
Após os primeiros quatro anos de trabalho missionário, no Brasil (Campinas, 1958-1962), Comblin, atendendo a convite, vai ensinar na Universidade Católica do Chile, em Santiago. Acompanhar, com vivo interesse o que se passa no em torno do Concílio Vaticano II, ao mesmo tempo em que intensifica seus estudos e pesquisas sobre o Brasil e América Latina. Torna-se figura conhecida e apreciada, não apenas nos círculos eclesiais: mantém-se atento também ao que se passa na conjuntura chilena da época. Dado o conhecimento travado com Dom Manuel Larraín, então presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano), tornar-se-ia também conhecido de Dom Helder Câmara, feito Arcebispo de Olinda e Recife. Encerrado seu primeiro tempo de trabalho no Chile, Comblin é convidado por Dom Helder, então Secretário Geral da CNBB, a trabalhar na referida Arquidiocese, já a partir de 1965, como Diretor de Estudos do então CERENE II ( Seminário Regional Nordeste II) e, depois, ITER ( Instituto de Teologia de Recife).
Foi durante este período, que Comblin resolveu reunir textos diversos, em forma de artigos, e publicá-los em coletânea, sob o título acima indicado. Tratava de temas diversos, direta ou indiretamente atinentes àquele período pós-conciliar. Diversas questões ele levantava, sobretudo provocando Bispos, Padres e Leigos acerca da necessidade e urgência de aprofundar o conhecimento e o compromisso sobre a realidade brasileira. Para tanto, ele propunha situar o “status quaestionis” da Teologia frente à Evangelização, no contexto completo da realidade do Povo brasileiro, em sua ampla diversidade, inclusive tratando-se, não apenas de outras religiões, mas no interior do catolicismo. Não obstante a intenção renovadora do Concílio Vaticano II, e sem um conhecimento adequado das características das massas populares, não resultaria frutífera a tentativa de introduzir inovações inclusive no tocante à missão evangelizadora.
A missão evangelizadora supõe, não apenas um conhecimento prévio das potencialidades e dos limites dos evangelizandos como também sua preparação, uma vez que “Todavia as Sagradas Escrituras não revelam os seus segredos à primeira leitura feita sem iniciação. O principiante que abre a Bíblia sem iniciação deixará de lado, sem perceber, a mensagem mais íntima e profunda.” (p.12). Neste sentido, o autor chama atenção para o risco da prática de uma Teologia que, superestimando o peso de certa tradição, acaba conferindo uma interpretação do Evangelho mas conforme as pretensões desta dita tradição do que se faz presente no texto bíblico.
Para além da Teologia tradicional. Por exemplo, urgia conhecer o tipo e as raízes históricas do Catolicismo brasileiro. Inútil a tentativa de pretender-se aplicar as orientações constantes dos documentos do Concílio Vaticano II, sem antes conhecer diversos aspectos do Povo brasileiro: sua cultura, suas religiões, tipo de Catolicismo além de outros aspectos, como a Paróquia e seus limites e agentes pastorais. Vale assinalar, a este propósito, que no ano seguinte à publicação deste livro, teriam início as primeiras experiências da Teologia da Enxada, (1969): uma, localizada em Tacaimbó-PE, e outra em Salgado de São Félix-PB, de cujos estudos fazia parte o compromisso dos estudantes além de conviverem com as Comunidades rurais da região, anotando sistematicamente as características da cultura popular (a casa, os santos, as devoções, o trabalho, as plantas medicinais, o folclore, a música, a política, entre outras). Disto trata especificamente do livro do mesmo autor intitulado “Teologia da Enxada” (Vozes, 1977).
Sempre recorrendo a vários historiadores, antropólogos e de outras áreas do conhecimento, propõe uma instigante tipologia do Catolicismo brasileiro. Não obstante a preocupação com os elementos culturais do povo, isto não é ainda suficiente para se tomar como evangelização. Adverte o autor: “Faltam-lhe elementos até fundamentais.” (p.15).
