Muito além de preservar o verde

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No último dia 26 teve início o seminário “10 anos depois: desafios e propostas para um outro mundo possível”, uma das principais atividades do Fórum Social Mundial 2010 (FSM), organizada em quatro eixos temáticos: ambiental, econômico, político e social.
A mesa intitulada “A Conjuntura Ambiental Hoje” lotou a Usina do Gasômetro – local onde ocorreu a maior parte das atividades – e abordou a questão ambiental sob um ponto de vista mais amplo: o que se viu não foi aquele já conhecido discurso de “salve o verde”, mas sim, um rico debate que colocou o meio ambiente como foco das preocupações atuais e centro de convergência da economia, da política e das demais questões sociais.
Para o colombiano Hildebrando Vélez Galeano, essa mudança de abordagem só foi possível graças ao Fórum, já que esse é o espaço que o ambientalismo encontrou “a possibilidade de se apresentar como tema político, raiz da discussão social”. Para ele, o ambientalismo de hoje se propõe a ser um movimento social e precisa se engajar na luta pela soberania dos estados, usurpada pelo capitalismo. Hildebrando sentenciou: “a chave fundamental é a descolonização”.
Ainda pensando o ambiental enquanto instrumento de soberania dos povos, o peruano Roberto Espinoza lembrou que a população nunca é consultada quando se tem obras de grande impacto ambiental e social. Ele citou a construção da estrada que liga o Atlântico ao Pacífico, iniciada por Fernando Henrique Cardoso e continuada por Lula, como um projeto que não é do povo brasileiro, mas “de governos que buscam um imperialismo na América do Sul”. Espinoza esclareceu que não é contra a construção de estradas, mas que os povos precisam ser consultados e lançou uma pergunta: “Por que projetos neoliberais são levados adiante por governos progressistas?”
Antônio Marcos Carneiro também frisou a importância de se ouvir os povos do sul, propondo a valorização do conhecimento tradicional como forma de enfrentarmos a crise ambiental, nomeada por ele como “crise da modernidade” ou “crise civilizatória”. Mas Carneiro iniciou sua fala criticando a mídia: “O que me chama a atenção nesses 10 anos de Fórum é a abordagem da mídia local, uma parte dela por questões ideológicas, com o discurso de que o Fórum de Davos é o fórum da ação e aqui o da crítica, que não fazemos a construção desse mundo possível”.
O mediador do debate, professor Moacir Gadotti, resumiu a indignação de Carneiro : “Em Davos a questão ambiental foi minimizada, diferente daqui, que é o tema central. Lá, o que se pensa de ambiente é como usá-lo para salvar o sistema financeiro”. Foi muito aplaudido.
Muito aplaudida também foi Nicola Bullard. Ela trabalhou o conceito de “justiça climática” cobrando a responsabilização dos países poluidores, para que o Norte não siga poluindo enquanto o Sul “sofre o impacto desse modelo capitalista baseado na destruição dos recursos naturais”. Para ela, a proposta das grandes empresas poluidoras de um pouco menos de emissão de gases é um capitalismo verde, enquanto o mundo precisa de um ecosocialismo. “Precisamos de uma mudança no sistema. Temos que transformar, ao invés de simplesmente resistir” – afirmou.
Outra mulher que participou da mesa, mas que tratou a questão ambiental a partir das relações de trabalho e da segurança alimentar foi Adriana Mezadri, dirigente nacional do movimento de mulheres camponesas. Adriana denunciou as mortes no trabalho, num sistema em que só é considerado produtivo o trabalhador que corta mais de 10 toneladas de cana por dia; assim como o consumo de agrotóxicos que, segundo ela, já é de 7 kg por pessoa a cada ano.
A dirigente também ressaltou as discrepâncias no consumo energético: “somos um dos países com a maior base energética do mundo, mas o povo paga R$0,50/ Kw enquanto as transnacionais pagam R$ 0,03”. Para Adriana é necessário construir uma estratégia unificada de enfrentamento e usou a ação das mulheres da via campesina na Aracruz Celulose como exemplo.
Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST, resumiu a fala de seus antecessores, sendo muito aplaudido: “Não existe desenvolvimento sustentável sob a lógica do capital”. Gilmar chamou a atenção para a mercantilização da vida e o estímulo dos grandes veículos de comunicação ao consumo desenfreado. Sua grande preocupação é a de repensar as relações de trabalho, dando exemplo do trabalhador autônomo – que não tem direito de greve –, aqueles que trabalham por produtividade, e os jornalistas freelance. Para ele, o grande desafio hoje é formar uma nova militância, novas organizações que sejam ofensivas e não que busquem aqueles pequenos avanços já permitidos dentro da lógica do capital.
O debate, que durou mais de quatro horas, deixou claro que “questão ambiental” é um tema muito mais amplo que a idéia de preservação do verde.

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