Homenagem ao centenário de Nelson Werneck Sodré na ABI

Ao centro o jornalista Mario Augusto Jakobskind, ao de Olga Sodré, no auditório da ABI. Foto: Eduardo Sá.

Em homenagem ao centenário de um dos nossos maiores historiadores, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) realizou ontem (23), no Rio de Janeiro, uma atividade para relembrar os pensamentos de Nelson Werneck Sodré. O intelectual morreu em 1999, interpretou diversos campos da nossa cultura, indo desde a literatura à formação do exército brasileiro, e sua filha, Olga Sodré, que também colaborou nas pesquisas de sua obra, resgatou a essência de suas reflexões.  A atividade contou com a participação da direção de diversos sindicatos ligados à cultura e comunicação.
Divergindo ou não de suas interpretações sobre a formação do Brasil, o notável historiador não pode ser esquecido: publicou mais de 60 livros, além de ter escrito cerca de 1.300 artigos em veículos da imprensa brasileira. Sua filha acha que sua dimensão cultural é muito maior que a acadêmica, pois Nelson foi um intelectual engajado. Um dos pilares do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), que contou com um corpo de pensadores brasileiros ímpar, “é um intelectual de porte, um ícone para o pensamento brasileiro e uma luz para a atualidade”, diz sua filha. Ela também comentou que nas atividades do seu centenário muito se tem falado sobre uma cortina de silêncio sobre sua obra, inclusive nas universidades.
Segundo Olga, sua obra tem três etapas, entrelaçando a história e o jornalismo, no qual foi pioneiro com a pesquisa: entre os anos 30 e 50, ingressando na imprensa em 1934, é sua fase inicial; se torna um historiador reconhecido de 1950 a 1970; e a síntese de seu pensamento, quando apresenta suas teorias e já contesta o neoliberalismo, e segue a partir daí até sua morte. Sempre lutando em favor da cultura nacional, ao final de sua vida Nelson Werneck Sodré criticava a massificação cultural com sua padronização e os rumos que o país estava seguindo.
“Ele tinha uma luta pela cultura, e achava fundamental que a gente lutasse contra essa descaracterização. Mas tudo isso baseado em conceito e estudos da história do Brasil, ele mostra que a nossa cultura sempre foi transplantada e por isso é importante a gente combater a alienação brasileira. Dizer que até hoje nas nossas universidades temos que estar a tira colo com um autor estrangeiro qualquer para justificar a nossa tese.  Houve uma lacuna, as pessoas não sabem a história do Brasil. Minaram-se os alicerces da cultura. Não podemos transformar nada sem refletirmos como chegamos aonde estamos hoje”, observa Olga Sodré.
O jornalista e conselheiro da ABI, Mario Augusto Jakobskind, mediou a mesa do evento e ressaltou que a figura de Nelson Werneck Sodré também é importante para quebrarmos um pouco o preconceito com os militares. Ele destacou que muitos deles foram os primeiros da lista de cassados durante o golpe militar de 1964.
“Sodré para nossa geração é muito importante, muita gente se inspirou em suas ações. A memória, que muitas vezes é apagada por nossa elite, cabe a nós jornalistas preservá-la. Um país sem memória pode ser dominado, fica sem perspectiva no futuro”, afirma Jakobskind.
Apesar de sua formação militar, Werneck foi cassado durante o regime militar após o golpe de 1964. Foi preso, impedido de dar aulas, alvo de Inquéritos Policiais Milirates (IPM), e dedicou-se integralmente à escrita nesse período. Recusou-se a ir para o exílio e à reserva militar no Pará, contra a vontade da junta militar instalada durante a ditadura. Um marxista extremamente original, segundo sua filha, mantinha uma escrita agradável e acessível dando um significado histórico e também atual para sua obra.  Olga afirma que ele interpretou o movimento nacional que daria feição à nação brasileira, mas que foi derrotado pela forte onda do capitalismo que estabeleceu a globalização mundial e moldou a sociedade pelo consumo.
“Seu projeto de nação foi derrotado, mas ficou no Brasil e produziu parte de sua obra. A luta já vinha acontecendo nos bastidores, as tentativas de golpe eram sucessivas desde Vargas. Tentaram mandar ele para a reserva militar porque estava desmontando o esquema militar, e logo depois faz denúncias ao milagre econômico brasileiro e começa a criticar o neoliberalismo. É um observador atento com lucidez, em 1970 ele já apontava para crises que estão acontecendo hoje”, destaca Olga Sodré.
Foram distribuídos no evento 50 exemplares do livro Desenvolvimento brasileiro e luta ela cultura nacional, organizado por sua filha e publicado em 2000 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O livro foi elaborado com base no 1º Seminário sobre desenvolvimento brasileiro organizado pelo Ipea. Atualmente existem dois centros de estudos relacionados ao pensador: o ISEB Nelson Werneck Sodré, no Rio de Janeiro, e o Centro de Estudos Brasileiros Nelson Werneck, em Itu (SP), cuja página na internet é www.nws.itu.com.br.

Um comentário sobre “Homenagem ao centenário de Nelson Werneck Sodré na ABI”

  1. Parabéns companheiros do Fazendo Media pela matéria do centenário do General Nelson Werneck Sodré. Um historiador e militar que sempre honrou suas fardas.

Deixe uma resposta