Criar as condições favoráveis à formação de teólogos e teólogas, do clero ou do laicato, eis o que Comblin passa a refletir. Parte da constatação de que, mais do que necessária, faz-se urgente preparar as condições para a fundação de um Centro Latino-Americano de Teologia, com o propósito de assegurar as condições necessárias de uma produção qualitativa de teologia, a partir da realidade latina-americana. Um Centro capaz de assegurar a formação sistemática de novos teólogos e teólogas latino-americanos, quer sejam do clero ou do laicado. Uma Teologia destinada a formar um quadro preparado de pesquisadores e pesquisadoras, dispostos a produzir uma Teologia aberta aos novos desafios do mundo e da Igreja.
O autor não se limita a fazer mera crítica aos estudos da Teologia e da Filosofia, eis que ousa propor elementos fundamentais para a elaboração de um programa de estudos alternativo ao vigente. É assim que, tanto no que tange à teologia, quanto aos estudos propedêuticos, traz preciosas indicações (cf. pp. 43-44). No capítulo IV, atinente à questão das vocações sacerdotais e religiosas Comblin inicia advertindo sobre o comportamento submisso das elites brasileiras às ordens e as práticas aqui transmitidas pelas elites euro-americanas, preferindo-as em vez de acreditar nas enormes potencialidades da população nativa.
Sua proposta de programa tem sólida motivação e sólidas bases históricas. Com efeito, ao assinalar que o Catolicismo no Brasil não apresenta propriamente traços da Igreja medieval, mas antes profundas marcas tridentinas combinadas com o processo de colonização – acerca do qual convém destacar a densa contribuição, que, na década seguinte, também oferece o historiador Eduardo Hoornaert (cf. o seu livro “Formação do Catolicismo Brasileiro”, (Vozes, 1974); “O Cristianismo Moreno do Brasil” (Vozes, 1990) -, Comblin, além de listar e analisar as principais características e a evolução do Catolicismo brasileiro durante vários séculos ver (cap. ). Diferentemente da Igreja europeia Medieval – recheada de heresias, de sublevações de movimentos pauperistos -, o processo de Colonização que orientou a evolução do catolicismo no Brasil se demarca pelas relações entre o clero em aliança com o Rei, de um lado e, por outro, por uma massa de fieis que lhes devota fiel obediência, além de ser um Catolicismo oficialmente controlado desde Roma e desde às metrópoles.
Mantendo-se sempre empenhado em abordar os atuais desafios eclesiais, e em perspectiva histórica o autor foca, no cap. VI, as modificações que a aliança Igreja-Estado (República) operou, em relação à Paróquia. Situa os principais fatores componentes desta evolução, atribuindo também às ordens religiosas práticas diferenciadas, tanto em relação ao relativo abandono das Paróquias rurais quanto à atenção priorizada pelos Jesuítas às instituições de ensino, tal como se fazia no Catolicismo europeu do século XIX.
A coletânea de textos produzida por Comblin, situada na segunda metade dos anos 1960 – portanto, logo após a conclusão do Concílio Vaticano II – segue tratando temas desafiantes, naquela conjuntura. O tema concernente aos Padres como parte expressiva da coletânea, entende o autor ser urgente trabalha-se uma compreensão crítica dos sacerdotes, inclusive como condição para uma “aplicação” adequada dos documentos conciliares. Trata, então, de priorizar uma abordagem pastoral do Múnus Sacerdotal sem subestimar uma abordagem teológica. O autor, mais do que uma reflexão teológico-pastoral, oferece propostas concretas como pistas de enfrentamentos práticos dos novos desafios.
