Há exatos 21 anos – em janeiro de 2004 –, escrevi nesta mesma revista um texto intitulado “Nós, os marcianos”, onde comparava alguns dados sobre a desigualdade no nosso planeta.
Tinha então 22 anos de idade, hoje rumo aos 43.
O mundo hoje, infelizmente, está muito pior do que em 2004.
Apesar do progresso em alguns países, a renda e a riqueza estão cada vez mais concentradas no topo, de acordo com as Nações Unidas. A parcela da renda que vai para o 1% mais rico da população aumentou em 59 de 100 países com dados de 1990 a 2015. Enquanto isso, os 40% mais pobres ganharam menos de 25% da renda em todos os 92 países com dados.
Isso até 2019. A pandemia piorou dramaticamente o cenário de desigualdade.
As cinco pessoas mais ricas do mundo mais que dobraram suas fortunas de US$ 405 bilhões para US$ 869 bilhões desde 2020 — a uma taxa de US$ 14 milhões por hora — enquanto quase cinco bilhões de pessoas ficaram mais pobres. Se as tendências atuais continuarem, o mundo terá seu primeiro trilionário em uma década, mas a pobreza não será erradicada por mais 229 anos, diz a Oxfam.
O mundo está enfrentando o maior número de conflitos violentos desde a Segunda Guerra Mundial (pelo menos 56), e 2 bilhões de pessoas — ou um quarto da humanidade — vivem em locais afetados por tais conflitos.
Os piores conflitos estão esquecidos pelas mídias — Sudão e República Democrática do Congo, por exemplo —, enquanto outros continuam sendo abastecidos pelas grandes potências. O presidente dos EUA, Joe Biden, anunciou já no fim do mandato uma ajuda militar adicional de US$ 8 bilhões ao seu aliado no Oriente Médio — o que corresponde a mais que o dobro do orçamento regular das Nações Unidas para todos os seus escritórios no mundo inteiro (US$ 3,7 bilhões).
Há de se ter esperança.
Mas aqui está o quadro de um mundo que já entrou na Terceira Guerra Mundial.
Assim como a nova dinâmica das comunicações nas redes, no entanto, o mundo é demasiadamente fragmentado para haver tal formulação sobre qualquer coisa ‘mundial’. Cada um olha apenas para sua bolha.
No texto mencionado, o jovem ‘eu’ do passado escreveu: “Por motivo desconhecido, o clima de Marte começou a mudar, a atmosfera enrareceu, uma parte da água se evaporou e o resto congelou, principalmente no subsolo. Será o prelúdio?”
Eu não quero mais acreditar nisso. Há uma luz no fim do túnel, pensa o ‘eu’ do presente. Mas nós, os marcianos, precisamos nos unir na luta por um mundo melhor para acender essa luz o mais rápido possível.
Jornalista, 44, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis em https://amzn.to/3ce8Y6h). Saiba mais: https://gustavobarreto.me/

