O Levante: "somos a exceção"

Mimil à esquerda e Gas-PA do lado direito, com um grafite do educador Paulo Freire ao fundo. Foto: Reprodução.

Gas-PA e Mimil são integrantes do grupo O Levante, do Rio de Janeiro,  e fazem parte do Coletivo de Hip-Hop Lutarmada,  uma união de artistas e militantes do que classificam como hip-hop comunista, combativo e contra-hegemônico. Numa entrevista ao Central Hip-Hop/BF, a dupla fala sobre o seu segundo CD, intitulado Estado de Direito, Estado de Direita (o primeiro é o álbum Temeremos Mais a Miséria do Que a Morte) e abordam, entre outros temas, a situação da militância atual do hip-hop.
Central Hip-Hop (CHH): O grupo prioriza o discurso politizado, mas a estética instrumental tambem é levada em conta?
Mimil:
É levada em conta, sim. Não adianta só ter um discurso politizado se o som não atrai ouvintes.
Gas-PA: Lógico que é. O que pode se colocar em dscussão é: pra quem? Pra nós e pra mais uma porrada de gente nesse Brasil afora, é uma estética agradável. Não adianta perguntar pra mim: por que vocês não fazem como o Dead Prez? Eu não gosto de Dead Prez. Gosto até da postura dos caras, mas não do som. E não vai adiantar me dizer que é para fazer rap como fulano ou beltrano, pois 95% do que existe hoje e eu tenho acesso, eu não gosto. Essa tal “evolução” no rep, esteticamente não me agradou e, no que tange ao conteúdo, me parece mais uma evolução de ré. Eu gosto do Facção Central, mas não vou também fazer como eles, pois eles são eles e nós somos nós. Não temos que fazer como ninguém. Vamos continuar fazendo como O Levante.
CHH: Como foi o processo de produção do CD?
Mimil: Foi um processo meio lento, não lembro exatamente quanto tempo levou, mas valeu a pena.
Gas-PA: Não lembro quanto tempo levou pra gravar, mas, no caso desse segundo CD, nós fomos para os estúdios já com as letras prontas e, como sempre fazemos, procuramos produzir bases que combinassem com as letras pra causar a emoção que queríamos provocar. E isso nós conseguimos atingir. É satisfatório pra mim, saber que as músicas que eram pra fazer chorar, provocaram o choro, que as que eram pra despertar a indignação, causaram. Até a música que era pra fazer rir, causou gargalhadas. É com isso que nos preocupamos quando vamos produzir. Não é dinheiro, não é glamour, não é prestígio e nem tapinha nas costas e aperto de mão de quem só quer disputar espaço no mercado cultural.
CHH: Quais são as influências musicais dos integrantes?
Gas-PA:
Pra mim, principalmente, o grupo Public Enemy. Depois deles vem uma lista quase interminável passando por Chico Buarque, Rage Against The Machine, Gil Scott-Heron, Victor Jara, Merdedez Sosa, Gonzaguinha e os artistas do funk e r&b dos anos 1960 e 1970. Sem esquecer aquele Racionais MCs lá dos anos 90.
Mimil: Facção Central, Realidade Cruel, A286, Inquérito e Raul Seixas.
CHH: Como trabalham a divulgação do CD?
Gas-PA:
Nos shows que a gente faz e através das entrevistas, pela internet, no corpo-a-corpo.
CHH: Como é o show do O Levante?
Mimil:
Pra mim é sempre emocionante cantar pra um público novo e geralmente é um show agitado. Dá pra ver que a mensagem é absorvida pelo pessoal.
Gas-PA: Posso garantir que não é do jeito que eu gostaria. Queria ter um DJ pra ser a nossa banda no palco. Mas, aqui no Rio, quase ninguém mais se interessa por esse que é o primeiro  elemento do hip-hop. Foi graças ao DJ que hoje existe tudo isso que conhecemos como hip-hop. Mas, quando o capitalismo se apropriou do hip-hop, no começo dos anos 90, ele conseguiu inverter os valores dentro do nosso movimento.
