Que no crepúsculo da vida / Se esqueceu de envelhecer

Arquivo de família

Meu grande amigo Gercino
Faz hoje noventa e dois
Não parece velho, pois
Tem memória de menino
Perspicaz, arguto, fino
Um filho do amanhecer
É o que tenho a dizer
De um homem sob medida
Que no crepúsculo da vida
Se esqueceu de envelhecer

É da paz um guardião
Seu viver é leve e franco
O cabelo todo branco
Qual capuchos de algodão
Atravessou o Jordão
E convertido hoje crer
Naquele que não se ver
Mas também não se duvida
Quem no crepúsculo da vida
Se esqueceu de envelhecer

Passou sua vida inteira
Sempre construindo sonhos
Rostos felizes, risonhos
Concreto na betoneira
Memorial, lapiseira
Estrada… até mais não ver
Até ponte routier
Projetou em sua lida
Quem no crepúsculo da vida
Se esqueceu de envelhecer

Gercino, quando solteiro
Do cinema, deu carona
Pra vizinha de poltrona
Que beijou o filme inteiro
E no trajeto ligeiro
Num gesto de estarrecer
Ela pediu pra descer
Na necrópole da saída
Assombrando quem na vida
Se esqueceu de envelhecer

Ao se lembrar dessa história
Irrompendo a noite fria
Eu penso que se arrepia
Rebuscando na memória
Aquela visão sensória
Quando a viu, logo ao descer
Ao cemitério acorrer
Como faz gente morrida
Assombrando quem na vida
Se esqueceu de envelhecer

E na casa dos afetos
A família, a descendência
Floresceu, ganhou essência
Quatro filhos, sete netos
Por enquanto, três bisnetos
E quantos mais possa haver
Quando o medo aparecer
É neles que tem guarida
Quem no crepúsculo da vida
Se esqueceu de envelhecer

Sobre ele versejar
É ter o poema pronto
Enredando ponto a ponto
Como se fora um tear
Como é bom comemorar
Cada novo renascer
De quem é luz e saber
Prudência em real medida
Que no crepúsculo da vida
Se esqueceu de envelhecer

Chega ao fim esta homenagem
Prelúdio pra logo mais
Quando abrirão nos anais
Este poema-bagagem
Da encantadora viagem
Que hoje fez reviver
Recordar, enaltecer
Uma estação já vivida
Por quem no outono da vida
Se esqueceu de envelhecer

Martim Assueros
22/03/2026

assuerosmartimg@gmail.com

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