Moradores de favelas fazem protesto em frente à Prefeitura do Rio

"Contra a covardia, em defesa da moradia", gritavam os manifestantes em frente à prefeitura. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
"Contra a covardia, em defesa da moradia!", gritaram os manifestantes em frente à prefeitura. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Cerca de 200 pessoas realizaram na manhã da última sexta-feira (30) um protesto em frente à sede da Prefeitura, no centro do Rio, contra a remoção dos moradores das comunidades que foram afetadas pelo temporal no início de abril. Várias lideranças falaram ao microfone, faixas foram estendidas e uma carta aberta foi distribuída com as reivindicações das comunidades. A Pastoral de Favelas organizou uma comissão com oito membros para dialogar com a prefeitura, que se comprometeu a recebê-los no dia 4 de maio.
O coordenador da Pastoral de Favelas, padre Luiz Antonio Pereira, lembrou que a entidade da qual faz parte foi criada após uma enchente na década de 1960 que abalou a cidade. Na ocasião, graças à resistência articulada, a comunidade do Vidigal, na zona sul do Rio, não foi removida.
“Nós estamos abrindo nossos espaços, a igreja tem sempre uma entrada muito maior dentro da sociedade. No ato temos pessoas de vários segmentos da sociedade e movimentos sociais, que juntos podem contribuir para a transformação dessa sociedade que privilegia os ricos e pune os mais pobres. A igreja tem sido um canal de mediação, criamos um conselho popular juntando essas entidades para defendermos o direito à moradia”, diz o Padre.
Ao centro da manifestação as lideranças apresentavam aos demais suas reivindicações. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
Ao centro da manifestação, diversas lideranças apresentaram as suas reivindicações. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

A Secretaria Municipal de Habitação informou, por meio de sua assessoria, que os moradores têm o direito de se manifestar e que ela não foi procurada pelos participantes do protesto.
“Os moradores têm a intenção de falar com o Prefeito, portanto não temos o que declarar. A Secretaria de Habitação está cumprindo o que foi determinado pela Prefeitura no pagamento do cheque social, com prioridade às comunidades que foram apresentadas pelos laudos da Geo-Rio como área de risco mais eminente”, declarou a Secretaria Municipal de Habitação.
O deputado federal Chico Alencar (PSol-RJ) esteve presente na manifestação e ressaltou a necessidade de se trabalhar uma reforma urbana no Rio de Janeiro. Segundo o deputado, é inaceitável que o prefeito faça um decreto removendo, inclusive à força policial se necessário, comunidades inteiras sem fazer outro decreto abrindo imóveis estocados e prédios esquecidos para a especulação imobiliária.
“Tem uma política dominante e ela é implementada por aqueles que chegam ao poder com claro apoio da especulação imobiliária, que está baseada numa visão excludente de cidade, reservando aos mais pobres os piores lugares. Esse ato, para o nível de hegemonia dessas forças paternalistas e dominantes, está bem representativo, pois há lideranças de diversas favelas que não estão se deixando seduzir pelos pagamentos. É preciso uma reforma urbana, política habitacional conseqüente, IPTU progressivo e radical sobre imóveis estocados. Há notícias de que só no centro do Rio há mais de 10 mil imóveis estocados”, observa Chico Alencar.
Mais de 15 comunidades estavam representadas no protesto, e a Rocinha foi uma delas. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
Mais de 15 comunidades estavam representadas no protesto, e a Rocinha foi uma delas. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

“Estamos dialogando com todo mundo. Agora, não vou ficar assistindo de cadeira ninguém morrer no próximo verão ou na próxima chuva. Então, sei que não é simples, sei que é duro, mas estamos dando toda a atenção, todo o cuidado e dignidade, viabilizando casa ou pagando Aluguel Social. Aqui no Rio de Janeiro não temos problema de Aluguel Social ou de gente desabrigada sem a atenção da Prefeitura. Agora, passada a chuva, a gente não pode esquecer das famílias que morreram. É duro mudar de lugar? É. Mas é mais duro ainda perder um filho. Casa a gente arruma outra, mas nossos parentes e amigos são insubstituíveis”, afirmou o prefeito Eduardo Paes, por meio de sua assessoria.
Diversas entidades compareceram à manifestação em apoio aos moradores das comunidades, dentre elas o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e a Frente Internacionalista dos Sem Teto (FIST), além de alguns parlamentares e diversas lideranças de comunidades e associações de bairros.
“A remoção é arbitraria, porque eles podem fazer uma área de encostas nas comunidades, é por isso que nós estamos aqui nesse movimento para buscar o nosso objetivo de permanecer na comunidade. No caso dos Tabajaras, foi muito antes da chuva porque eles queriam nos tirar e não tem nada apresentado. Está vindo a Copa do Mundo e a Olimpíada, tem um preço de tabela da Prefeitura e eles estão oferecendo 40% em cima, estão com algum interesse porque é em Copacabana, na zona sul da cidade. É muita grana que rola, e eles não vão perder isso, estão procurando espaço para alojar todos os gringos que virão para o Rio, e eu acredito que ali seja um lugar para eles,” critica Ivan Nascimento, vice-presidente da Associação de Moradores do Morro dos Tabajaras.

2 comentários sobre “Moradores de favelas fazem protesto em frente à Prefeitura do Rio”

  1. Não à remoção!!!
    Mas… segundo o que informa o deputado Chico Alencar sobre o número de imóveis vazios na cidade, não se pode ficar “comendo mosca”!
    A melhor ocasião para se ocupar imóveis privados, vazios e passíveis de desapropriação, ou públicos, passíveis de negociações políticas, em áreas centrais, é agora!
    Os protestos não podem reduzir-se à reivindicações de imóveis para moradia e aguardar futura decisão de prefeitos ou governadores apenas com essa mixaria que oferecem de “aluguel social” na mão. Os movimentos por moradia deveriam, ao mesmo tempo que reivindicam, planejar e organizar ocupações e ir negociando no processo! Esse tem sido o melhor método que os movimentos sociais por terra e moradia construíram em suas experiências: Passar de luta meramente reivindicatória para lutas de conquista.
    Além de se denunciar as condições dos desabrigados em abrigos não se pode ficar aguardando as embromações dos governantes. A grande imprensa comercial, normalmente, passada a chuva e a retirada de corpos soterrados, que é o seu espetáculo preferido e que dá lucro nas audiências que atrai, sai do cenário e os desabrigados terão que se virar como puderem porque quanto menor o número de desabrigados em abrigos, indo para casas de parentes etc., não suportando os maus tratos e as humilhações, baixam os custos e a responsabilidade dos governantes em atender as necessidades de moradia.
    A tática sempre foi de embromar e desgastar os desabrigados para que se dispersem e não “encham o saco” dos governantes. Pois, construir casa para pobre ninguém quer porque não dá lucro, além de preços de terra para que os pobres possam pagar o custo final da moradia, somente se encontra bem distante das áreas centrais com poucos ou nenhum equipamento urbano disponível. Só dá lucro aos empreiteiros construir para a classe média comprar. E, como os governantes sabem disso, aliados com a imprensa corporativa, a especulação imobiliária, e interesses de empreiteiras de obras públicas, tudo vai ficando esquecido e os pobres vão se ferrando mais ainda do que já estão.
    O silêncio sobre a situação dos desabrigados preparará uma futura criminalização de suas ações políticas ou sociais e tudo será tratado com repressão policial militar. Daí a grande importância da imprensa alternativa que parte da ótica e interesses dos atingidos.
    Grande e fraterno abraço!!!

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