Steve Biko, em um texto lindíssimo sobre a cultura africana diz que, antes do contato forçado com o branco invasor, a música do nosso povo ancestral não era feita pra se cantar só. Era tudo grupal. E, assim era o rep quando eu o conheci. As grandes referências do rep internacional eram grupos e com DJs em destaque. Eram Public Enemy, Boogie Down Productions, DJ Jazzy Jeff & Fresh Prince, Erick B & Rakin, entre outros. No Brasil, eram Thaide e DJ Hum, Racionais MCs, Câmbio Negro. Todos com bons DJs. Hoje, um dos principais valores do capitalismo incorporado ao hip-hop foi o individualismo, fazendo com que as principais referências sejam, hoje, indivíduos, e não grupos. Por exemplo: O que um dia foi um N.W.A., virou cinco indivíduos em trabalhos solos. Os grandes nomes de hoje são Snoop Dogg, Ja Rule, 50 Cent, Jay-Z, e no Brasil, até o Thaide canta solo. Hoje não tem DJs de destaque pra molecada se espelhar. E isso tira bastante brilho dos nossos shows. Então, o que nos resta é botar as bases na mão do operador e botar muita paixão na hora de cantar. Quando cantamos pra militantes dos partidos e movimentos de esquerda é muito bom, a participação do público é grande. A galera se envolve legal.
CHH: A faixa “Faça a revolução ou morra lutando” é um contraponto ao “Fique rico ou morra tentado”, do rapper 50 Cent? Qual a principal ideia da música?
Mimil:
Bom a ideia é que ao invés de se lutar até a morte por uma coisa que beneficiaria apenas uma única pessoa, é bem melhor lutar pelo bem maior e assim pelo bem estar de um povo, o que é bem mais satisfatório.
Gas-PA: É isso ae mesmo. É denunciar o oportunismo e a mercantilização, a prostituição do hip-hop e mostrar que existem outras opções além de ficar rico ou morrer tentando. As personalidades que eu reverencio e que são reverenciadas no mundo todo não morreram tentando ficar ricos. Zumbi, Helenira Rezende, Che Guevara, Marighella, Zequinha, Lamarca, Mario Alves, Osvaldão, Iara Iavelberg, Fred Hempton, Steve Biko foram pessoas que morreram pelo bem coletivo, não pelo bem individual. Essas pessoas tinham sonhos mais ambiciosos do que todos esses que morrem tentando ficar ricos.
CHH: O Levante afirma: “o rap além de arte pode ser uma escola”. Qual o peso da arte no trabalho do grupo?
Gas-PA:
Bem, eu amo a arte. Eu sou muito sensível a ela. As artes do hip-hop me emocionam. Gosto mais da arte que trás agregada uma proposta de um mundo digno de se viver pra todos nós. E assim é a arte q eu faço.
Mimil: Bom, eu vejo a arte como uma forma de alcançar pessoas que não tem como estar no meio de militantes.
CHH: A faixa “Graças ao hip-hop” fala da transformação que o movimento causou na vida dos integrantes do grupo. Falem sobre essa fase.
Gas-PA:
Po**a, é uma agonia lembrar o que eu era antes do hip-hop! Aliás, só não chega a ser agonia mesmo porque eu entendo que foi uma fase e foi necessário passar por tudo aquilo pra ser quem hoje eu sou. Como eu digo em algumas letras, ele me trouxe sabedoria. O hábito da leitura pra expandir o meu campo de visão sobre o mundo em que vivo. O hip-hop trouxe identidade racial – mesmo com todo o racismo que me vitimava, através de piadas sobre meus lábios e cabelos, através da barragem que sofria na disputa por emprego, da dificuldade em estabelecer relações com meninas brancas. Eu pensava que era branco, até conhecer o hip-hop. O hip-hop me trouxe respeito. Até aquelas pessoas as quais eu me oponho politicamente – elas até discordam de mim -, mas me tem respeito. E isso quem me trouxe foi o hip-hop, numa época em que eu era desrespeitado principalmente por mim.
Mimil: Bom, graças ao hip-hop, eu posso dizer que eu mudei minha forma de ver o mundo e que me fez realmente gostar de música e também adquirir muito mais conhecimento.
