Interessante observar como o público ainda é absolutamente suscetível a estratégias de manipulação que apostam no (ultra)conservadorismo como ponto de partida para julgar determinados acontecimentos. Se assim não fosse, o teor de certas declarações pautadas pela mídia brasileira e internacional no que se refere ao caso do brasileiro Roberto Laudisio, morto por policiais australianos, em Sydney, no último dia 18, seria bem diferente.
Basta notar que, para além das manchetes de tabloides sensacionalistas australianos que se preocupavam tão somente em destacar que o jovem estava absolutamente drogado e descontrolado no momento em que sofreu os disparos de taser, um dos temas centrais abordados por autoridades e testemunhas locais e brasileiras em entrevistas a jornais de maior credibilidade era o fato de o rapaz ter ou não bom histórico comportamental; boa saúde financeira; se encontrava-se em situação legal no país e se estava ou não bêbado ou drogado à hora do acontecimento.
Ou seja, mais do que dar espaço ao questionamento da atuação da polícia australiana, a mídia (principalmente a australiana), de modo geral, privilegiou tais declarações, as quais, logicamente, desviam o foco da questão central: como podem policiais assassinar praticamente à queima roupa uma pessoa por ter supostamente roubado algo, seja de qual valor for? Será que a mesma conduta covarde teria sido empregada caso se tratasse de um australiano, em lugar de um sul-americano?
Em vez disso, fica a sensação de que a primeira medida que a família de Laudisio terá de tomar, não obstante a tragédia sofrida, será a de defender o rapaz em meio à chuva de boatos quanto a seu comportamento, deflagrada após a explosão do caso em toda a mídia australiana e brasileira.
É um disparate pensar que, caso o rapaz estivesse alterado quimicamente, isso seria motivo para que os policiais o matassem – dificilmente alguém discordaria disso. Contudo, não é difícil imaginar que muita gente, com base no fato de que usar entorpecentes pode gerar desequilíbrios comportamentais, admita, a priori, que o brasileiro provavelmente havia provocado a reação dos policiais – seja por haver, de fato, roubado o pacote de biscoitos (!) ou por estar perturbando a ordem pública.
Claro está, portanto, que tais questionamentos fazem parte da estratégia das autoridades australianas, que, ao desviar o foco da questão, procuram deixar em segundo plano um erro crasso do uso de sua força policial. E isso é, ao menos em parte, possível devido ao peso de preconceitos histórica e culturalmente construídos sobre o processo de formação da opinião do grande público.
O curioso é que tais visões pré-formatadas estão arraigadas nas cabeças mesmas de pessoas que, em muitos casos, já se drogaram ou se drogam eventualmente – seja com entorpecentes legais ou ilegais. Porém, quando o assunto envolve o outro e é abordado em público, a cobrança e a expectativa adotam como referencia valores que tendem ao tradicional “politicamente correto”. Nessas horas, a moral hipócrita, por mais distante que esteja da realidade dos próprios críticos, prevalece.
Não se discute a importância de modelos de conduta para a sociedade. Eles são fundamentais para manter um mínimo de ordenamento, permitindo o convívio de milhões de pessoas em algo próximo do que se entende por harmonia. Mas não se pode admitir que tais valores sejam tendenciosamente usados para avaliar a inocência ou culpa de uma pessoa em determinado caso.
Se a Justiça é cega, esta não pode se deixar levar por acusações de cunho religioso ou ideológico quaisquer. O clamor e as paixões populares não podem ir além das câmeras de TV.
No caso de Roberto Laudisio, se houver mobilização popular, isso deverá se limitar a protestos pela proibição do uso do taser por policiais, e não pela punição dos militares envolvidos. É lógico que um dos fatores que contribui para isso é o fato de que a parte prejudicada não é australiana – e, para piorar, nem europeia, nem americana. Mas o reacionarismo da opinião pública é um dos aspectos que poderão vir a contribuir para que a investigação em curso acabe em pizza.
