A moda é dizer que o gigante despertou, mas acredito que brevemente voltará a dormir se não continuarmos as manifestações que assolaram o país. O ufanismo deve ser deixado de lado para dar lugar a uma série de reivindicações que há anos estamos proclamando. Devemos aproveitar o momento para que o gigante não volte a dormir e entre num estado de coma sem volta.
Todos entenderam o recado das ruas, e não pense que somente os governos de todas as esferas e os políticos que ficaram com o pé atrás. A mídia colonialista ficou de barba de molho. Todos devem se lembrar qual era a posição da mídia antes da repercussão das manifestações: todos os participantes eram chamados de vândalos e vagabundos. Essa era a opinião de todas as emissoras de TV’S, rádios e jornais. Os editorais da Folha de São Paulo e Estadão eram taxativos sobre como a polícia deveria reagir. De repente, os vândalos e vagabundos passar a ser tratados como manifestantes e pacifistas. Que mudança. Seria pelo fato de não haver líder ou representante nos protestos?
Em geral o manifesto foi grandioso, fez jus de uma participação popular bem diferente do ano de 1964, quando havia de um lado os militares e classe média burguesa e do outro lado intelectuais, sindicalistas e classe média. Mas onde estava o povo, a periferia, o negro, o branco pobre, o peão em geral? O povo não estava se sentido representado. Dessa vez todos estavam lá, contudo era difícil identificar quem estava na frente.
Foi quando os verdadeiros vândalos apareceram e as mídias tradicionais trataram de apoiar o manifesto para, aí sim, despolitizar o povo. Tome cuidado: esse manifesto é nosso e, ao contrário do que pregam, os partidos devem aparecer sim. Devemos cobrá-los sim, a ideia de uma passeata apartidária quer tirar as nossas responsabilidades daquelas pessoas que estão lá nos representando. Cabe a CADA UM DE NÓS, CIDADÃOS, saber exigir um bom serviço de nossos parlamentares. Estamos falando de um Congresso considerado o mais caro do mundo e ineficaz. Ineficaz por quê? Por nossa culpa. Não é simplesmente o eleitor digitar o nome do candidato e depois deixar para lá. Agindo dessa maneira estamos sendo omissos. Há tantas outras mazelas nesse país, dessa forma aquele “gigante” adormecido entrará em coma irreversível sem volta e tudo terá sido em vão.
O aviso é tanto para a direita golpista quanto para a esquerda comodista, que desde que chegaram ao poder parece que vivem o sonho de Alice. Acordem!
A onda popular deixou um recado para todas as esferas do governo, aos políticos e em especial à mídia conservadora: Não queremos mais ser objeto de manipulação.
Um amigo professor, Celso Sánchez, da PUC, me lembra do poder e a arma que temos nas mãos e não usamos, que é a nossa constituição. O artigo 14 é claro: o poder emana do povo, e é um dever do povo fiscalizar o Congresso.
A mídia conservadora brasileira tem que cumprir o seu papel de informar o cidadão, e fazer dele um formador de opinião para cobrar das autoridades devidas soluções. A mídia golpista não será aceita. Temos que acelerar o marco regulatório da mídia, que eles chamam de censura e para nós é a quebra de monopólio. Vamos democratizar e dizer NÃO para esses que há quase cinquenta anos sustentam um regime sanguinário, que destruiu e matou muitas pessoas. Para quem não sabe, os meios de comunicações são uma concessão pública que pertence ao Estado. E o Estado somos nós!
(*) Só queria lembrar que os atos ou abusos de poder praticados pela polícia nas manifestações não são novidade para quem mora nos morros e periferia. Nesses lugares, os negros em sua maioria estão ferrados. São lugares onde os cidadãos perdem todos os seus direitos, suas casas são arrombadas, seus direitos são violados e sua família violentada pelo poder fascista do Estado. Por isso, vemos que o artigo 5 da Constituição Federal não funciona para todos.
O mesmo recado é para nós, protagonistas dos manifestos: vamos reivindicar mais aquilo que nos é de direito. Vamos sair do OBA-OBA e parar de dizer que o gigante acordou, e nada de concreto acontecer de fato. Tomara que seja o primeiro de vários outros manifestos, e não termine nunca. Onde houver injustiça, não iremos calar as nossas vozes.
Che Guevara – “A característica fundamental da guerrilha é a mobilidade”
“Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros”
(*) Fábio Nogueira estudante de história da Universidade Castelo Branco e militante da Educafro. E-mail: fabionogueira95@yahoo.com.br. Celso Sánchez é professor de biologia na PUC.