CHH: Qual deve ser a relação entre rap e mídia?
Mimil:
No momento, é melhor se manter afastado. Sempre que o rap vai pra mídia, tem de mudar o discurso e deixar de ser politizado pra poder ser aceito. É bem melhor poder dizer o que realmente se pensa a ter que dizer o que querem que digamos.
Gas-PA: Pra mim isso depende do que se pretende com o rep. Se a pessoa tem o rap como veículo de ascensão social, vai lá e faz tudo o que eles querem. Vai lá e canta na festa de 40 anos da Globo. Vai lá e faz propaganda da Nike. Vai lá e tenta a carreira na arte cênica, no programa Malhação. Vai ser parceiro do RJTV. Vai pedir doação pro Criança Esperança. Vai fundo! Mas se o que se quer com o rep é dar a trilha sonora pra revolução, então não há razão pra se envolver com os veículos que estão a serviço do projeto político do inimigo. Eu já me f*di na mão deles até em programa ao vivo, o que eu, ingenuamente, achava impossível. Essa mídia burguesa e pequeno-burguesa nunca vai me dar espaço pra eu dizer o que tenho que dizer. Quero até aproveitar pra declarar o quanto estou impressionado com a postura do Central Hip-Hop por abrir esse espaço pra gente, como foi feito na matéria com o Spensy Pimentel. Dentro do universo hip-hop não é qualquer espaço que se abre pra esse tipo de proposta, não da forma respeitosa como foi feito até aqui. E me pareceu que essa é uma política de vocês. Quando eu vi que vocês se recusaram a tocar um som de um cara que fazia ataques pessoais contra outro MC, eu achei muito boa a atitude.
CHH: O grupo afirma: “rimar por rimar… o melhor é melhor calar”. O que O Levante pensa dos outros estilos de rap no Brasil?
Gas-PA:
Tem um verso do grupo Gíria Vermelha, que eu gosto muito de ouvir: “a arte pela arte para nós é surda e muda”. Quando alguém vai escrever uma letra e produzir uma base adequando-as as exigências do mercado, essa música perdeu toda a chance que tinha de ser sincera. Ela é falsa. É mentirosa. Ela não expressa um sentimento verdadeiro do seu criador. Eu não consigo ouvir. Temos que parar de hipocrisia. Se alguém entra pra política só pra fazer dinheiro. Se alguém vira líder religioso só por causa do dinheiro. Se alguém entra pra polícia pra poder enriquecer, geral chama logo e diz: “essas pessoas são corruptas”. Por que então os caras e as mulheres que fazem rep por dinheiro também não são chamados de corruptos? Corruptos são os outros, né? Nós somos profissionais. Tá bom, então!
Mimil: Os caras poderiam estar usando o talento que eles tem pra rimar pra passar uma mensagem ao povo ao invés de ficar rimando festinhas ou até mesmo provocando outros MCs pra poder ficar “famoso”. É mais produtivo tentar mudar a realidade miserável em que vivemos que ficar rimando pra alegrar ou pra provocar alguém.
CHH: Como está a militância no hip-hop hoje?
Mimil:
Pelo que se vê, não está muito forte. Mas tem muitas pessoas que ainda lutam pra poder manter o espírito da militância vivo dentro do hip-hop.
Gas-PA: Po**a, isso aí está triste! Hoje existe um hip-hop que conseguiu se organizar nacionalmente, mas todos sob influência de partidos de centro-direita (PCdoB e PT) e, no caso da CUFA – que eu acho ainda pior –, com aliança com qualquer governo. Até do DEM, como aconteceu aqui no Rio de Janeiro. O hip-hop brasileiro já foi vanguarda da juventude rebelde de periferia, e hoje come na mão dos governos. Virou quase tudo ONG. No Brasil, são Organizações Não Governamentais via governos. O resultado disso é possível ver na operação militar realizada no Alemão/Cruzeiro. Dei um rolé nos sites das organizações de hip-hop e nenhuma delas se pronunciou. Uma operação daquela importância e o hip-hop se calou. Se o hip-hop se pronunciasse em favor da favela, ficaria mal com o governo e, se se pronunciasse em favor do governo, ficaria mal com a favela. Nesse caso então, a omissão é a melhor saída pra quem tem rabo preso. O mais curioso foi o site da CUFA. Pra não passar em branco o Celso botou uma coletânea de recortes de entrevistas antigas de várias personalidades ligadas à arte ou a política, falando de segurança pública.
