
Recentemente vieram a público denúncias relacionadas ao envolvimento de grandes editoras de materiais didáticos utilizados na rede pública de ensino de SP e diversos estados do país em conluio com setores do agronegócio para mascarar a realidade sobre o uso de agrotóxicos, do desmatamento e da relação do agro com os casos de trabalho escravo no Brasil.
Ítalo Gimenes / Esquerda Diário, quinta-feira 5 de março de 2026
Em uma reportagem do jornal Aos Fatos, é revelado como os principais monopólios de ensino privado e donos de grandes editoras, como o grupo SOMOS Educação – que engloba as marcas Ática, Saraiva, Scipione, Anglo e Pitágoras – vem correspondendo aos ditames de lobistas ligados ao agronegócio para garantir uma imagem positiva do setor nos livros didáticos que são utilizados em SP. Trechos de materiais ligados a disciplinas de história, geografia, biologia são alvo de constante vigilância e pressão para que se adequem ao discurso do agro.
Ao entrevistar trabalhadores que foram parte da produção de livros didáticos dessas empresas, a reportagem mostra a pressão que os próprios formuladores desses materiais sofrem para alterar temas sensíveis ao agro, obrigados a substituir termos como “agrotóxicos” por “defensivos agrícolas” e falar dos seus benefícios na produtividade agrícola e de alimentos do país. Outros temas como o consumo de água, o trabalho escravo e o desmatamento, quando atribuídos ao agro, são submetidos ao escrutínio de agências vinculadas a entidades de representação do agro para que sejam citadas fontes diretas ou que sejam feitas alterações no conteúdo.
A agência mais conhecida e atuante nesse âmbito é a ONG Donme (De Olho no Material Escolar) que, conforme o Repórter Brasil, recebe financiamento direto de grandes associações como a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), de monopólios como JBS, Cargill, Cosan e Itaú BBAA, atua fiscalizando a produção dos materiais didáticos e pressionando editoras. Além disso, promovem palestras com setores da FIESP, da EMPRAPA, intelectuais de direita como Xico Graziano e Roberto Rodrigues – ex-ministro da agricultura de Michel Temer e ex-presidente da ABAG – para discutir como “combater a desinformação” e o “discurso anticientífico” nos materiais didáticos.
A política da extrema-direita e da direita tradicional de favorecer economicamente o agronegócio contribui ativamente para que seus interesses avancem em todas as áreas e até mesmo na educação. Em São Paulo, sob governo Tarcísio, os recentes ataques profundos aos professores e a educação do estado, com demissões, plataformização e outras medidas, caminha junto com a entrada desse tipo de livro didático nas escolas, enquanto o governador bolsonarista oferece descontos bilionários a grileiros e repasses financeiros vultuosos para fortalecer esse setor, como os R$600 milhões anunciados na Agrishow de 2025. Enquanto isso, nos interiores, onde o agro se faz mais presente, é onde mais se avança o projeto de militarização das escolas de Tarcísio, que se baseia no racismo, assédio sexual e controle dos alunos, uma pedagogia do opressor que fortalece a ideologia mais alinhada às práticas escravistas do agro.
O professor da Faculdade de Educação da USP, Daniel Cara, denuncia essa situação no âmbito do governo Lula. Atribui essa situação também às “concessões inadequadas” do governo ao agronegócio, inclusive dentro do Ministério da Educação. Nas suas palavras: “Pelo peso que o setor tem na economia brasileira, existe uma concessão que considero inadequada e precisa ser revista. Agora eles atuam diretamente nas empresas.”
Enquanto Tarcísio veta o debate de educação climática nas escolas de SP, negando conteúdos sobre aquecimento global e crise climática, garantindo por suas próprias vias que o agronegócio e outros setores burgueses não sejam questionados em sala de aula, o governo Federal dá espaço para o agro fortalecer seu lobby também na educação.
Em meio a demissão de mais de 40.000 professores no estado de SP, a plataformização do ensino, militarização das escolas e fechamento de salas de aula, fica cada vez mais claro qual é o ensino que vem passando junto desses ataques. Um ensino cada vez mais voltado ao trabalho precário e a criação de uma imagem de país sustentado pelo agro como algo positivo para o país. É parte das transformações das classes dominantes também neste estado, com cada vez maior peso do agro na economia paulista, se apoiando em Tarcísio para garantir que seus monopólios e aparelhos ideológicos influenciam cada vez mais o que os alunos vão aprender com seus livros didáticos.

Ítalo Gimenes
Doutorando em Ciências Sociais e militante do MRT
