornar evidente, se é que já não está refulgente
O sentido destas palavras
Que país é este?*
Num tempo eu julgava que país era o de fora.
O estado, a nação, o que vinha de fora. O que tentavam me impor ou de fato tinha que acatar
Depois fui vendo que era mais o de dentro, o que eu devia tentar ir protegendo e construindo para poder sobreviver e seguir adiante
Hoje me toca ver que o de dentro é o que prevalece no meio a um fora que nem sempre é benigno nem benevolente sem, no entanto, ser sempre hostil ou agressivo
Toca-me ver e sentir, perceber e avaliar, como quem está chegando ver o que é, ver o que há
Nesta brincadeira vim pro Brasil.
E por estas terras nasço e renasço no meio a um povo que continua a tentar vir à tona como eu que vim da Argentina
Perseguido por uma ditadura que transformou em delito o mero ato de existir insistir resistir na vida na arte na cultura na educação fazendo do país um lugar de todos(as)
A ditadura se foi ou a retiraram ou se retirou não sei, sei que a julgaram e condenaram e que me ficou a tarefa de me refazer tarefa que prossegue e não tem fim
Em fim o livro que dá título a estas anotações me alcançou no Rio de Janeiro lá pelo ano de 1980 e hoje volta e volta e meia volto também eu a o ler e reler e nele reler e ler o país que me acolheu.
Publico isto no sentimento de que a poesia segue sendo para mim independentemente de instrução ou nível educacional uma porta aberta à vida. Uma escuta que independe de quantos livros você leu mas tem tudo a ver com o que você é, o que você decidiu ser, o que fez para seguir vivo(a) e respirando vendo o sol nascer mais uma vez todo dia.
Fiz a minha vida em boa medida na academia, no espaço universitário, onde fui encontrando um espaço de existência resistência insistência que agora me resulta mais ameno já que agora me toca visitá-lo como alguém que como ao começo simplesmente exercita o mero direito de ser quem é e não de outra maneira. Espero que a universidade pública siga em pé. Espaço de cidadania mais do que meramente de formação profissional.
*A atualidade do poema e do livro de Affonso Romano de Sant´Anna é um sinal evidente da apertura que necessitamos para seguir sendo um país, não um quintal dos Estados Unidos.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