Mas isso não é de agora. Desde que o Lula começou a distribuir Pontos de Cultura, f**eu. O MHHOB aderiu à campanha Pense no Haiti. Zele pelo Haiti. Mas, segundo algumas de suas lideranças, eles aderiram à campanha, mesmo sendo contra a missão militar no Haiti. Em primeiro lugar, não queriam deixar o Nação sozinho nessa e perder a disputa por prestígio junto ao governo. Em segundo lugar, pra não se chocar com o governo e pôr em risco os kits dos Pontos de Cultura, que ainda não haviam recebido. Procurem “O que se passa no Haiti” no YouTube e vejam um pouco do tudo que o MV Bill não mostrou no Faustão sobre a missão militar que o Brasil comanda naquele país. Há quem diga que a violência que acontece lá é provocada por gangues. Mas, no vídeo, você pode ver crianças mortas dentro de casa por tiros que entraram pelo telhado, disparados por helicópteros. Então, precisa mesmo ser bem imbecil pra acreditar que as gangues tenham helicópteros no país mais miserável das Américas. No momento em que se discutia a entrada ou não do MHHOB nessa campanha, nós fazíamos algumas críticas ao governo Lula, e muitas vezes essas críticas eram respondidas com argumentos do tipo “nunca tivemos um presidente que desse atenção ao hip-hop, agora que temos um governo que nos dá ouvidos vocês vão criticar?”. Hoje, esse hip-hop se troca por uma foto e um aperto de mão!
Em 2005, o Lutarmada fez um evento pela retirada das tropas do Haiti e denunciou aqueles militares que foram pra lá. Os militares usavam o povo favelado haitiano como cobaia pra treinar operações em favelas. Pra atuar nos morros do Rio de Janeiro. Na época, muita gente riu de nós. Eis que na invasão do Alemão/Cruzeiro toda imprensa divulga que parte daqueles militares que participavam da operação esteve no Haiti. E não é só isso. Eles também estão habilitados pra atuarem na Tropa de Infantaria Leve, em Campinas. Em três horas, no máximo, eles se deslocam pra qualquer lugar do país onde esteja ocorrendo algum conflito político-social. Se quiserem podem rir de nós agora também…
O hip-hop no Brasil está bem militante, mas em prol do projeto do inimigo. Aqui no Rio foi fundado o IRA (Instituto Revolução pela Arte), filiado ao Nação. Esse nome parece o PRI [partido político] do México. No começo eu morri de rir, mas depois, é lógico, fiquei preocupado. Essa é a regra. A exceção somos nós e mais alguns poucos grupos espalhados pelo Brasil.
CHH: Quais grupos de rap brasileiro têm um discurso semelhante ao do Levante?
Gas-PA:
É f**a isso, pois a gente sempre esquece alguém, mas deixa eu ver aqui: Gíria Vermelha, Delirioblack, M19, PRC, Dialética, Bandeira Negra, Raphão, Mara Onijá, o infelizmente extinto Amandla, Liberdade e Revolução, Mano Zeu. Ouvi um dia desses uma musica do grupo Fúria Consciente, e achei interessante. E, pelo que pude ouvir de novo do Facção Central, acho que em algum tempo eles também estarão transitando pra esse rep assim mais combativo e apoiado no quinto elemento.
Mimil: Liberdade e Revolução, Giria Vermelha, M19, Facção Central.
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(*) Entrevista realizada por Dj Cortecertu, no blog Central Hip-Hop.

2 comentários sobre “O Levante: "somos a exceção"”

  1. Bom saber q ainda existem pessoas q lutam pelo bem comum. Adorei a entrevista. Vou aproveitar alguns trechos dela para minha dissertação de mestrado. Grande abraço.

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