Na sequência, o autor empenha-se em vislumbrar a figura dos sacerdotes do futuro, em busca de um entendimento, a partir de uma leitura consciente dos sinais dos tempos, das características que o povo esperará encontrar nos futuros Padres. No que for essencial, a figura do sacerdote não sofrerá modificação: seguirá sendo um Ministro da palavra, dos Sacramentos e de outras atividades que lhe são próprias. Todavia, será instado a prestar mais atenção a novas demandas, a que não estava acostumado. Será chamado a conhecer melhor as pessoas em volta, de modo a conhecer melhor suas condições sociais, econômicas e psicológicas, sem o que já não mais contará com o apreço do povo de quem cuida. Daí se preparar, em tempo, para uma formação sacerdotal que atenda ao perfil adequado do Padre de amanhã. Neste sentido, Comblin reconhece a valorosa contribuição do Concílio Vaticano II – especialmente no documento especificamente dirigido aos presbíteros, a partir do qual tenta esboçar as qualidades adequadas dos futuros presbíteros. Quanto às marcas fundamentais do sacerdócio, não se vislumbra mudança. No entanto, quanto às marcas acidentais importa tomar na devida conta os traços conjunturais, componentes da pessoa do sacerdote, agora chamado a especializar sua formação, adaptando-se positivamente às novas exigências do tempo. A este respeito, em 1975, na Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” , o Papa Paulo VI advertia: “Os Homens deste tempo prestam mais atenção às testemunhas do que aos mestres. E se também prestam atenção aos mestres é porque eles são testemunhas”. (EN, n. 41 ).
A obediência, tal qual adotada no âmbito eclesiástico, constitui outro tema enfrentado pelo autor. Parte da constatação de um crescente mal-estar inter-geracional. Os jovens Padres, por exemplo, apresentam crescente dificuldade de obedecer aos superiores enquanto estes estranham o comportamento dos jovens, afinal, a obediência foi, ao longo de séculos, a via tradicional de regulação das relações clericais. Para destrinchar as principais marcas do sentido da obediência, Comblin, além de recorrer à Cristologia, também revisita a tradição monástica e a força das leis eclesiásticas.
No entendimento do autor, faz-se urgente avaliar, à luz também do atual contexto histórico o que indicam os sinais dos tempos, na apreciação deste fenômeno. Neste sentido, entre diferentes argumentos de que se vale, um deles tem apelo direto à Cristologia, o autor sublinha a relevância da obediência observada por Jesus diante do seu Pai, mas não diante das autoridades de seu tempo, em relação a que se mostrou bastante insubordinado, sobre o que nos remete ao Novo Testamento. “ Quase todos os livros do Novo Testamento exaltam a obediência de Jesus na vida e na Morte . O Salvador exige de seus discípulos a mesma obediência total e incondicional (…) Os autores espirituais fazem-no com certa facilidade, porque supõem que a vontade dos superiores coincide com a vontade de Deus, e até manifestam a vontade de Deus (…)Na realidade, a obediência de Jesus ao Pai é em si algo que não se identifica com uma obediência a um superior humano (…) Várias vezes na vida de Jesus aparece um conflito entre a vontade de Deus e a vontade das autoridades humanas. Jesus não se submeteu às exigências das autoridades de seu povo no que se refere a sua missão “. (p. 158).
No capítulo X, o autor propõe uma instigante reflexão sobre a Filosofia da História e a Salvação, cuidando de sublinhar potencialidades e limites da Filosofia da História reconhecendo inclusive sua insuficiência e seus limites para uma reta-interpretação do sentido da Salvação, ao mesmo tempo em que não deixa de reconhecer também valiosas intuições trazidas por distintas Escolas histórico-filosóficas. Ressalta, em especial, o peso exercido pela Filosofia greco-romana, ao longo da cristandade, destacando seu crescente distanciamento das fontes evangélicas.
Tocados pelas principais conclusões do Concílio Vaticano II, os bispos brasileiros, após a elaboração provocadora de um Plano de Emergência, (1962-1965), por meio da CNBB, cuidaram de propor seu Plano de Pastoral de conjunto, quadrienal, a ser vivenciado de 1966 a 1970. Nele, são propostas seis linhas de ação, das quais a segunda tratava da evangelização, enquanto a terceira focava a ação catequética – ambas tomadas como alvo de análise pelo autor, dadas suas afinidades. No capítulo XI, Comblin dedica-se a examinar cuidadosamente, sobretudo, a Segunda Linha. Reconhece o esforço positivo dos bispos brasileiros, de recepcionar o Concílio Vaticano II, conforme as condições do Catolicismo brasileiro, em suas potencialidades mas principalmente em suas fragilidades, devidas à complexidade histórico-social da população Católica do Brasil. O objetivo central do autor é problematizar o sentido e o alcance da formulação da Linha dois, para oque empenha-se em discutir teológica e pastoralmente os termos como vem redigida a segunda Linha. Em sua percepção, o foco da Linha dois, embora se apresente como Evangelização, caracteriza-se fundamentalmente pelo objetivo de converter ao Cristianismo, os que andam afastados da Igreja. Neste sentido, o autor entende pouco presente o núcleo da Evangelização, para além dos destinatários cristãos, de modo a tomar em conta também o processo de secularização, no Brasil e no mundo. Por tanto, a exigir atenção, não apenas aos católicos afastados, mas também aos não cristãos e aos envolvidos em outras expressões religiosas e mesmo os que não professam qualquer confissão religiosa.
