O Hóspede de Sombras

Imagem gerada por Inteligência Artificial

Ela chega sem bater, sem pedir licença,
Vem de um lugar que o mapa não desenha.
Não é cansaço, não é mera descrença,
É uma névoa espessa que o olhar empenha.

Deságua em mim como um rio de chumbo,
Lento, pesado, tingindo o que era cor.
Tira o meu eixo, retira o meu rumo,
Transforma o pulsar em um vago ríctus de dor.

Sou o casulo de um bicho que morde,
Que rói a vontade e a fibra do querer.
Não há nota no piano que com ela acorde,
Pois ela silencia o que insiste em florescer.

Senhora de um reino de cinzas e poeira,
Ela se apossa das frestas do meu ser.
Faz da minha alma a sua última fronteira,
Onde o sol se põe… mas esquece de erguer.

 

AnnaLuciaGadelha
analuciagadelha.pb@gmail.com

2 comentários sobre “O Hóspede de Sombras”

  1. Um eu lírico triste, pesado. Uma realidade vista por um véu, uma fumaça densa. Algo escureceu as frestas dos diversos ângulos possíveis de serem explorados, a cortina se fechou mesmo que ela possa ser aberta e possível de enxergar a outra realidade. Parabéns pelo profundo poema!

  2. Um eu lírico deprimido mergulhado em uma névoa que cria um monstro devorador da realidade. Hóspede inoportuno feito daquelas sombras e egrégoras fomentadoras de ilusão. A cortina está fechada, o Sol não entra, a luz não passa. Sim, a cortina pode ser aberta a qualquer momento, o casulo pode ser rompido, mas a estranha névoa ou criatura invasora parece dominar a vontade. Ora, mas tal verdugo, rei da ilusão sombria, não domina nosso instinto de conservação. Versos profundos, parabéns pelo poema, talentosa poeta.

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