Ao capítulo seguinte – o 12 – o autor dedica 30 páginas focando os desafios da Catequese. Rememorando os fundamentos da linha três do Plano Pastoral de conjunto da CNBB, Comblin cuida de refletir sobre diversos aspectos do tema, começando por assinalar a considerável distância entre os ensinamentos catequéticos oficiais e valores vivenciados pelo povo católico brasileiro, em seu dia-a-dia. Enquanto o primeiro sublinha aspectos doutrinários e teológicos, a enorme maioria dos católicos brasileiros, em seu cotidiano se mostra mais interessado nos santos, nas promessas, nas festas de padroeiros e coisas do gênero, de modo a pouca atenção dedicar aos aspectos da Catequese oficial que lhe é ensinada, considerada mais abstrata, baseada em conceitos e dogmas. O autor sugere a utilização de uma metodologia mais adequada para o ensinamento do núcleo da fé cristã, com ênfase no conhecimento das pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo (este parecendo menos conhecido do que os Santos), além do sentido e da prática das grandes virtudes cristãs – a Fé, a Esperança e o Amor.
No capítulo XIII, o autor enfrenta o desafio de compreender melhor diferentes facetas do Catolicismo brasileiro, enfatizando suas influências recebidas do Catolicismo europeu, bem como outras formas de sua vivência encarnadas por seu povo de modo a destacar suas diferenças.
O autor conclui a coletânea, com o capítulo XIV, discorrendo ainda sobre a multiplicidade de vivências da Fé, no âmbito do Catolicismo popular brasileiro. Amplamente fundamentado em diversos Antropólogos brasileiros, Comblin começa por destacar a profunda relação do Catolicismo popular com as religiões de matriz africana, sublinhando as adaptações feitas pela população afro-descendentes, de modo a conviver costumeiramente com este sincretismo religioso. Também assim procede o autor, ao refletir sobre a vertente indígena do mesmo catolicismo. Ele ainda aponta outras expressões do Catolicismo brasieliro a exemplo do Catolicismo sertanejo e do Catolicismo praticado pela classe média brasileira. A inquietação central do autor é a de contribuir no sentido de que os agentes de Pastoral tomem em consideração prévia tais dados da realidade, antes de se dedicarem a aplicação das Linhas propostas pelo plano pastoral de Conjunto e, antes disto para trabalharem, de modo fiel, o processo de Evangelização.
Relevância e atualidade de um “apreciador de urgências”
Em 2003, ao celebrar seus 80 anos, dentre tantas homenagens, Comblin foi contemplado com um poema certeiro, da lavra de Irmã Agostinha Vieira de Melo, intitulado “Apresador de Urgências”, que vale a pena revisitar (cf. “A Esperança dos Pobres Vive”. São Paulo: Paulus, 2003, pp. 213-214). Eis uma marca forte da trajetória deste exímio teólogo. Já em meados dos anos 1960, quando da publicação desta coletânea de textos produzidos por Comblin podemos observar a relevância e a atualidade importantes deste autor a exemplo de outras figuras luminares, José Comblin continua despertando o mesmo interesse, em nossos dias, bem como em séculos vindouros.
João Pessoa, 19 de Agosto de 2026
Alder Júlio Ferreira Calado
E-mail: aldercalado@gmail.com
Fonte: Blog Textos De Alder Calado, 19 de agosto de 2026
